25
Mar 12

«Pensar fora da caixa»

Um poceiro rico

 

 

      «Roy nasceu em 1945 em Burnpur, em Bangala [sic] Ocidental. “Estudava ainda quando fui fazer voluntariado durante uma das mais graves fomes, no Bihar, em 1965-66. Milhares de pessoas morreram. Mudou a minha vida.” “Como é possível haver pessoas que vivem em tal penúria, pensei. E nós, os que recebemos a melhor educação, não lhes damos nada em troca.” Os bangalis, dizem os locais, gostam de olhar em frente, de ter ideias fora da caixa. “Mudei o meu fato de três peças e a gravata pela kurta que se veste nas aldeias, e é o que uso na Índia e no estrangeiro”, diz num depoimento escrito que enviou à 2» («Sanjir Bunker Roy», Ana Gomes Ferreira, «2»/Público, 25.03.2012, p. 36).

      Sanjir Roy é o fundador da Universidade dos Pés Descalços — Barefoot College. Estou a vê-lo na conferência que deu nas Ted Talks, vestido com uma kurta cor de vinho, e, quanto a ter ideias fora da caixa, o jornalista não aproveitou as sugestões que aqui deixámos.

 

[Texto 1262]

Helder Guégués às 19:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «combinado»

Também se come

 

 

      «Foi a altura dos drugstores como o do centro comercial Apolo 70, no Campo Pequeno, com o seu espaço de bowling e o restaurante também de madeiras pesadas, com as mesas organizadas num círculo em torno de um espaço central. O tempo em que era moderno pedir um “combinado”» («A memória e um batido de banana», Alexandra Prado Coelho, «2»/Público, 25.03.2012, p. 42).

      O mais extraordinário, acho eu, é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista a acepção: «prato de hambúrguer, rissóis, salsichas ou outro ingrediente similar, servido com acompanhamento de batatas fritas e salada e, por vezes, ovo e fiambre». Mas no Galeto é «hamburguês em brioche». Hoje em dia, ao ouvir-se a palavra, pensa-se logo em frigoríficos, e esta é acepção que os dicionários ainda não registam.

 

[Texto 1261]

Helder Guégués às 16:17 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Sobre «despoletar»

É a guerra


 

      «Discretamente alojado entre dois neurónios quaisquer, acabei, depois, por associar o caso ao enredo de “Uma aventura inquietante”, o folhetim que José Rodrigues Miguéis publicou originalmente no jornal O Diabo, em 1934: a acção também decorre na Bélgica, onde Miguéis foi emigrante, e é espoletada pelo aparecimento de um cadáver num parque de Bruxelas, o de Woluwee; mas o único português da história, Zacarias de Almeida, é apenas vítima do sistema judicial, que nele vê um suspeito fácil, e métèque ainda por cima» («Da terceira classe», Jorge Marmelo, «2»/Público, 25.03.2012, p. 10).

      Já não vai havendo (vêem como isto é gradual?) paciência — mas cada um sabe de si — para estes espoletares.

 

[Texto 1260] 

Helder Guégués às 15:30 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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«Invocar/evocar»

Ao menos é no Egipto, com p


 

      «Voltámos a ouvir falar nele, no cristianismo ortodoxo copta (existe também uma língua copta, que foi dominante no Egipto no I milénio da nossa era), a propósito da morte do papa de Alexandria, Shenouda III, no outro fim-de-semana. Tinha 88 anos e era papa desde 1971. As imagens da [sic] exéquias invocaram um duplo sentimento, de familiaridade e de estranhamento. Eles são cristãos, mas num país de cristãos que nada tem a ver com o nosso» («Alexandria. Os vizinhos escondidos», Miguel Gaspar, «2»/Público, 25.03.2012, p. 4).

      Isto melhorou: «Shenouda III». E piorou: as imagens «invocaram» um «duplo sentimento». Ora adeus.

 

[Texto 1259]

Helder Guégués às 15:07 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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«Devotar ao abandono»?

Neologias e fantasias

 

 

      Voltei a encontrar o vocábulo «tercena». Foi num artigo de opinião da edição de hoje do Público, assinado pelo fotógrafo e ruinólogo (!) Gastão Brito e Silva, intitulado «As tercenas do Marquês». Na legenda da imagem que ilustra o artigo, lê-se: «As tercenas eram locais onde se construíam embarcações». «Este foi o edifício que mais me enganou e durante mais tempo, vivi lá perto e sempre ouvi a mesma história, eram as prisões do Marquês de Pombal! Fica situado entre as traseiras da R. das Janelas Verdes e a Av. 24 de Julho, e esteve completamente devotado ao abandono durante muitos anos.» Senhor ruinólogo (vá, mandem para o Observatório de Neologia do Português), é «votar ao abandono» que se diz. Em alternativa, recorra a sinónimos: negligenciado, descurado, desprezado.

 

[Texto 1258]

Helder Guégués às 10:52 | comentar | ver comentários (19) | favorito
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A culpa é de Merah

Vamos lá engastar mais umas pedras

 

 

      Jornalista João Botas no Telejornal: «O relatório da autópsia indica que o corpo estava cravejado de balas, mas apenas duas foram fatais.» Os erros — já repararam? — são prontamente copiados. Como é que jornalistas confundem repetidamente crivar com cravejar? Porque é que ninguém, da própria RTP, os avisa?

 

[Texto 1257]

Helder Guégués às 10:12 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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25
Mar 12

Como falam os jornalistas

Dupla vergonha

 

 

      Patrícia Melo Moreira, uma das jornalistas agredidas pela Polícia, estava ontem à tarde junto à porta da Direcção Nacional da PSP. A jornalista contou como foi. Tudo se passou na Rua «Garré», descreveu. «O que aconteceu foi que eu e o Zé [...].» Espere aí: qual Zé? Tem apelido? «Entretanto um manifestante interviu para me tentar levantar do chão.» Desisto. Mas quanto ao acontecimento: é uma vergonha que a Polícia perca a calma tão facilmente e fique assim cega.

 

[Texto 1256]

Helder Guégués às 00:23 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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