02
Mai 12

Alto Douro, Alto Alentejo...

Mais depressa o tivesse pensado

 

 

      Ainda há dias reflecti nesta particularidade da língua: regra geral, o adjectivo, na nossa língua, como em latim, pospõe-se ao substantivo, mas há excepções, como Alto Douro, Alto Alentejo, Baixo Alentejo... Como se explica esta inversão? Agora leio nas Lições de Filologia Portuguesa, de Leite de Vasconcelos: «A expressão Alto Douro será devida a influência estrangeira, talvez por causa da Companhia dos Vinhos do Alto Douro: o povo diz Cima do Douro, e assim se lê nos documentos da instituição da Companhia, e num relatório do próprio Pombal, anterior a esta instituição. As expressões semelhantes, Baixo-Douro, Alto e Baixo-Minho, Alto e Baixo-Alentejo, seguem a analogia da primeira; nenhuma d’elas é de origem rigorosamente popular» (Lições de Filologia Portuguesa, J. Leite de Vasconcelos. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1966, 4.ª ed., p. 290).

 

[Texto 1458] 

Helder Guégués às 18:56 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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Um estrangeirismo em vão

Afinal, não é

 

 

      Depois de termos estado ontem, durante todo o santo dia, a ouvir falar em dumping, hoje Manuel Sebastião, presidente do Conselho da Autoridade da Concorrência, veio dizer que «gostaria que não se utilizasse a palavra “dumping”, porque, tecnicamente falando, dumping configura uma outra situação». João Cruz Ribeiro, especialista em Direito da Concorrência, abundou na mesma ideia do presidente do Conselho da Autoridade da Concorrência: «Em rigor, trata-se eventualmente de uma venda com prejuízo.»

 

[Texto 1457]

Helder Guégués às 18:26 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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A escrita de Mia Couto

Nem chega a ser modéstia

 

 

      O leitor R. A. disse-nos ontem, pouco antes das 10 da noite, que acabara de ouvir o escritor Mia Couto na SIC Notícias a falar do seu novo livro, A Confissão da Leoa, e a negar ter inventado a palavra «desconseguir». Não vi ontem, mas vi hoje.

 

 

MÁRIO CRESPO: «A tua escrita, por exemplo... Eu vou aqui só... Eu fui anotando algumas das construções, das invenções mais ricas. Para dizer há pessoas aqui, há muitas pessoas, e a pessoa responde: “Sim, são tantíssimas.”»

MIA COUTO: «Isso é comum, não é uma invenção minha. Isso é possível ouvir-se em Moçambique. Eu não te posso dizer exactamente onde é que a ouvi, mas não queria estar a dizer que eu inventei isto. Porque há coisas que eu, digamos, eu invento, mas na base de uma lógica que já está lá. Tenho que declarar isto assim...»

MÁRIO CRESPO: «E a mãe que manda uma das filhas matar uma galinha para comer e vai “despescoçar a galinha”.»

MIA COUTO: «Isso é invenção minha, mas outra vez na base de uma coisa que é possível. Ali, por exemplo, “desconseguir” é comum, é uma palavra comum. Esta construção da negação é comum.»

 

 

      Digamos que Mário Crespo escolheu muito mal os exemplos. Mais duas perguntas de Mário Crespo: «Na tua vida profissional, tu nomadizas pelo país, neste momento trabalhas mesmo, mesmo no Norte de Moçambique, já é ali uma zona ela própria de miscigenação também, com a Tanzânia, com a... uma nação de nações, ali... Tu falas alguma das línguas ou entendes alguma?...» «Qual é a tua atitude ao Acordo Ortográfico?»

      Já hoje, o escritor foi entrevistado na Antena 1 pelo jornalista Ricardo Alexandre e o que mais me chamou a atenção foi a pronúncia, ao que parece comum em Moçambique, do topónimo Tanzânia com acento no i, Tanzania.

 

[Texto 1456]

Helder Guégués às 11:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Os dicionários

Pois claro que é

 

 

      «O alerta foi dado às 23.55 e, quando os bombeiros chegaram ao local, a moradia unifamiliar, já antiga, encontrava-se “totalmente tomada pelo fogo”. Tornava-se claro que pouco havia a fazer para evitar a destruição do imóvel pelas chamas» («Homem de 34 anos morre em incêndio numa habitação», J. B., Diário de Notícias, 2.05.2012, p. 24). «A curiosidade levou-o a instalar a câmara de filmar e a emitir 24 horas por dia o direto de um processo que a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves considera “normal”, mas que acabou por ter uma mediatização inesperada» («Falcões nascem em floreira de apartamento às portas de Lisboa», Inês Banha, Diário de Notícias, 2.05.2012, p. 26).

      Os dicionários são o que são. Então não é estranho que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registe «mediatização» mas não registe «unifamiliar»? (Ah, sim, os falcões! Estão aqui.)

 

[Texto 1455]

Helder Guégués às 09:11 | comentar | favorito
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Contracção da preposição

Descontraiam, rapazes

 

 

      «A descoberta pode revolucionar o diagnóstico do cancro da mama. Investigadores do Imperial College, Londres, acreditam que um simples teste de sangue pode prever se uma mulher vai ter cancro da mama muitos anos antes deste poder ser diagnosticado» («Teste de sangue pode prever cancro da mama», Diário de Notícias, 2.05.2012, p. 22).

