13
Jun 12

«Poltrona voltaire»

Bem sentados

 

 

      E agora leio que uma senhora idosa já nem recebe as visitas na sua «poltrona Voltaire». Os dicionários gerais da língua não registam, é claro, a locução, mas talvez devessem fazê-lo. Sobre «preguiçosa», escreveu Dalgado no seu Glossário Luso-Asiático: «Chama-se assim na Índia uma cadeira de descanso, descrita abaixo, conhecida por “cadeira à Voltaire” ou simplesmente “Voltaire”. O motivo da primeira denominação percebe-se facilmente, mas não se pode descortinar a razão da segunda.»

 

[Texto 1680]

Helder Guégués às 18:44 | comentar | ver comentários (12) | favorito
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Regência de «ódio»

Mas no dia-a-dia...

 

 

      E então o nosso pequeno herói ameaça matar um criado, «tal é o meu ódio por esse homem». Mas a regência nominal mais habitual não é essa: dizemos ódio a ou ódio contra. «Em que sentido se há-de ter ódios aos Reis» (Sermões, P. António Vieira). «Do seu ódio contra os dignitários da Igreja há provas irrecusáveis, mais evidentes do que do ódio contra a nobreza» (Opúsculos, Alexandre Herculano).

 

[Texto 1679]

Helder Guégués às 18:41 | comentar | ver comentários (74) | favorito

«Possíveis e imagináveis»

Suzana Flag dixit

 

 

      «O médico fez e repetiu todos os exames possíveis e imagináveis. Queria ter uma visão minuciosa, completa, do caso clínico» (O Homem Proibido, Nelson Rodrigues. Rio de Janeiro: Agir, 2007, p. 287). Claro que me recordo de termos falado aqui desta expressão. Só a voltei a referir porque acabei de encontrar a muito mais vulgar «possíveis e imaginárias».


[Texto 1678]

Helder Guégués às 13:23 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Caixa de rapé/tabaqueira»

Para evitar equívocos

 

      Sabiam que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista a expressão «boceta de Pandora»? Ah, não... E sabiam que «boceta» (um vulgarismo no Brasil) também significa «caixa de rapé»? Rapé, como sabem, é tabaco moído para cheirar. Uma trisavó materna minha, Matilde (hoje trago para aqui toda a família), atafulhava as narinas com pitada atrás de pitada (e «pitada» virá de «pitar», fumar cachimbo?). Chego ao ponto que me interessa: apesar de rapé ser tabaco, não será melhor, para evitar equívocos, chamar caixa de rapé em vez de tabaqueira à caixa ou bolsa onde se guarda este tabaco moído?


[Texto 1677]

Helder Guégués às 13:21 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Ortografia: «réstia»

Um dos mais comuns

 

 

      Véstia de veste, hástia de haste, réstia de reste... Nos dicionários, contudo, têm um tratamento diferente. Véstia (que ouvi o meu avô materno usar com frequência) é a espécie de casaco curto, jaqueta, jaleca; hástia já é «popular» para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora; réstia vem, de facto, de reste, este já no latim, o que explica a antiga ortografia «réstea» e, de alguma maneira, o erro muito habitual. Que acabo de ver numa tradução.

 

[Texto 1676]

Helder Guégués às 12:26 | comentar | favorito
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«Porta de Brande(m)burgo»

No entanto

 

 

      «A exuberante modelo não quer que os jogadores do seu país digam que os germânicos não dão o melhor de si para os apoiar no caminho até à final. Micaela Shaefer [sicdeu o seu melhor – neste caso o corpo – e posou junto de um dos monumentos mais emblemáticos da Alemanha: a Porta de Brandeburgo, em Berlim» («Micaela Shaefer [sic] tira a roupa para a ‘Mannschaft’ chegar à final», Diário de Notícias, 13.06.2012, p. 35).

      É também como a fiável Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira regista, mas não faltam textos em que se lê Porta de Brandemburgo. E em alemão não é Brandenburger Tor?

 

[Texto 1675] 

Helder Guégués às 10:11 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «preopinante»

Pelo contrário

 

 

      «Um alvoroço assanhado tem acolhido as declarações de D. Januário Torgal Ferreira sobre o Governo e o seu chefe. Afirmou, na TSF, que Portugal está à deriva e, para acentuar a ideia, disse: “E no fim ainda aparece um senhor que, pelos vistos, ocupa as funções de primeiro-ministro, dizendo um obrigado à profunda resignação de um povo dócil e bem amestrado que até merecia estar no Jardim Zoológico. Conclusão: parecia estar a ouvir o discurso de uma certa pessoa há cinquenta anos.” A analogia irritou, [sic] alguns preopinantes, especialmente Vasco “Pulido Valente”, cada vez mais analista em círculo concêntrico, que apenas enfada e não estimula» («As palavras do bispo», Baptista-Bastos, Diário de Notícias, 13.06.2012, p. 7).

      Também é vocábulo do antigamente. Se queríamos vê-lo sem ser nos dicionários, tínhamos de consultar os diários do Parlamento, das Cortes... Bem, agora está aqui, e ainda bem. É tão-só — apesar de, para quem não conhece o termo, parecer ser uma chapada em VPV — o que opina antes de outros. Justamente o contrário do que julgo que VPV é: um pós-opinante. Depois de as ideias lhe estagiarem bem no cérebro, escreve da forma mais lapidar e ofensiva de que é capaz. E é sempre capaz, por isso parece simples. Mas não é.

 

[Texto 1674]

Helder Guégués às 09:36 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Uma solução boa e robusta»

Foi Paulo Portas

 

 

      «Mais de 20 % das exportações portuguesas vão para Espanha. O mercado espanhol é, portanto, muito importante para as nossas empresas, para as nossas exportadoras, não só para conquistarem quotas de mercado lá fora, como para protegerem os postos de trabalho cá. Por isso, é do interesse de Portugal que haja uma solução boa e robusta para Espanha.» Quem fez esta afirmação? Ou Paulo Portas ou Passos Coelho, dizem-me os meus leitores. Pois é verdade: são os únicos que usam com desusada frequência o adjectivo «robusto» — tão físico, tão visualmente conotado com pessoas e objectos ­— para caracterizar ideias, estratégias, políticas. Um interessante sentido figurado.

 

[Texto 1673]

Helder Guégués às 09:07 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Tradução: «kickboxer»

No ringue

 

 

      João Tomé de Carvalho, no Bom Dia Portugal de ontem: «Morreu o pugilista cubano Teofilo Stevenson. Era considerado um dos melhores pugilistas da História.» Não tem nada de extraordinário: apenas que nem sempre os tradutores e os jornalistas se lembram de que temos o termo «pugilista». Ainda ontem, numa tradução, vi boxeur — e no original estava kickboxer...

 

[Texto 1672]

Helder Guégués às 08:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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13
Jun 12

Tradução: «bullet train»

No Shinkansen

 

 

      «Soon after, the three of us board the bullet train, which quickly accelerates to a buttery-smooth 140 mph.» O Dicionário Houaiss ainda regista «trem-bala», mas não vejo em nenhum «comboio-bala». Temos «comboio de alta velocidade», que só chegou a alguns dicionários através da sigla francesa «TGV».

 

[Texto 1671]

Helder Guégués às 08:42 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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