25
Abr 12

«Atericiado»

Os que não morriam salvavam-se

 

 

      «Na quarta-feira passada ouvi Nuno Crato na TVI 24. Afirmou que não há razões pedagógicas para dizer que 30 alunos por turma seja mau. Perante o esboço de contraditório do entrevistador, perguntou-lhe quantos alunos tinham as turmas no tempo dele. Esta conversa não é de ministro. É de farsola, que não distingue pedagogia de demagogia. No meu Alentejo e no meu tempo, não raro se encontravam à porta de uma ou outra casa, em dias de sol, dejectos humanos a secar. Eram de um doente com icterícia, que os tomaria posteriormente, secos, diluídos e devidamente coados. Pela ministerial lógica justificativa, bem pode Sua Excelência anotar a receita para os futuros netos. Garanto-lhe, glosando Américo Tomás, pensador do mesmo jeito, que os que não morriam salvavam-se!» («Os farsolas do regime», Santana Castilho, Público, 25.04.2012, p. 45).

      Não conhecia esta peculiar forma de tratamento dos ictéricos. Ou atericiados, como se dizia antigamente, leio aqui na Estilística da Língua Portuguesa, de Rodrigues Lapa. Confirmem aí na página 74 da 11.ª edição, de 1984.

 

[Texto 1426] 

Helder Guégués às 20:25 | comentar | favorito
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«A título póstumo»

Uma pergunta

 

 

      Faz sentido dizer, como ouço frequentes vezes e acabo de ler, que a «obra de X foi publicada a título póstumo»? Uma condecoração, um prémio, por exemplo, é que podem ser atribuídos a título póstumo. Que me dizem?

 

[Texto 1425] 

Helder Guégués às 16:23 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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Léxico: «golpe de mar»

Se é golpe, é francês

 

 

      Não me lembro de antes ter lido a expressão golpe de mar (ou golpe-de-mar, como a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira regista). Nem sempre corresponde a vagalhão; por vezes, é sinónimo de pequena tempestade. Há-de vir, pois claro, do francês coup de mer. Não o encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

      «Porém, poucos minutos depois do vapor ser lançado sobre a Forcada, foi partido por um golpe de mar, resvalando todos os passageiros para a voragem das ondas que separava as duas metades do barco, para nunca mais serem do número dos vivos» (Naufrágios, Viagens, Fantasias e Batalhas, João Palma-Ferreira. Lisboa: INCM, 1980, p. 125).

 

[Texto 1424]

Helder Guégués às 15:35 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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«Há pouco tempo para cá»

Temos memória

 

 

      Acabo de ler uma citação do historiador Luís de Albuquerque: «as regras astronómicas que vieram a interessar à Náutica andavam de há muito expostas». Logo me lembrei, como seria de esperar, do que Montexto aqui escreveu certa vez. A preposição está a mais.

      «Literária e oficialmente há tendência para suprimir o artigo (definido). Na Beira-Alta o povo diz as Salzedas e oficialmente diz-se “freguesia de Salzedas”. Em vez de “estação das Caldas da Rainha”, os ferroviários vão dizendo, há pouco tempo para cá, “estação de Caldas da Rainha”» (Estudos de Filologia Portuguesa, J. Leite de Vasconcelos. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1961, p. 216).

 

[Texto 1423] 

Helder Guégués às 14:46 | comentar | ver comentários (13) | favorito
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«Masterplan», disse ele

Lembra-se da Gisela

 

 

      «De acordo com o documento (o masterplan encomendado pela Câmara de Cascais), a que o PÚBLICO teve acesso, já é avaliada a possibilidade de se virem a desenvolver ligações à praia de Carcavelos através de túnel, e a um parque urbano — uma faixa verde que se estenderá desde a estação ferroviária até à estrada marginal — por passadiços pedonais» («Cascais já tem terreno em Carcavelos para a Faculdade de Economia da Nova», Carlos Filipe, Público, 25.04.2012, p. 29).

      O masterplan... Isto não tem um nome qualquer em português? Plano de pormenor, ou algo assim? O leitor comum não sabe — e lixa-se. Ali o Pepe Rápido, por exemplo, que todos os dias vejo a ler o Público sentado pelos muros dos espaços ajardinados aqui em volta ou sentado (sempre sentado, como um falso coxo deve fazer) no seu Corsa de 1999. Encontra a palavra e que lhe vem à mente? A Gisela.

 

[Texto 1422] 

Helder Guégués às 10:53 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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25
Abr 12

Pontos cardeais

Comparem

 

 

      «O risco de vir a morrer de enfarte ou AVC não é igual em todas as regiões. Quanto mais para Sul, pior é a situação, com Alentejo e Algarve a liderarem pelas piores razões. [...] E é pior no Sul do País. “No Norte há menos risco elevado, aumenta em Coimbra, ultrapassa 25% em Lisboa e chega aos 35% no Alentejo”, diz o médico [Carlos Aguiar, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia]» («Risco de morte por AVC ou enfarte é maior no Sul», Ana Maia, Diário de Notícias, 23.04.2012, p. 14).

      O primeiro «Sul» não designa região, mas limite ou direcção; logo, grafa-se com minúscula inicial. Esotérico? Isto não é nada, comparado com a interpretação que D´Silvas Filho faz do termo «absolutamente» na norma relativa ao uso da maiúscula nos pontos cardeais no Acordo Ortográfico de 1990.

 

[Texto 1421]

Helder Guégués às 09:55 | comentar | favorito
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