      «Este poder ser diagnosticado». Leiam, por exemplo, a obra do P. Américo F. Alves. Duas vezes ao dia, após as refeições principais.

 

[Texto 1454]

Helder Guégués às 08:43 | comentar | favorito
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Léxico: «mielograma»

Experimentem

 

 

      «Um mielograma (exame para avaliação de medula óssea) ditava-lhe o destino: tinha uma leucemia linfoblástica. Oito sessões de quimioterapia depois e a doença entrou em remissão» («Colegas de polícia com leucemia preparam ação de solidariedade», Sónia Simões, Diário de Notícias, 2.05.2012, p. 21).

      São 8h24 e os dicionários apenas registam o termo «mielografia», que é uma radiografia da medula espinal. Agora experimentem ir por essa Internet fora procurar saber o que é um mielograma.

 

[Texto 1453]

Helder Guégués às 08:24 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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Género: «tesão»

Vulgarismos e solecismos

 

 

      «O movimento dos precários, que se reuniu no Largo de Camões para marchar até à Alameda, foi dos mais animados no desfile da CGTP. A caminhada fez-se ao som de slogans arrojados como “a precariedade tira-me a vontade, a exploração tira-me a tesão” ou “sou puta, sou precária, também sou proletária”» («“A exploração tira a tesão”», R. C., Diário de Notícias, 2.05.2012, p. 16).

      A esta hora até já pode haver dicionários que afiançam que tem ambos os géneros, mas não: «tesão» é do género masculino. O tesão. Já tinha tratado da questão no Assim Mesmo.

 

[Texto 1452]

Helder Guégués às 07:36 | comentar | favorito
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É para a comunicação social

As vacas e o speaker

 

 

      VII Semana Taurina em Samora Correia. Em cinco dias, as largadas de touros, este ano, pela primeira vez, com a participação de mulheres e crianças, provocaram nove feridos. Hélio Justino, presidente da Junta de Freguesia de Samora Correia, declarou ao Jornal da Tarde de anteontem: «Nós, permanentemente, ao longo das largadas, temos um speaker que chama a atenção, que alerta para os riscos, e é a única coisa que eventualmente poderemos fazer.» O homem ia lá lembrar-se da palavra portuguesa equivalente.

 

[Texto 1451]

Helder Guégués às 07:02 | comentar | favorito
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02
Mai 12

«Cônsul/diplomata»

Meia razão

 

 

      A Associação Sindical dos Diplomatas Portugueses (ASDP) enviou um comunicado ao provedor do leitor do Diário de Notícias sobre o uso que se fez neste jornal do termo «diplomata» (e, concretamente, a expressão «diplomata exonerado») numa notícia sobre um vice-cônsul a contas com a justiça. A ASDP afirmou que não é correcto, pois a pessoa em causa «não integra, nem integrou, o Serviço Diplomático, ao qual apenas poderão aceder os cidadãos que obtenham aprovação em concurso público específico e que é regido por Estatuto profissional próprio».

      Depois de apresentar a reclamação, argumenta o provedor do leitor: «A Associação tem meia razão. Não tem nenhuma quando limita os diplomatas aos “aprovados em concurso público”. Muitos embaixadores, escolhidos apenas por razões políticas, deixaram melhor nome na história da diplomacia do que imensos aprovados em concurso. Por outro lado, um cônsul pode ser um diplomata por mérito inteiro: até existir, o cônsul-geral de Portugal em Nova Iorque era um prestigiado embaixador de carreira. O cônsul Aristides de Sousa Mendes honra a história da diplomacia portuguesa. Vários dicionários – Aurélio Buarque de Hollanda, Aulete e outros – definem cônsul como “funcionário diplomático”. Diversos autores definem os embaixadores como diplomatas nomeados para defesa dos interesses do Estado e os cônsules como diplomatas nomeados para defesa dos interesses dos cidadãos em países estrangeiros.

      Recomendação aos jornalistas do DN: evitem chamar diplomatas aos cônsules. Não é que esteja cem por cento errado. Mas não é cem por cento certo» («Por mais diplomatas que sejam os cônsules, não os chamem diplomatas», Oscar Mascarenhas, Diário de Notícias, 28.04.2012, p. 47).

      «Aurélio Buarque de Hollanda, o homem que virou dicionário» é o título de um artigo sobre o dicionarista e o seu dicionário. O referido dicionário é conhecido por Aurélio. Simplesmente. Um pormenor, claro. Os melhores dicionários não definem «cônsul» como diplomata. O Grande Dicionário da Língua Portuguesa coordenado por José Pedro Machado, por exemplo, define-o assim: «Agente de uma nação, encarregado, em país estrangeiro, de proteger os súbditos e os negócios dessa nação, fomentar o respectivo comércio, etc.» Não cabe no etc. a representação política, cerne da função diplomática.

 

[Texto 1450]

Helder Guégués às 06:36 | comentar | favorito
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