19
Mai 12

«De debaixo»

De novo, só para lembrar

 

 

      «Com a mesma rapidez de movimentos, Shukhov pendurou o capote numa viga e retirou o que desejava de debaixo do colchão: um par de luvas, um segundo par de palmilhas, um pedaço de corda e um farrapo com uma fita em cada extremidade» (Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, Alexandre Soljenitsin. Tradução de H. Silva Letra, revista por António Carlos. Lisboa: Círculo de Leitores, [1970], p. 32).

  No Assim Mesmo — lembram-se? — motivou 15 comentários, um pouco desencontrados. Por economia e eufonia, elida-se então. Sobretudo neste caso, com a dura sucessão de dd: «desejava de debaixo do».

 

[Texto 1556]

Helder Guégués às 17:19 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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«As abas do gorro»

É isso mesmo

 

 

      «A geada tentava penetrar-lhe nos ouvidos através das abas do gorro, que ele tinha baixado mas não atara» (Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, Alexandre Soljenitsin. Tradução de H. Silva Letra, revista por António Carlos. Lisboa: Círculo de Leitores, [1970], p. 15).

      Ainda se lembra das «orelheiras», Montexto? Pois é, a história passava-se na antiga União Soviética, e seria mais provável que, em vez de boné, os prisioneiros usassem, naquele clima gélido do Cazaquistão, gorro. É que bonnet traduz-se por «gorro», que pode ter abas, e casquette é que é «boné» em português.

 

[Texto 1555]

Helder Guégués às 16:15 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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«E ansiava por que...»

Um folhetim

 

 

      «Durante toda a noite não conseguira aquecer, e, mesmo no sono, sentira em dado momento que estava a piorar bastante, enquanto logo a seguir sentia que estava a melhorar. E ansiara porque a manhã não chegasse» (Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, Alexandre Soljenitsin. Tradução de H. Silva Letra, revista por António Carlos. Lisboa: Círculo de Leitores, [1970], p. 7).

     Não tinha de estar ali a preposição seguida da conjunção integrante? E ansiava por que... «Eu ansiava por que ele me abandonasse o jornal para ler o folhetim» (Confissão Dum Homem Religioso, José Régio. Lisboa: INCM. 2001, p. 55).

 

[Texto 1554]

Helder Guégués às 15:06 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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Rochedo — sem aspas nem medo

Têm uma grande provisão delas

 

 

      «Uma opinião que a realidade desmente: 48 horas antes do almoço, a Rainha Sofia declinou o convite de Buckingham por causa do diferendo anglo-saxónico sobre Gibraltar e o direito das pescas nas águas territoriais do “Rochedo”» («Gibraltar separa as famílias reais britânica e espanhola», Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 30).

      As aspas devem ser ancoragens para os escaladores chegarem ao topo...

 

[Texto 1553]

Helder Guégués às 13:31 | comentar | favorito
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Miguel Ângelo — sempre!

Não para mim

 

 

      «A noite é o retrato da Dor, a Musa de Dante e Miguel Ângelo e a Mãe de todas as cousas...» (Obras Completas de Teixeira de Pascoaes, vol. 8, Teixeira de Pascoaes. Lisboa: Bertrand Editora, 1973, p. 204).

      Ih, que rematado ignorante! Ou não, apenas nasceu antes do tempo. Os modernos escrevem Michelangelo — porque assim é que se escreve, argumentam de forma tautológica. «O artista Phil Hansen usa alfinetes para “tatuar” cascas de banana e reproduzir conhecidas obras de arte. Uma das últimas obras do norte-americano foi A criação de Adão, pintura de Michelangelo que enfeita o teto da Capela Sistina» («Artista recria quadros famosos em bananas», Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 48).

 

[Texto 1552] 

Helder Guégués às 13:15 | comentar | ver comentários (15) | favorito
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Pontos cardeais no AOLP

Leiam e conversem

 

 

      Um dos dois está enganado, isso de certezinha:

      1. «Apesar da sua perspicácia, nem Legge deve ter percebido o que ali tinha. Pois Dietrich Fischer-Dieskau, que ontem faleceu no sul da Baviera, a dez dias de completar 87 anos, foi simplesmente um dos maiores barítonos (registo vocal entre o de tenor e o de baixo) e, em absoluto, o intérprete expoente do Lied (canção de câmara, com acompanhamento de piano) do século XX» («O maior cantor lírico que a Alemanha deu ao século XX», B. M., Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 37).

