24
Abr 12

Gorilas na Casa Branca

Obscuríssimo

 

 

      «Onze membros das secretas são suspeitos de terem frequentado casas de prostituição durante a preparação de uma viagem de Barack Obama a Cartagena das Índias, Colômbia, para a Cimeira das Américas. Os agentes foram entretanto suspensos e foi aberto um inquérito interno» («Imagem dos ‘gorilas do Presidente’ manchada», Tangi Quemener, Diário de Notícias, 23.04.2012, p. 25).

      É uma tradução, pois Tangi Quéméner é «correspondant à la Maison Blanche, Agence France-Presse», pode ler-se na conta do Twitter. Vejam como escreveram Cartagena das Índias e não, como tantas vezes se vê, Cartagena de las Índias ou Cartagena de Índias. As aspas do título é que eram escusadas, independentemente de quase todos os dicionários afirmarem que gorila é somente o mamífero antropomorfo. Gorila ou gorilha, variante que nunca vi fora dos dicionários. Agora reparem: segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o étimo é o grego «górillai, mulheres africanas muito peludas». Hã?! No número 78 do Boletim da Real Academia Espanhola, o que se lê é que provém do latim científico gorilla, e este do grego górillai, o nome da tribo de mulheres peludas supostamente encontrada pelo cartaginês Hanão 510 anos antes de Cristo.

 

[Texto 1420] 

Helder Guégués às 19:28 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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«Configurar-se como»

Um tudo-nada desfigurada

 

 

      «Para saber “se houve alguma situação que possa ser configurada com sequestro”, Alberto João Jardim ordenou a abertura de um inquérito sobre a realização das buscas, incumbindo dessa missão o seu vice-presidente, presentemente com a tutela das instalações. Mostrando estar incomodado com a investigação, o governante pretende ver apurado “se os agentes intervenientes estavam munidos de mandado legal” para efectuar as buscas e “se houve alguma situação que possa ser configurada com sequestro”» («Quadro do Governo Regional tentou fugir com documentos», Tolentino de Nóbrega e Mariana Oliveira, Público, 24.04.2012, p. 2).

      Duas vezes já configura erro a precisar de intervenção. Em vez da preposição, devia ter sido usada uma conjunção: «possa ser configurada como».

      «E por isso a noite de núpcias configurava-se como uma verdadeira noite de terror para as noivas que, na manhã seguinte, apareciam tristes e com fundas olheiras, machucadas como se encontravam por uma dor só comparável a um parto infeliz» (A Ilha Fantástica, Germano Almeida. Lisboa: Editorial Caminho, 1994, p. 45).

 

[Texto 1419]

Helder Guégués às 16:00 | comentar | favorito
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Bifes & etc.

Mal traduzido

 

 

      Um grupo de investigadores suecos da Universidade de Lund defende que a inclusão de carne na dieta do Homem teve um papel importante na expansão das populações humanas e talvez até mesmo na dominância da espécie no planeta. «Segundo o grupo coordenado pelo investigador Elia Psouni, a caça, além de proporcionar os bifes, permitiu ampliar também as capacidades de cooperação e de linguagem, que fortaleceram a espécie humana» («Comer carne permitiu salto evolutivo», Diário de Notícias, 23.04.2012, p. 30).

      Estão a ver uma cabra-montês a proporcionar umas boas fatias de carne? Só bifes, nada mais. No artigo dos investigadores, em inglês, pois claro, lê-se sempre o termo «meat».

 

[Texto 1418]

Helder Guégués às 15:32 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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«Cortina de Ferro»

Decalcada do inglês

 

 

      «Originalmente lançado em 1988, Utz toma a história deste colecionador de porcelanas (ver caixa), que uma vez por ano tinha autorização para passar uns dias em Vichy (aproveitando, de passagem pela Suíça, onde guardava dinheiros de outros tempos, para comprar mais uma peça rara), para fazer não só o retrato da vida numa grande cidade do lado de lá da cortina de ferro – Praga, neste caso –, dar-nos um á-bê-cê das porcelanas de Meissen e explorar a psicologia de dedicação exacerbada de um colecionador» («Retrato de um colecionador nos dias da Cortina de Ferro», Nuno Galopim, Diário de Notícias, 23.04.2012, p. 46).

      Repara-se logo na falta de uniformidade: Cortina de Ferro no título, cortina de ferro no artigo. Habitualmente, é com maiúsculas iniciais que se vê a expressão, que foi cunhada, como se sabe, por Churchill. Manuel de Paiva Boléo afirmou que, «se se tivesse traduzido com espírito vernáculo a expressão, deveria dizer-se “pano de ferro”, que é o termo próprio da linguagem do teatro». Em inglês, iron curtain.

 

[Texto 1417] 

Helder Guégués às 10:15 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «mosaicista»

Como seria de esperar

 

 

      «Na obra trabalharam 118 artistas e artífices, entre mosaicistas, metalistas, ourives, escultores... E, no entanto, D. João V, que morreu em 1750, não chegou a ver a capela concluída. O êxito da exposição de 1898 é um dos ‘culpados’ da abertura do museu de arte sacra da Igreja de S. Roque. Adães Bermudes, arquiteto, é o primeiro diretor» («Capela de S. João Baptista renasce após restauro», Lina Santos, Diário de Notícias, 23.04.2012, p. 47).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe apenas o sinónimo «mosaísta» ­— que provém do francês mosaïste. É «mosaicista» que encontro, o que seria de esperar, na obra de J. Leite de Vasconcelos.

 

[Texto 1416]

Helder Guégués às 09:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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24
Abr 12

Sobre «pedestre»

Humildes, simples, vulgares

 

 

      «A recusa do “império da economia” permite-lhe mais facilmente conquistar o voto dos jovens precários, dos insatisfeitos e dos trabalhadores. Entre as propostas de Marine Le Pen contam-se muitas reivindicações básicas e pedestres» («A ânsia de protecção», Pedro Lomba, Público, 24.04.2012, p. 48).

      É uma questão de estilo, claro está, porque, apesar de ser acepção que veio directamente do castelhano (llano, vulgar, inculto, bajo), é usado em português e até está registado em alguns dicionários — e não somente no azevieiro, como o descreve Montexto, Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.

 

[Texto 1415]

Helder Guégués às 07:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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