22
Fev 12

Pontuação de frase

Recomendo

 

 

      Um historiador, Cristiano Pinheiro de Paula Couto, quis saber como pontuar uma frase. Vai daí, achou que o melhor era perguntar ao Ciberdúvidas: «“A história ou, mais precisamente, a historiografia tem participado desse diálogo por meio de contribuições com origem em alguns de seus ramos, como a história intelectual e a história política renovada.”

      “A história, ou mais precisamente a historiografia, tem participado desse diálogo por meio de contribuições com origem em alguns de seus ramos, como a história intelectual e a história política renovada.”

      Afinal, como devo pontuar essa frase?»

     Ao que respondeu o consultor: «Recomendo a segunda opção, visto a expressão “mais precisamente” introduzir, de forma semelhante a um aposto, a retificação ou a especificação de uma expressão imediatamente anterior no contexto frásico:

   1. “A história, ou mais precisamente a historiografia, tem participado...”

      Em expressão [sic] “ou mais precisamente” poderia também ocorrer sem a conjunção coordenativa disjuntiva ou: “A história, mais precisamente a historiografia, tem...”

      Não encontro informação em gramáticas ou prontuários que reforcem esta minha recomendação. Na falta de outras fontes normativas, a observação de corpora linguísticos pode ser útil para definir um padrão de uso. Por isso, compare-se 1 com a pontuação das frases 2 e 3, recolhidas no Corpus do Português, de Mark Davies e Michael Ferreira:

      2. “A França, mais precisamente Paris, passou a ser o centro das atividades artísticas.”

      3. “No século XV, mais precisamente em 1442, fundou-se a Gilda [sic] de São Lucas.”

      Os exemplos 2 e 3 permitem evidenciar que “mais precisamente X” se usa habitualmente entre vírgulas.»

      Sim, «mais precisamente X» usa-se habitualmente entre vírgulas, mas as expressões definidoras ou esclarecedoras, como alguns autores as designam, tais como isto é, a saber, quer dizer, ou seja, etc., não incluem a rectificação ou especificação, e, assim, a primeira opção também está correcta.

 

[Texto 1134] 

Helder Guégués às 21:32 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas:

«Leão-marinho-da-califórnia»

Não recomendo

 

 

      «Penso que o correcto», escreve Maria Sousa, uma editora, no Ciberdúvidas, «é escrever leão-marinho-da-califórnia, ou seja, com as iniciais minúsculas. No entanto, se se pretender, para salientar o nome do animal, começar por maiúscula, devo utilizar a maiúscula para as restantes palavras que compõem o nome? Ou seja, devo escrever Leão-marinho-da-califórnia, ou Leão-Marinho-da-Califórnia?» Não percebo para quê tal realce, mas está bem. O consultor respondeu: «A palavra corresponde a substantivo comum, pelo que deve ser escrita com iniciais minúsculas: leão-marinho-da-califórnia. Sobre a possibilidade colocada, tendo em conta que preposições e contrações não têm maiúscula inicial em nome de países (p. ex., Estados Unidos da AméricaCosta do Marfim), recomendo a forma proposta pela consulente, só em situações excecionais: Leão-Marinho-da-CalifórniaA possibilidade colocada... Bem, eu não recomendo.

 

[Texto 1133]

Helder Guégués às 08:48 | comentar | favorito
Etiquetas:

Como se traduz nos jornais

Ou uma prostituta vestida

 

 

      «“Nessas soirées as mulheres não tinham roupa, e desafio quem quer que seja a distinguir uma mulher nua de uma prostituta nua”, disse o seu advogado Henri Leclerc» («Strauss-Kahn permanece sob detenção numa esquadra de Lille até terminar interrogatório», Rita Siza, Público, 22.02.2012, p. 19).

      Soirée! Mas então que diremos? Serão? Sarau? Reunião nocturna? Na imprensa de língua inglesa, escreveram assim: «“At these parties, people were not necessarily dressed, and I defy you to tell the difference between a naked prostitute and any other naked woman,” he said.» Reparem também: «people were not necessarily dressed». O Libération diz o mesmo: «Selon le conseil de DSK, “dans ces soirées, on n’est pas forcément habillé. Et je vous défie de distinguer une prostituée nue d’une femme du monde nue”, avait déclaré Me Henri Leclerc.» Mal traduzido, pois.

 

[Texto 1132]

Helder Guégués às 07:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas:

Como se escreve nos jornais

Da participação em rixa

 

 

      Pierre Casiraghi, o filho mais novo da princesa Carolina do Mónaco, envolveu-se numa briga num bar de Nova Iorque. É o que se lê no Público, e percebe-se («Nova Iorque. Pierre Casighari [sic] ferido em briga», «P2»/Público, 22.02.2012, p. 15). O último parágrafo, pelo estilo telegráfico, é que nos deixa um pouco atordoados: «No domingo, Pierre foi hospitalizado para tratar ferimentos e Adam Hock compareceu perante em [sic] tribunal, sendo acusado de agressões. Questionou por que não havia acusações contra Casighari [sic]. A Casa Real de Mónaco comentou.»

 

[Texto 1131]

Helder Guégués às 07:36 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas:
22
Fev 12

O AOLP90 mal pensado

Uma espécie de argumento

 

 

      «Eu não vou aderir nunca ao acordo ortográfico», escreve o fundador do Clube dos Pensadores, Joaquim Jorge, na edição de hoje do Público. Há muitas pessoas a dizerem o mesmo, mas têm sempre* mais de 50 anos (e 60, e 70...) e não vivem, directa ou indirectamente, da escrita. A mensagem principal, demasiado repetida, é a de que o autor não vai escrever em conformidade com as novas regras ortográficas. «Vou escrever sempre como aprendi e me ensinaram.» «A língua é algo inegociável e patriótico, nada se consegue à força. Eu vou continuar a escrever como antigamente.» «Não contem comigo.» «Quando escrevo um artigo de opinião para um jornal vinco no fim do texto que escrevo ao abrigo do antigo acordo ortográfico, aliás não sei escrever ao abrigo do novo acordo e nem me interessa saber nem perceber.» Argumento (ou ameaça, ou ideia...) final: «Não se muda uma língua por decreto, contra a vontade de um povo e contra a maioria de pareceres técnico-científicos. O que é imposto dificilmente é aceite.» Ah não? Então e a ortografia do Acordo Ortográfico de 1945, aquela que o biólogo Joaquim Jorge usa, é inata, uma dádiva dos deuses?

 

[Texto 1130]

 

 

 

      * Só com uma excepção, que eu conheça: João Pedro Graça, o primeiro subscritor da ILC, que, segundo notícia do Público aqui reproduzida, «abdicou da sua profissão, e está agora desempregado, por se recusar a trabalhar subjugado pelo AO». Só espero que não aufira subsídio de desemprego, pois era como o tipo que mata os pais e depois pede auxílio por ser órfão.

Helder Guégués às 06:52 | comentar | ver comentários (4) | favorito
Etiquetas: