04
Mar 12

«Para lá disso»

Para lá disso, pra lá disso, palradiço...

 

 

      «A diferença de Mounier estava em que, para lá disso, propunha simultaneamente uma espécie de “socialismo cristão”, com o objectivo missionário de regenerar o proletariado, horrivelmente oprimido por um capitalismo sem alma, e o reconduzir a uma associação amigável de produtores (de patrões, claro, e de trabalhadores), ou seja, de uma forma qualquer de corporativismo» («Obra meritória», Vasco Pulido Valente, Público, 4.03.2012, p. 56).

      «Para lá disso». Não é lá muito eufónico, valha a verdade. Podia ser pior, olá se podia: «para além disso». Contudo, o simples mérito relativo não chega.

 

[Texto 1181] 

Helder Guégués às 11:25 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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«Em boa verdade»

Pois é

 

 

       Repórter José Ramos e Ramos, no Telejornal de anteontem: «Cortam-se os legumes, pica-se a cebola, mas não estamos num restaurante. Em boa verdade, estamos no Mercado Municipal de Alvalade, em Lisboa.» As expressões em boa verdade e na verdade são sinónimas? Então porque é que eu não me vejo a usar a primeira, deveras curiosa, no contexto acima?

 

[Texto 1180]

Helder Guégués às 11:09 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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AOLP90: um mal-entendido

Desgosta de algumas regras?

 

 

      «O novo acordo ortográfico», disse a jornalista Diana Palma Duarte no Telejornal de anteontem, «abala agora a Associação de Professores de Português. Não gostaram de saber que o secretário de Estado da Cultura desgosta de algumas regras e admite ajustamentos em alguns casos. Para Francisco José Viegas, as palavras geraram um mal-entendido. “Há uma leitura abusiva das declarações que eu fiz, e uma descontextualização clara dessas declarações. Aquilo que para nós é evidente é que existe um acordo ortográfico que está em vigor, e portanto, está em vigor desde 2012, e isso não está em causa, nunca esteve em causa nem poderá estar em causa.” O período de adaptação ao acordo termina em Dezembro. Portugal não vai rever as regras e se ajustamentos estivessem nos planos teriam de passar por todos os países lusófonos.» Por isso é que é um acordo, pois claro.

 

[Texto 1179]

Helder Guégués às 09:41 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Perdão/com licença»

Pardon me

 

 

      Às 8 da manhã, a minha filha já me estava a dar lições. Arroto (é do Penicillium roqueforti) e digo «com licença». «Não se diz “com licença”, papá, diz-se “perdão”.» «Neste caso, é igual», digo-lhe, mas ela tem uma teoria — ou mesmo uma tese, sei lá, Da Eructação e Formas Correlatas de Cortesia — e não se deixa convencer. Não hoje, pelo menos.

      «Parecia mais calmo, tornou a arrotar, até disse um “com licença” de bom agouro. Graças, meu Deus!» (O Pão não Cai do Céu, José Rodrigues Miguéis. Lisboa: Editorial Estampa, 1982, p. 154).

 

[Texto 1178]

Helder Guégués às 08:40 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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04
Mar 12

Pronomes de tratamento

Vossa Beatitude

 

 

      No cartoon de Jeff Danziger que vem hoje na Pública, intitulado «Teologia moderna», o papa pergunta: «Que história é esta de o grande Presidente católico, John F. Kennedy, ter tido um caso com uma rameira de 19 anos?» «Bom», respondem-lhe, «é só a palavra dela sobre o caso, Vossa Senhoria». No original, «Well, there’s only her word that it happened, Your Grace...» Bem, quem traduziu não se preocupou em pensar nem em investigar. A forma de tratamento adequada é Vossa Santidade. Vossa Senhoria, que em Portugal não se usa, é de emprego praticamente residual, para autoridades não contempladas com tratamento específico.

      «A 19-year old trollop», lê-se no original. O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora dá como tradução de trollop, um termo ofensivo, «prostituta; mulher desleixada». É pouco e fraco.

 

[Texto 1177]

Helder Guégués às 07:55 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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