15
Mai 12

Um galicismo nada subtil

Vão desaparecendo

 

 

      Este, leio aqui, não viverá até ao fim da pena. «Não sabe conduzir-se.» Por acaso, em francês, está «ne sait pas se tenir». «Conduzir-se», que é raríssimo encontrar na acepção de portar-se, comportar-se ou saber comportar-se, é tão galicismo como «conduta». No frasear clássico, usava-se também haver-se neste sentido de portar-se, comportar-se, proceder, obrar. Nas cantigas de escarnho (mais uma que desapareceu) e de maldizer, usava-se igualmente, neste sentido, baratar: tenho que baratei ben, pois me dela quitei.

 

[Texto 1528]

Helder Guégués às 22:55 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Siglas

Uma pequena trapalhada

 

 

      «David Hogg, comandante das forças americanas em África (Africom), classificou como um “grande sucesso” a detenção do número quatro do Exército de Resistência do Senhor (ERS), movimento rebelde conhecido pelo rapto de crianças e mutilações a civis. As forças ugandesas capturaram Caesar Acellam na República Centro-Africana, perto da fronteira com a República Democrática do Congo, após um curto combate com os rebeldes» («Aliado de Joseph Kony capturado», Diário de Notícias, 15.05.2012, p. 26).

      Muito bem, muito bem. Exército de Resistência do Senhor, ERS. No segundo parágrafo, porém, esqueceram-se: «Acellam estava no topo da liderança do LRA, atrás de Joseph Kony, bem como Okot Odhiambo e Dominic Ongwen, procurados pelo Tribunal Penal Internacional.» No terceiro parágrafo, explicam a sigla usada no segundo: «“Esta detenção mostra que a região está preocupada com a questão do ERS (LRA, na sigla em Inglês) e da ameaça que este representa”, afirmou Hogg.»

 

[Texto 1527]

Helder Guégués às 17:14 | comentar | favorito
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Como falam os políticos

Não falam bem nem me alegram

 

 

      Deputada socialista Odete João no noticiário das 3 da tarde na Antena 1: «Não podemos, pois, acompanhar estas medidas, que colocam em causa aquilo que é a educação de adultos, que colocam em causa o desenvolvimento do País e a coesão social.»

      Afinal, Miguel Relvas, ministro adjunto e dos Assuntos Parlamentares demissionário, recebeu duas SMS com sugestões de nomes para cargos nos serviços de informações. «Presumo que a senhora deputada também se compatibiliza com esse meio de comunicação. Sabe que são coisas muito mais sintéticas... Eu uso um telemóvel... O meu telemóvel é um telemóvel muito básico, onde eu envio SMS, e portanto não permite uma correspondência muito acentuada.»

 

[Texto 1526]

Helder Guégués às 17:00 | comentar | favorito
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Léxico: «manquidão»

E há mesmo

 

 

      Estava a precisar do substantivo correspondente a «manco». Existe? Para dar a volta à frase «o facto de ser manco valera-lhe ser considerado inválido», mas nada, os dicionários não o registam. Usa-o o povo. Mas esperem... «El Diablo cojuelo é o título de um romance de Luis Vélez de Gevara [sic] (1641), que foi imitado por Le Sage em 1707 com o título de Le Diable boiteux. Esta ideia de manquidão, assim existente em diversos povos, foi propagada pelo Cristianismo» (Antroponímia Portuguesa, José Leite de Vasconcelos. Lisboa: INCM, 1928, p. 203).

 

[Texto 1525]

Helder Guégués às 16:17 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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«Atolo de Bíkini»

Surpresa

 

 

      Alguns leitores ainda se lembrarão de, vai para dois anos, ter aqui estranhado que poucas vezes se aportuguesasse atol de Bikini. Ora vejam como escreveu Vasco Botelho de Amaral: «Mas, tal como aconteceu na experiência do atolo de Bíkini, a bomba não era assim tão má como se dizia» (Estudos Críticos de Língua Portuguesa: contra os Gramáticos, Vasco Botelho de Amaral. Porto: edição do autor, 1948, p. 152).

      Já que o étimo é o maldiviano atolu, o Mestre não terá tido dúvidas. E lá se vai, no plural, a rima com «anzóis». Em italiano, é atollo que se escreve. Quanto a Bíkini, nada.

 

[Texto 1524] 

Helder Guégués às 10:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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15
Mai 12

«Vinte e nove»

Tão simples é

 

 

      «Vinte nove anos depois, os detetives responsáveis pela investigação deste caso decidiram exumar o corpo do mafioso italiano Enrico De Pedis, por haver indícios de que a solução do mistério possa estar dentro do seu caixão» («Polícia exuma mafioso para resolver mistério», Diário de Notícias, 15.05.2012, p. 24).

      É um trinta-e-um, para esta gente. Então na leitura e na escrita do cardinal composto, se houver dois ou três algarismos, não se usa a conjunção e? Vinte e nove. Trezentos e quarenta e sete. A isto chegámos.

      Ah, sim, houve por aí um gramático, do outro lado do Atlântico, cujo nome já esqueci, que afirmou não constituir erro dizerem-se os numerais compostos de «vinte» sem a conjunção e, que se fundia foneticamente com o e de «vinte»... Na oralidade, há-de ser a maioria das vezes assim — mas na escrita, nem pensar.

 

[Texto 1523]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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