23
Mai 12

«Setúbal»

Digo de novo

 

 

      O Prontuário Sonoro da RTP, que ainda ontem foi recomendado no programa Nativos Digitais, acolhe a entrada «Sergei Rachmaninoff», mas mais valera que registasse, a avaliar pelo que ouço todos os dias na Antena 1, o topónimo Setúbal. Parecem todos asmáticos ou a convalescer de uma afonia. E isto não é implicância subitânea, antes amadurada reflexão, pois que há menos de dois anos já o escrevi no Assim Mesmo. Se o repito, é porque nada mudou. Assustariam o próprio Mafarrico.

 

[Texto 1577]

Helder Guégués às 23:43 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Forma/fôrma»

Em letra de forma

 

 

      Se o Acordo Ortográfico de 1990 estabelece, de forma inequívoca, que o acento circunflexo se pode usar, facultativamente, no nome feminino «forma» com o sentido de molde ou recipiente, com que fundamento o Vocabulário Ortográfico do Português, o tal «disponível graciosamente» na Internet, estabelece que «fôrma» é variante brasileira? Isto não é tresleitura do texto do acordo? Obrigatória no Brasil, mas facultativa para nós. Cadê a uniformização? Digo mais: se todas as variantes fossem facultativas, muito pouco teríamos de mudar na nossa forma de escrever. Ou seja, mais valia terem estado quietos. Como de facto...

 

[Texto 1576]

Helder Guégués às 23:16 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Máquina de inspeção de carris»

Veremos nos próximos tempos

 

 

      «O embate do carro com uma máquina de inspeção de carris ocorreu pelas 10.16. Com o choque, as duas crianças foram projetadas do carro enquanto a vítima mortal teve de ser desencarcerada pelos bombeiros. [...] Segundo a Refer, o acidente ocorreu na Linha do Leste e ao final da manhã já tinha sido recomposta a circulação ferroviária na linha onde apenas circulam comboios de mercadorias» («Crianças sobrevivem a choque com comboio», Luís Fontes, Diário de Notícias, 23.05.2012, p. 20).

      Já prescindiram ou, sem mérito nenhum, não se lembraram de usar o vocábulo «dresina». Nada de especial a apontar, tanto mais que nos viera do francês, mas custa trocar uma palavra por quatro para dizer o mesmo. E não dizemos «repor a circulação»?

 

[Texto 1575]

Helder Guégués às 15:54 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Cavaco Silva e o AOLP90

Eu não lhe agradeço

 

 

      «Durante a inauguração da Feira do Livro de Díli, Cavaco salientou a sua participação na ratificação do Acordo Ortográfico, mas confessou que, embora os seus discursos saiam de acordo com as novas regras, em casa ainda escreve como aprendeu na escola. E recordou que quando foi ao Brasil, em 2008, “face à pressão que então se fazia sentir [naquele país], o Governo disse-me que podia e devia anunciar a ratificação do acordo, o que fiz”» («Cavaco apela ao investimento indonésio em Portugal», Fernando Madaíl, Diário de Notícias, 23.05.2012, p. 12).

 

[Texto 1574]

Helder Guégués às 15:46 | comentar | favorito
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Anúncios que anunciam

Nada de novo

 

 

      Há coisas que, graças aos céus, nunca mudam: «Anúncios negativos de Obama anunciam uma campanha eleitoral dura», Kathleen Gomes, na página 20 da edição de hoje do Público.

 

[Texto 1573]

Helder Guégués às 15:44 | comentar | favorito
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Tradução: «biznaga»

Nada disso

 

 

      «Vestida de forma mais informal, Letizia foi o centro das atenções na visita a um centro educacional de jovens, onde juntamente com o marido recebeu uma “biznaga”, tradicional flor daquela região do país [Andaluzia]» («Aniversário de casados foi passado a viajar», Ana Lúcia Sousa, Diário de Notícias, 23.05.2012, p. 53).

      «De forma mais informal»... A biznaga não é uma flor tradicional daquela região: é um «ramillete de jazmines en forma de bola». Nós é que temos uma planta espontânea chamada bisnaga, bisnaga-das-searas ou paliteira, da família das Umbelíferas.

 

[Texto 1572]

Helder Guégués às 10:43 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Sobressaliente» é outra coisa

Em português é sempre mais seguro

 

 

      «Pessoa simples e modesta, mas um músico de craveira excecional, Noel Flores era natural de Pangim (Goa), onde nasceu em 5 de maio de 1935. Iniciou a sua carreira como pianista, tendo estudado primeiro em Madrid, onde frequentou, com uma bolsa de estudo, o Conservatório, cujo curso concluiu com a nota máxima: sobressaliente.» («Pianista e professor de piano que Portugal mal conhecia», Palma Caetano, Diário de Notícias, 23.05.2012, p. 43).

      É sinónimo de «sobresselente», que, como substantivo, significa aquilo que sobressai, sobeja ou excede. Palma Caetano (José A. Palma Caetano?) queria escrever, vá-se lá saber porquê, sobresaliente, o vocábulo castelhano, usado na classificação escolar, que significa excelente, muito bom. Sim, vá-se lá saber porquê, pois umas linhas à frente escreve que Noel Flores, «no curso de Piano da Academia de Música de Viena foi, no exame final, aprovado com distinção». Então, porque não escreveu aqui a nota em alemão?

 

[Texto 1571]

Helder Guégués às 10:10 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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23
Mai 12

AOLP90: toda a verdade

Maquilhado

 

 

      «Nuno Pacheco explica detalhadamente as incongruências a que a língua foi sujeita», prometeu — em vão — o locutor logo no início do programa de ontem de Nativos Digitais, dedicado ao Acordo Ortográfico. Apareceu também escrito que «nas rádios a questão não se coloca de uma forma tão vincada porque o acordo tem repercussões sobretudo ao nível da escrita». Sou ouvinte assíduo de rádio, e nomeadamente da Antena 1, e, até agora, não reparei em nenhuma repercussão do Acordo Ortográfico. O director adjunto do Público aduziu o exemplo de «maquiagem», que, «em português de Portugal, quer dizer “abarbatar-se com umas quantias”». Não quer nada, isso é disparate. Temos, como têm os Brasileiros, o verbo maquiar, que significa desfalcar, subtrair, de que não se formou o substantivo «maquiagem». Tão disparate como afirmar que são «milhares, milhares» as palavras diferentes entre o inglês e o inglês americano.

      Já para José Mário Costa (fosse eu jornalista, e escreveria que é o «bonzo do Acordo Ortográfico»), se antes, «nós, mesmo os mais ligados à língua, não éramos capazes de escrever sem um prontuário a dizer como é que era», agora «o hífen passou a ter regras claras», até porque basta ir ao Vocabulário Ortográfico, «disponível graciosamente», e «qualquer dúvida é imediatamente resolvida». Então não.

 

[Texto 1570]

Helder Guégués às 10:07 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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