30
Mar 12

Sobre «cante»

Ora, não se percebe

 

 

      «A reunião no MNE foi acompanhada no exterior do Palácio das Necessidades pela actuação de meio milhar de cantadores alentejanos. Entre os temas interpretados, ouviu-se Grândola, Vila Morena. Antes, numa conferência de imprensa na Casa do Alentejo em Lisboa, a comissão executiva lamentou a decisão do embaixador António de Almeida Ribeiro de adiar a entrega da candidatura, alegadamente por ela ter sido questionada por alguns dos membros da comissão científica que colaborou na sua elaboração. Na sessão, o actor alentejano Nicolau Breyner deu voz à “indignação” dos seus conterrâneos: “A candidatura está pronta, tem qualidade inquestionável e é tecnicamente inatacável.”» («Cante alentejano insiste na candidatura», Sérgio C. Andrade, Público, 29.03.2012, p. 27).

      O vocábulo, de que cheguei a tratar no Assim Mesmo duas vezes (numa delas referi que o revisor antibrasileiro o desconhecia), continua a não estar registado nos dicionários. E agora sobre a substância da notícia: é já a segunda vez que leio ou ouço, escrito ou dito por não especialistas, que esta candidatura é tecnicamente inatacável. Se não são especialistas que o dizem, não estarão apenas a repetir o que ouvem? Donde lhes vem a autoridade para darem estas opiniões?

 

[Texto 1288]

Helder Guégués às 00:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se escreve nos jornais

«O próprio De Cantos»?!

 

 

      «Terminaram há dias, na Oporto, as Jornadas Cantianas. Dito assim, poder-se-ia pensar que uma instituição portuense acolheu um colóquio sobre o filósofo da Crítica da Razão Pura. Mas “cantianas” refere-se a Paulo de Cantos (1892-1972) e Oporto é um espaço lisboeta dirigido pelo artista plástico Alexandre Estrela. O próprio De Cantos, tão apreciador do siso como do riso, apaixonado por jogos de palavras, teria achado graça ao potencial equívoco» («Paulo de Cantos: a redescoberta de um gráfico de vanguarda», Luís Miguel Queirós, Público, 29.03.2012, p. 27).

 

[Texto 1287]

Helder Guégués às 00:55 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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AOLP

Feitisos pzeudo-etimolojicos

 

 

      «Como muitos outros autores antes dele, sonhou com uma língua universal. No final dos anos 1950, publicou PAKGrafia Abreviada Kosmos, unificando e simplificando a ortografia luso-brasileira, mas que depois desenvolveu, visando a criação de um idioma universal, na linha do esperanto. Se ainda fosse vivo, provavelmente não defenderia o actual Acordo Ortográfico (AO), mas por o considerar demasiado conservador. Em PAK, propõe uma “grafia sem luxo nem lixo”, e o próprio livro é redigido na ortografia que concebeu. Numa antecipação, em versão radical, das críticas que hoje são feitas aos adversários do AO, escreve: “Quem n’ gostar disto p’ q’ n’ regressar ao ph, i grego, ao K i ao W? ainda avera abenseragens apaixonados deses ‘feitisos pzeudo-etimolojicos’.”» («Paulo de Cantos: a redescoberta de um gráfico de vanguarda», Luís Miguel Queirós, Público, 29.03.2012, p. 27).

 

[Texto 1286]

Helder Guégués às 00:54 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Árabe magrebino

Por clareza

 

 

      «Um dos seus livros mais notáveis – no grafismo e conceito – é o Dicionário Técnico (1942), com chapas metalizadas numa capa em relevo. Os verbetes são organizados em cinco núcleos, a explanação dos termos é por vezes mais analógica do que descritiva, e inclui um esquema de índice cruzados que antecipa o hipertexto da era digital. Os verbetes estão traduzidos não apenas nas principais línguas europeias vivas mas também em latim, magrebino, russo ou japonês» («Paulo de Cantos: a redescoberta de um gráfico de vanguarda», Luís Miguel Queirós, Público, 29.03.2012, p. 27).

      Magrebino é como quem diz. Árabe magrebino, deveria ter escrito Luís Miguel Queirós. É um dialecto do árabe falado em Marrocos, na Tunísia, na Argélia e na Líbia.

 

[Texto 1285] 

Helder Guégués às 00:52 | comentar | favorito
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30
Mar 12

Desgraçado verbo «haver»

Uma médica a falar assim...

 

      Uma mulher entrou no Hospital Garcia de Orta, em Almada, para ser operada às varizes... e acabou amputada a uma perna. Ana França, directora clínica do hospital, disse ao repórter da RTP: «Eu lamento profundamente a ocorrência e lamento sobretudo que desta situação tenham havido tantas complicações que podem ser inerentes à própria doente, mas que teve um factor desencadeante que não era da doente.»

 

[Texto 1284]

Helder Guégués às 00:49 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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29
Mar 12

Sobre «soletrar»

Parece-me que não

 

 

      Pedro Lomba presta hoje homenagem, na sua crónica do Público, a Millôr Fernandes, que, como todos os bons autores, mais do que homenageado, precisa de ser lido, e escreve isto: «Em Portugal Millôr não sabia que tinha um leitor no governo: Salazar. Diz-se que, comentando com algum ministro as suas crónicas, Salazar terá soletrado: “Este gajo tem piada. Pena que escreva tão mal o português.”» («Millôr, génio sem dor», Pedro Lomba, Público, 29.03.2012, p. 52).

      Adequar-se-á ao contexto este verbo, «soletrar»? Sim? Não?

 

[Texto 1283]

Helder Guégués às 17:10 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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29
Mar 12

Em 1965, era assim

Revisão da casa editora

 

 

      O leitor Rui Almeida está a ler a obra O Fenómeno Humano, de Teilhard de Chardin (Porto: Livraria Tavares Martins, 1965, com tradução de Léon Bourdon e José Terra), e encontrou esta «Nota dos Tradutores», a anteceder uma página de «Erratas» (!): «A responsabilidade da grafia das palavras cosmoverisímilinverisímil e seus derivados, evolver e suas flexões cabe exclusivamente aos serviços de revisão da casa editora. Os tradutores pedem que se restabeleçam por toda a parte as formas cosmos, verosímil, inverosímil, evoluir, etc., as únicas por eles admitidas. Repare-se ainda que Maquerodos (pág. 160) é aportuguesamento da forma científica Machairodus

      No Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, o que podemos ler é que «cosmo» é «forma preferível a cosmos»; «verisímil» é «forma apenas de uso português» (pelo que também está legitimada a forma «inverisímil») e «evolver» é «forma preferível a evoluir (gal.)». No tocante a «Maquerodos», nada há que dizer, parece-me. Léon Bourdin, apesar de pertencer à Academia das Ciências, ainda tinha desculpa, parece-me, mas José Terra, tradutor de obras de autores franceses, não. Ou será ao contrário?

 

[Texto 1282] 

Helder Guégués às 10:27 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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