13
Mai 12

«Boné de orelhas»

Orelhas moucas

 

 

      Agora estão na moda as earmuffs. Até já ouvi dizer que os alunos as usam nas aulas... Sim, um problema de tradução — mas não de earmuffs. No original francês lê-se que o protagonista baixou as oreilles do bonnet. As «orelheiras», verteu o tradutor. Ora, sempre ouvi, li e usei boné de orelhas. Os dicionários calam-se prudentemente.

      «Adiante, junto de um portão, um velho de boné de orelhas presas por enorme botão redondo, no alto da cabeça, cigarro posto ao canto da boca, ajeita laboriosamente um grande caixote em cima de um carro de mão» (Crónicas Algarvias, Manuel da Fonseca. Lisboa: Círculo de Leitores, 1987, p. 126).

 

[Texto 1513] 

Helder Guégués às 16:13 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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«Não, senhor»

Vale o que vale

 

 

      «Um grande argumento de que se utiliza “mestre” Moreno para gritar que ele sabe tudo, e eu nada, é o da idade. Como nasceu antes de mim, jura e perjura que não, senhor, “nunca” precisou nada de quanto eu haja investigado» (Estudos Críticos de Língua Portuguesa: contra os Gramáticos, Vasco Botelho de Amaral. Porto: edição do autor, 1948, p. 186).

      Aparece pelo menos duas vezes assim, mas agora só encontro esta ocorrência. Vale o que vale — numa obra que fala de erros e gralhas, estas superabundam. Nada que atrapalhasse o Mestre. «Mas onde estão esses erros crassos? Do coração agradeço que mos apontem, pois aquele magro “carapau” gramatical não chega para me engasgar» (p. 201).

 

[Texto 1512]

Helder Guégués às 12:50 | comentar | ver comentários (16) | favorito
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Agora já é Abecásia

Assim está melhor

 

 

      «Um grupo de investigadores espanhóis e russos identificou a fauna a viver à maior profundidade do mundo, numa gruta em Krubera-Voronja, na Abecásia, no Cáucaso oriental [sic]. Lá existe um ecossistema formado por novas espécies de pequenos invertebrados – Arthropoda, Insecta e Collembola –, pequenos insetos primitivos sem asas, com seis pernas e sem olhos, que vivem na escuridão total» («Invertebrados na caverna mais profunda», Nuno Pinto Martins, Diário de Notícias, 13.05.2012, p. 39).

      Dantes, era Abcásia que o Diário de Notícias grafava. «Abcásia e a Ossétia do Sul, as duas regiões separatistas da Geórgia, rejeitaram ontem a oferta de autonomia alargada que lhes foi feita na véspera por Mikhail Saakachivili, informaram as agências noticiosas russas» («Geórgia. Abcásia recusa autonomia», 14.04.2008, p. 30).

 

[Texto 1511]

Helder Guégués às 12:23 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «terrazzo»

Fica sempre bem

 

 

      «“Nunca pensei que receber esta estrela fosse uma possibilidade, nem sequer uma possibilidade remota.” Estas foram as palavras proferidas por Scarlett Johansson, um dos nomes maiores do chamado star system mundial, quando, na passada semana, posou orgulhosamente, perante uma multidão de fotógrafos, junto de uma laje de terrazzo (pavimento a imitar mármore) que ostenta uma estrela em bronze onde está inscrito o seu nome e que será pisada por mais de dez milhões de pessoas em apenas um ano» («Como chegar a estrela no Passeio da Fama», Fernanda Mira, Diário de Notícias, 13.05.2012, p. 28).

      Isto é mesmo intraduzível? Não temos nenhum vocábulo que signifique o mesmo? Veja lá.

 

[Texto 1510]

Helder Guégués às 12:22 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Aplicação do AOLP90

Ah, é muito fácil

 

 

      «As empresas contatadas pelo DN admitem que o negócio ainda não é muito expressivo, mas que está a ganhar adeptos. O preço da festa varia: pode custar 25 euros por pessoa – em caso de jantar, animação e bolo – ou 118 a 200 euros se for algo como saltar de um avião» («Após a despedida de solteiro... há cada vez mais quem faça a de casado», Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 13.05.2012, p. 18).

      É esta a compreensão profunda do Acordo Ortográfico: cortar cc e pp a esmo. Se os leitores se queixarem muito, é porque está errado e logo se muda.

 

[Texto 1509]

Helder Guégués às 12:21 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Ortografia: «primeira-dama»

Nem sempre se lembram

 

 

      «Jornalista do Paris Match e apresentadora de um canal de televisão por cabo, Valérie confirmou numa entrevista à Elle, [sic] que vai continuar a fazer o seu trabalho. “Penso que posso continuar a fazer jornalismo se não tratar da atualidade francesa”, explicou a primeira dama» («Primeira dama francesa não desiste do jornalismo», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 12.05.2012, p. 27). «Ainda mal se acostumou ao ‘cargo’ de nova primeira-dama de França e já é um dos assuntos favoritos dos franceses, que se dividem nas opiniões. Valérie Trierweiler, 47 anos, a companheira do recém-eleito presidente François Hollande, promete levar a cabo uma verdadeira revolução de mentalidades no Palácio do Eliseu» («Valérie imita Anne Sinclair e ‘ignora’ Letizia», Nuno Pinto Martins, Diário de Notícias, 13.05.2012, p. 53).

      Vem sendo assim: ora com hífen ora sem hífen. Cada jornalista faz como lhe parece e sabe.

 

[Texto 1508]

Helder Guégués às 12:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Dedicado à leitora Lina

Ultrapassa o tolerável

 

 

      «Com fotografia de Sassetti, os diários contam que o compositor morreu quando tirava fotografias na zona balnear de Cascais, referem a familiaridade com Sidónio Pais e dão conta dos principais momentos da sua carreira» («Imprensa estrangeira refere morte do pianista», Diário de Notícias, 13.05.2012, p. 46).

      A familiaridade, a convivência entre uma pessoa que morreu em 1918 e outra que nasceu em 1970... Só na cabeça destes jornalistas, que desprezam os dicionários.

 

[Texto 1507]

Helder Guégués às 12:16 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Na dúvida — um hífen

Ninguém repara

 

 

      «O envio da Força de Reação Imediata (FRI) para o golfo da Guiné já fez correr muita tinta, apesar de ainda não se saber quanto custou. A verdade é que, apesar de novas avarias num avião de transporte C-130, a chamada “Operação Manatim” – envolvendo duas fragatas, uma corveta, fuzileiros, um navio-reabastecedor, um avião de vigilância marítima – visou garantir uma evacuação rápida de cidadãos portugueses, se a crónica instabilidade política na Guiné-Bissau se agravasse após o golpe de Estado» («Rapidamente e em força para a Madeira», Diário de Notícias, 13.05.2012, p. 12).

      No Diário de Notícias não faltam hífenes — falta cuidado e reflexão sobre a língua.

 

[Texto 1506]

Helder Guégués às 12:15 | comentar | ver comentários (12) | favorito
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13
Mai 12

«Conhecer pela primeira vez»

Todos os dias

 

 

      «Foi lá precisamente que conheceram Jesus, pela primeira vez.» Quem não ouviu ou leu já uma frase semelhante? «Conhecer pela primeira vez»? Mas é possível conhecer alguém pela segunda vez? Na segunda vez, com sorte apenas reconheceremos.

 

[Texto 1505]

Helder Guégués às 12:13 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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