03
Mai 12

«Furar a greve»

História de uma expressão

 

 

      «O nosso calão académico tinha a pitoresca expressão fazer parede: isto é, combinarem-se todos os estudantes de uma cadeira para não irem à aula. A ela correspondia naturalmente a metáfora furar a parede, se um quebrava o ajuste. Ùltimamente introduziu-se greve, palavra vinda das esferas industriais; mas em vez de se dizer faltar à greve, ou expressão análoga, adapta-se à greve o furar da expressão antiga, e diz-se também furar a greve, sem aquela propriedade com que se dizia furar a parede, visto que parede é um objecto material, e greve não o é neste sentido» (Lições de Filologia Portuguesa, J. Leite de Vasconcelos. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1966, 4.ª ed., p. 352).

 

[Texto 1466] 

Helder Guégués às 18:57 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas:

«O facto de»

Actualíssima lição

 

 

      «Dizer “o facto de ser a situação referida”, e “como se depreende do facto de prestar a povoação carthaginesa tributo ao templo”, como diz o Conselheiro Jaime Moniz, em vez de o ser a situação, e de prestar a povoação, é traduzir muito à letra o francês le fait. [Outro êrro: estar ao facto = informado (au fait)]» (Lições de Filologia Portuguesa, J. Leite de Vasconcelos. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1966, 4.ª ed., p. 351).

 

[Texto 1465]

Helder Guégués às 18:56 | comentar | ver comentários (20) | favorito
Etiquetas:

«Nos lances os mais graves»

Ainda há quem escreva assim

 

 

      «É êrro grosseiríssimo dizer: achei-me nos lances os mais graves, e frases semelhantes. Deve emendar-se em achei-me nos lances mais graves, ou nos mais graves lances.

      O êrro tem origem em imitação do francês, onde é regular dizer-se: la ville la plus belle» (Lições de Filologia Portuguesa, J. Leite de Vasconcelos. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1966, 4.ª ed., p. 350).

 

[Texto 1464]

Helder Guégués às 18:54 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas:

Estrangeiro é melhor

Tanta tralha

 

 

      «Os pedidos de ajuda de Nadya têm sido recorrentes, desde que se tornou famosa mundialmente. Em 2010, por exemplo, foi ao talk show da apresentadora norte-americana Oprah Winfrey pedir ajuda e conselhos financeiros. Nessa entrevista, confessou ser uma hoarder [acumuladora compulsiva de “lixo” e “tralha” em casa]» («Mãe de oito gémeos vira atriz porno», Nuno Cardoso, Diário de Notícias, 3.05.2012, p. 53).

      Talk show, hoarder, vira actriz porno... Parece que o grande escopo dos jornalistas é a desnacionalização da língua. Não resistem a uma palavra inglesa.

 

[Texto 1463]

Helder Guégués às 15:59 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas:

Rodas e rodados

Menos palavras

 

 

      «A tese de acidente motivava dúvidas às autoridades policiais, atendendo a que não foram detetados rastos dos rodados, que pudessem indiciar despiste» («Queda de carro envolta em mistério», J. A., Diário de Notícias, 3.05.2012, p. 25).

      Caro J. A.: se rodado é o sulco feito pelas rodas de um veículo, acha que é correcto escrever-se «rastos dos rodados»?

 

[Texto 1462]

Helder Guégués às 15:51 | comentar | favorito
Etiquetas:

Infinito pessoal: a regra de ouro

Mas ficava melhor

 

 

      «MP quer ativistas da Fontinha a fazerem trabalho social» (Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 3.05.2012, p. 25).

      O infinito pessoal, escreve o P. Américo F. Alves na obra já aqui citada, deve empregar-se «quando a sua presença contribuir para aclarar e embelezar a frase, o que se verifica principalmente quando o sujeito não é o mesmo». Está verificada a condição. «Por outras palavras, a que se pode chamar regra de ouro: quando ele vier desfazer qualquer ambiguidade quanto ao sujeito do verbo.» Não é, manifestamente, o caso. Atente-se em cada um dos exemplos que o autor dá: «Sentiu correrem-lhe as lágrimas. Entrámos na casa deles sem darem por isso. Deram-te a bola para jogares.»

 

[Texto 1461]

Helder Guégués às 15:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas:

«Mais bem/melhor»

Nem pior nem melhor

 

 

      «Em vista do que fica exposto, não há dúvida que, se é perfeitamente correcto o dizer-se mais mal feito, mais bem feito, mais mal aventurado, mais bem aventurado (isto é; mais malfeito, mais bemfeito, mais malaventurado, mais bemaventurado), não menos correcto é o dizer-se melhor (pior) classificado, por isso que bem classificado são duas distintas» (Lições de Filologia Portuguesa, J. Leite de Vasconcelos. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1966, 4.ª ed., p. 187).

 

[Texto 1460]

Helder Guégués às 08:47 | comentar | ver comentários (8) | favorito
Etiquetas:
03
Mai 12

Mude-se o conceito

‘Tá bem, ‘tá

 

 

      No dia 31 de Dezembro de 2011, havia mais de um milhão e setecentos mil processos pendentes nos tribunais de 1.ª instância. Na Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais, a ministra da Justiça mostrou o caminho: «Nas nossas estatísticas, se o processo entrar hoje, ‘tá considerado pendente. Isso é que faz com que apareça este número monstruoso de 1.7. Agora, temos que corrigir o conceito de pendência. Porque, se ele entra, passado um dia ‘tá atrasado? Não ‘tá.»

      Espreitemos agora um dicionário. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo. Se acolhe a acepção jurídica de «pendência», «período durante o qual uma questão judicial aguarda resolução do tribunal», no verbete «pendente», o mais próximo que vemos é a 8.ª acepção, um sentido figurado: «que não está resolvido». Mas a 5.ª acepção apanha-me desprevenido: «diz-se de mensagem, enviada por telemóvel, que ainda não foi entregue». Espantoso.

 

[Texto 1459] 

Helder Guégués às 08:40 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: