28
Fev 12

Léxico: «dementres»

Enquanto e não

 

 

      «[...] ou só dementres agora sim nos víamos?» Na última edição da revista Ler, num artigo sobre a obra de Fernando Assis Pacheco, outro Fernando, Venâncio, e cito de cor, afirma que a palavra «dementres», usada pelo autor de Respiração Assistida, nunca antes vira imprensa. Sem contar, suponho, com os dicionários. Nem Fr. Fortunato de São Boaventura. Nem Teófilo Braga. «Emmentes» (sinónimo, sugere Morais, para evitar equívocos com «dementes») cheguei eu a ouvir no Alentejo. Em francês antigo, assim como em castelhano antigo (e, actualmente, sob a forma mientras), também se regista o termo, tudo com origem, tem-se alvitrado, no latim coloquial dum interim.

 

[Texto 1154]

Helder Guégués às 22:21 | comentar | ver comentários (11) | favorito
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Língua e racismo

Estáquio vs. D’Elboux

 

 

      «O Dantas é um cigano! O Dantas é meio cigano! O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias pra cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz!» Se fosse hoje e estivesse no Brasil, Almada Negreiros arriscava-se a levar com um processo em cima. «O Ministério Público Federal (MPF)», lê-se no Estadão, «entrou com ação na Justiça Federal em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, para tirar de circulação o Dicionário Houaiss, um dos mais conceituados. A publicação conteria, em uma das acepções da palavra cigano, expressões “pejorativas e preconceituosas” e praticaria racismo. A Justiça não se manifestou.» Ao menos isso. «Para o procurador Cléber Eustáquio Neves, o texto afronta a Constituição e pode ser considerado racismo. “Ao se ler em um dicionário que cigano significa aquele que trapaceia, ainda que se deixe expresso que é pejorativo, fica claro o caráter discriminatório da publicação.” A advogada Sonia Maria D’Elboux, especialista em direitos autorais, discorda da ação. “A Justiça não pode apagar a História. É natural que um grande dicionário registre esse significado.”»

 

[Texto 1153]

Helder Guégués às 21:07 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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A etimologia

Aplacar as iras

 

 

      A etimologia... A quem ocorre, perante a palavra «duvidar», por exemplo, que parte de duo, tal como «duelo», «dualismo», «dobro», «dúplice»? «Pacare», escreveu Elviro Rocha Gomes na comunicação «O Homem e a Língua» (separata da revista Labor, n.os 284 e 285, 1970, p. 12), «significava aplacar e agora significa pagar; deve ser porque quem paga aplaca as iras do credor.»

      Elviro Rocha Gomes, professor, poeta, escritor, tradutor e um grande divulgador da poesia alemã entre nós, também lembrou, neste texto de uma conferência no Círculo Cultural do Algarve, que até «no que diz respeito a antropónimos, a língua mais uma vez se impõe ao homem, como o provam os numerosos Lisboas, Portos, e o Dr. Paulo Quintela, que se assina assim mas é Paulo Pires, natural de Quintela».

 

[Texto 1152] 

Helder Guégués às 19:37 | comentar | favorito
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28
Fev 12

Requerimentos e contestações

Estamos em tribunal

 

 

      Desta vez, foi a jornalista Isabel S. Costa, da RTP, que acompanhou o caso de Iñaki Urdangarín, genro do rei de Espanha. O advogado, Mario Pascual Vives, declarou que o duque de Palma «atendió a todos los requerimientos que le formularon por parte de la Casa de su Majestad el Rey». Nas legendas, apareceu: «respondeu a todos os requerimentos». Ficámos também a saber, pelas legendas, que o genro do rei de Espanha «conseguiu contestar completamente a todas e cada pergunta que lhe foram fazendo».

 

[Texto 1151]

Helder Guégués às 08:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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