      2. «A descoberta dos fósseis, em Cerrejon, uma região do Norte da Colômbia, e o estudo sobre eles foram publicados na revista científica Journal of Systematic Palaeontology por um grupo internacional de investigadores coordenado pelo paleontólogo Edwin Cadena, da Universidade do Estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos» («Tartaruga gigante tinha o tamanho de um ‘Smart’», Filomena Naves, Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 26).

 

[Texto 1551]

Helder Guégués às 12:53 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Revisão nos jornais

Não há

 

 

      «A palavra “reality” não surge como um mero efeito anglófono. Trata-se, muito concretamente, de tratar uma conjuntura marcada pela reality TV, e, em particular, pelo poder mediático do programa Big Brother» («Os meandros da ‘reality TV’ no novo filme de Matteo Garrone», João Lopes, Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 41).

      «Trata-se [...] de tratar»... Nada que uma leitura atenta não resolvesse. Sem revisão, era a única maneira de a coisa sair escorreita. Quanto a reality TV, hoje mesmo lê-se no Público: «Puseram ao largo o grotesco e aproximaram-se com ferocidade e ternura das personagens: Seidl, com Paradise: Love — o turismo sexual no Quénia — e Garrone, com Reality, a reality tv nas nossas cabeças» («Toca na mulher branca, despe o homem negro e cobre o grotesco», Vasco Câmara, 19.05.2012, p. 32).

 

[Texto 1550]

Helder Guégués às 08:53 | comentar | favorito
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Ortografia: «cardiotoráxico»

Pois claro

 

 

      «Duas alunas, de 20 e 22 anos, da Universidade do Minho foram ontem atropeladas por um carro desgovernado, tendo o condutor fugido. Mais tarde entregou-se à PSP. Uma das vítimas foi para o Hospital de S. João, Porto, por precisar de cuidados na área cardiotoráxica» («Duas estudantes atropeladas em Braga», Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 21).

      Se defendo (ver aqui) que todos os dicionários deviam registar as formas torácico e toráxico, é claro que não posso deixar de defender que cardiotoráxico é tão correcto como cardiotorácico.

 

[Texto 1549]

Helder Guégués às 08:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Sobre «institucionalizar»

Este ainda não

 

 

      «Fernando vivia no Seixal com três filhas, entre os nove e os 15 anos, que estarão ainda institucionalizadas à espera de que algum familiar as vá buscar, sendo que a mãe estava separada do pai há vários anos» («Pedófilo do Seixal matou-se na cela da prisão», Roberto Dores, Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 21).

      Para os dicionários mais conhecidos (ou para todos?), institucionalizar ainda é apenas dar ou adquirir forma de instituição; oficializar(-se). Na acepção usada no artigo, é anglicismo semântico, de to institutionalize. Não servirá internar: colocar em colégio, asilo, hospital ou instituição psiquiátrica, como o define o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora?

 

[Texto 1548]

Helder Guégués às 08:48 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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19
Mai 12

Um mundo uniforme

Fardos e palha

 

 

      Numa peça do jornalista João Botas no Telejornal de anteontem, ouvimos David Cameron falar da situação da Grécia e da Zona Euro: «Either Europe has a committed, stable, successful eurozone with an effective firewall, well capitalised and regulated banks, a system of fiscal burden sharing, and supportive monetary policy across the eurozone, or we are in uncharted territory which carries huge risks for everybody.» Nas legendas, pudemos ler: «Ou a Europa tem uma Zona Euro empenhada, estável e com êxito, com uma firewall eficaz, com bancos bem capitalizados e controlados, um sistema de partilha de fardos orçamentais e apoiando a política monetária em toda a Zona Euro, ou estamos num território desconhecido, o que acarreta enormes riscos para todos.»

      O mundo omnipresente da informática... Então firewall é intraduzível, sobretudo neste contexto? «Barreira de protecção» não seria mais adequado? E porque hão-de os burdens ser sempre «fardos»? Não podem ser «cargas» ou «pesos»?

 

[Texto 1547]

Helder Guégués às 05:40 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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