18
Mai 12

Redija-se outra definição

Porcofobia e jemão

 

      O laboratório do Instituto Politécnico de Bragança (IPB) aliou-se à indústria local (o pior é o nome: Bísaro Salsicharia!) para tentar produzir presuntos de cabra e de ovelha, que são menos gordos e mais proteicos do que os presuntos de porco. O projecto está ainda em fase de testes e os produtos destinam-se, ao que parece, a conquistar clientes árabes. Com isto, lá se vai a definição de presunto: «membro posterior do porco, depois de salgado, curado e seco». O termo «presunto» vem do latim perexutus, privado de todo o líquido. Dantes dizia-se, pelo menos no Alentejo, «jemão», sabiam? Há até o provérbio — Quem come presunto, come jemão. Os dicionários modernos perderam este verbete.

 

[Texto 1546]

Helder Guégués às 15:54 | comentar | ver comentários (10) | favorito
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«Vontade de/vontade em»

Mas também pode ser

 

 

      Jornalista Joana França Martins no Jornal da Tarde de ontem a propósito do lançamento de um livro, Peso, Uma Questão de Peso, das nutricionistas Paula Veloso e Teresa Maia: «Quase sempre a vontade em perder peso é o desejo de manter uma imagem.» Não é a regência mais usada, mas não é incorrecta, pois o povo também é assim que fala — ou falava, pois agora já não há povo, como sabemos. «Nunca tive vontade em casar-me. Ainda me calhava algum enxovedo na rifa que me amofinasse de contino», tive a sorte de ouvir a uma senhora idosa numa aldeia perto da Guarda.

 

[Texto 1545]

Helder Guégués às 15:04 | comentar | ver comentários (17) | favorito

Sobre «bonzo»

Tubérculo ou hipócrita?

 

 

      «E o pior é que só num país de parolos e provincianos se pode pensar que os males feitos à paisagem poderiam algum dia ser mitigados entregando uma parte da obra ao lápis de um arquitecto premiado (Eduardo Souto Moura), a quem a EDP pagará o que for necessário para dar verniz ao empreendimento. Nunca será mais do que verniz, só que com a chancela de um bonzo da cultura indígena» («Regresso ao mundo real: o irrealismo de uma barragem», José Manuel Fernandes, Público, 18.05.2012, p. 52).

      Já li e ouvi algumas vezes, é certo, mas nunca me pareceu bem usado. Bonzo é um sacerdote budista ou, popularmente, homem hipócrita ou indivíduo impassível. De outro étimo, do quimbundo, temos também em Angola os bonzos, que é o nome dado à batata-doce cozida, com azeite, bananas e milho, vendida às portas das casas.

 

[Texto 1544]

Helder Guégués às 14:10 | comentar | favorito
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Léxico: «charabiá»

Quase rebuscado

 

 

      «A etiqueta exige que o sr. Hollande receba uma “adenda” sobre crescimento ao “tratado orçamental” (que ficará no papel) e com isso terminará a sua radiante passagem pela crise. A imprensa económica anglo-saxónica, de resto, não se interessa pelo charabiá da França» («A pergunta», Vasco Pulido Valente, Público, 18.05.2012, p. 56).

      Charabiá significa algaravia. Curioso é que conste do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas não do Dicionário da Língua Portuguesa da mesma editora. Provém do francês charabia: «patois auvergnat» e, por extensão de sentido, «langage parlé ou écrit qui est ou qui semble incompréhensible parce qu’il est inconnu, incorrect ou hétéroclite».

      «É galicismo inútil, pois o têrmo francês vem justamente do esp.-port. algaravia», alerta a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

 

[Texto 1543]

Helder Guégués às 10:23 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Família militar»

Já estamos habituados

 

 

      «O atual Executivo — após anos de adiamentos e indecisões — aprovou a instalação do hospital militar único no Lumiar, tendo como missão prestar cuidados de saúde diferenciados aos militares das Forças Armadas e à família militar, assim como aos deficientes militares, podendo servir outros utentes ao articular-se com o Serviço Nacional de Saúde» («Aprovado hospital militar único», Diário de Notícias, 18.05.2012, p. 13).

      O jornalista confundiu um pouco as coisas: a curiosa expressão «família militar», em uso pelo menos desde o século XIX, não significa, como parece ter sido usada no artigo, os membros da família dos militares. Espantoso é como os jornalistas confundem tanto.

 

[Texto 1542]

Helder Guégués às 10:19 | comentar | favorito
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18
Mai 12

Traduzido pelo porteiro

Para rir

 

 

      Vem em toda a imprensa internacional: uma imagem do estofador Stephen Mills a trabalhar no assento que a rainha Isabel II usará na lancha real. Vai daí, o Diário de Notícias não podia ficar atrás e publica fotos em duas páginas e escreve isto: «Upholsterer Stephen Mills trabalha no trono que a Rainha usará na Barge Royal, na oficina de AlbertE. [sic] Chapman, na zona norte de Londres» («Os passeios da rainha», pp. 8-9).

      «Upholsterer Stephen Mills works on seating for the Royal Barge, in the workshop of Albert E. Chapman in north London on May 11, 2012.»

 

[Texto 1541]

Helder Guégués às 07:51 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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