09
Mai 12

«Sector/setor»

Em esplendor: o critério fonético

 

 

      «Marcelo Rebelo de Sousa considera que o poder político tem três anos para decidir sobre o modelo para o setor da Saúde, mas sustentou que, implicitamente, o modelo imposto pela troika implica a redução do papel do Estado» («Três anos para decidir modelo do SNS», Diário de Notícias, 3.05.2012, p. 26). «O sector é o segundo com maior peso económico em Trás-os-Montes, só superado pelo do vinho. Cerca de 50% da produção nacional de azeitona de mesa e cerca de 35% do azeite produzido em Portugal é oriundo de Trás-os-Montes» («Azeite ‘Rosmaninho’ ganha medalha de ouro em Pequim», Diário de Notícias, 9.05.2012, p. 35).

      Na semana passada, no mesmíssimo artigo do Diário de Notícias, encontrei «sector» e «setor» — porque em Portugal o oscila entre a prolação e o emudecimento, claro. Mas não seria mais sensato que o jornal adoptasse sempre a mesma grafia?

 

[Texto 1492] 

Helder Guégués às 21:17 | comentar | ver comentários (6) | favorito

«Táxis marítimos»

Não precisamos dele

 

 

      «Mário Barbosa, ouvido ontem como testemunha no julgamento que está a decorrer no tribunal de Aveiro, lembrou ter chegado ao local “um quarto de hora” após o embate entre os dois táxis-marítimos habitualmente usados no transporte de pescadores lúdicos» («Acusa concorrente de causar choque na ria», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 9.05.2012, p. 21).

      Diga-nos cá, à puridade, aqui que ninguém nos ouve, porque há-de levar hífen, caro Júlio Almeida? Táxis marítimos.


[Texto 1491]

Helder Guégués às 20:56 | comentar | favorito
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Léxico: «bicheiro»

O siô já estêvi no Brasiu?

 

 

      «Tradicionalmente, os bicheiros são os praticantes de jogo do bicho, apostas ilegais mas populares há mais de um século. O negócio de Cachoeira é mais moderno: slot machines ou, na versão brasileira, máquinas de caça-níquel, também ilegais no país» («O caso do bicheiro que chegou a Brasília e agita o Brasil», Alexandra Lucas Coelho, Público, 9.05.2012, p. 23).

      Olha se a jornalista não explicasse. Em Portugal, bicheiro é o coca-bichinhos, o que se ocupa de minudências. Alguém, enfim, como nós.

 

[Texto 1490]

Helder Guégués às 19:54 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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«Meio-tempo» e «aparatoso»»

Aparatoso por ser no teatro

 

 

      «Eunice Muñoz estava em palco a ensaiar movimentos para uma dança que faz em palco, na peça, quando terá sentido tonturas. A atriz alertou para o que estava a sentir e saiu do palco para ir medir a tensão. Foi neste meio-tempo que, ao descer as escadas de pedra que dão acesso à saída dos artistas, o acidente aconteceu» («Acidente aparatoso obriga Eunice Muñoz a cancelar estreia», Ana Lúcia Sousa, Diário de Notícias, 9.05.2012, p. 49).

      «Meio-tempo» significa intervalo, pausa, mas a jornalista queria dizer qualquer coisa como «neste comenos». Sim, outra palavra esquecida.

      Aparatoso acidente... «Não há grandes semanas que o meu amigo e quase conterrâneo, o grande escritor Aquilino Ribeiro, num artigo do Século, apanhou pelas orelhas o aparatoso, epíteto bacoquinho com que o escrevente vulgar e o falador vulgar qualificam desastres de automóvel. Se aparatoso quer dizer pomposo, só em desastre propositado, feito de encomenda, com despesas de enterro incluídas, coroas e flores, se admite pompas. Caso para crer que desastre aparatoso não é humilde como os de burro, mina ou andaime. É desastre de primeira classe, com a vaidade humana despendida em capotas pelo ar e outros aparatos» (A Língua Portuguesa, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 41).

 

[Texto 1489]

Helder Guégués às 10:03 | comentar | ver comentários (10) | favorito
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Sobre «estepário»

Mais um u

 

 

      «Já se sabia, por achados fósseis anteriores, que o cavalo foi domesticado há pouco menos de seis mil anos. Os fósseis mais antigos têm essa idade e foram encontrados nas regiões estepárias da Ásia. [...] Os cavalos foram originalmente domesticados nas estepes ucranianas, russas e cazaques, a partir da espécie selvagem Equs ferus, hoje extinta, e no processo houve sucessivos cruzamentos dos domesticados com éguas selvagens» («Cavalos foram domesticados nas estepes euro-asiáticas», Filomena Naves, Diário de Notícias, 9.05.2012, p. 30).

      Em castelhano, cara Filomena Naves, é que se diz estepario: región esteparia; planta esteparia. Nós escrevemos «estépico», que é o que regista o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Ah, é Equus ferus, sim.

 

[Texto 1488]

Helder Guégués às 09:32 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Da 1.ª à 4.ª classes

Vão no bom caminho

 

 

      «Os alunos do 4. º ano de escolaridade fazem hoje a última prova de aferição a Língua Portuguesa, já que no próximo ano a disciplina vai transformar-se em “prova final” e o seu resultado passará a contar 25% para nota final, tal como definiu o Ministério da Educação. Na próxima sexta-feira será a vez da última prova de aferição de Matemática. São mais de cem mil as crianças que a partir das 10.00 realizam hoje a prova de Português, em 5103 escolas de todo o País. A ponderação das provas subirá para 30% a partir de 2014» («Última prova de aferição do 4.º ano», Paula Carmo, Diário de Notícias, 9.05.2012, p. 23).

      Agora só falta, parece-me, reporem a antiga designação: 4.ª classe. E a Nomenclatura Gramatical Portuguesa, de 1967. E o Acordo Ortográfico de 1945. E...

 

[Texto 1487] 

Helder Guégués às 09:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Teste de Cooper»

Para o abismo

 

 

      «O concurso de admissão tem um método de seleção próprio e provas de aptidão física que colocam o candidato apto a ingressar no curso de formação, que Nuno Correia cumpria. Tal como é publicado no Diário da República, as provas físicas consistem em corrida de 100 m planos, extensão de braços no solo, flexões no tronco à frente, flexões de braços na trave, salto de muro sem apoio, teste de cooper» («Morreu a correr no curso para guarda prisional», Paula Carmo, Diário de Notícias, 9.05.2012, p. 20).

      O Dr. Kenneth H. Cooper não ia gostar. Escreve-se teste de Cooper, cara Paula Carmo, que é um dos exames mais usados para avaliar a capacidade cardiorrespiratória. Mas a jornalista escreveu: «A paragem cardio respiratória foi fatal.» Entre erros e gralhas, o rol estende-se. Actualmente, não conheço nenhum jornal com tantas gralhas como o Diário de Notícias. Passou de escola de revisão para o que se vê.

 

[Texto 1486] 

Helder Guégués às 08:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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09
Mai 12

AO e disparates

Corte e costura

 

 

      No Jogo da Língua de ontem, a concorrente, uma costureira, talvez criativa e competente, hesitava entre «és tu quem perde» e «és tu quem perdes». «Agora, realmente, com o novo Acordo Ortográfico, eu sei lá se estará bem...» Quantas vezes já ouvi, nos últimos anos, este disparate na boca de gente com mais responsabilidade.

 

[Texto 1485]

Helder Guégués às 08:38 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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