22
Jun 12

O desgraçado verbo «pôr»

RIP

 

 

      É oficialíssimo: o verbo «pôr» morreu mesmo. Depois de alguns anos em coma, morreu esta madrugada. Vai estar esta noite em câmara-ardente na capela do Público. À família enlutada (antepor, apor, compor, contrapor, contrapropor, decompor, depor, descompor, dispor, entrepor, impor, indispor, interpor, justapor, opor, pospor, predispor, prepor, pressupor, propor, recompor, repor, sobpor, sobrepor, sotopor, subpor, supor, transpor, etc.) apresentamos as nossas condolências. Como todos os defuntos, era uma excelente pessoa. Segundo o testemunho emocionado de alguns colegas, como o Dr. Meter e o Eng.º Colocar, nos últimos anos o Sr. Pôr sentia-se muito combalido e maltratado.

      «Esta longa enumeração de pecadilhos não deve obnubilar a imensa capacidade narrativa de [Afonso] Cruz, patente não apenas no minucioso encadeamento das situações como no cinzelar de cada cena, nos diálogos (não é de mais elogiá-los de novo) ou no talento para colocar uma personagem em movimento» («Tragicomédia alentejana», João Bonifácio, «Ípsilon»/Público, 22.06.2012, p. 31).


 [Texto 1718]

Helder Guégués às 20:20 | comentar | ver comentários (14) | favorito
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«Seu merdas»

No plural, aos baldes

 

 

      E a propósito de coprofilia, o que será mais comum em calão: «Seu merda» ou «seu merdas»? Acabei de ver no singular (a traduzir o francês ordure), mas, não sei porquê, a mim o plural soa-me mais ofensivo, se tal é possível.

      «Mate-me não uma vez mas dez vezes, é o que lhe peço, e dê-me a mesma morte que você, seu merdas, deu ao cardeal de Saragoça, porque você é que o matou, não foi outra pessoa» (O Adeus às Virgens, Alexandre Pinheiro Torres. Lisboa: Editorial Caminho, 1992, p. 123).

 

 [Texto 1717]

Helder Guégués às 13:57 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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Tradução: «cameo»

E camafeus

 

 

      «Ao longo dos anos, LeRoy Neiman tornou-se cada vez mais bem-sucedido, frequentando programas de televisão onde desenhava, em direto, caricaturas de personalidades como Frank Sinatra ou Muhammad Ali. Pintou ainda outras figuras, como Leonard Bernstein, Suzanne Farrell, Marianne Moore ou Sylvester Stallone. Este último proporcionou a LeRoy Neiman vários cameos nos três filmes sobre Rocky» («Um dos artistas oficiais dos Jogos Olímpicos», Diário de Notícias, 22.06.2012, p. 47).

      Assim mesmo: sem aspas nem itálico. (O leitor que se lixe, não é?) E é uma coisa comezinha como isto (definição do Dicionário Inglês-Português da Porto Editora): aparição de actor convidado. E que difícil seria compor uma frase com esta ideia...

 

 [Texto 1716]

Helder Guégués às 08:58 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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O verbo «faltar»

Só não aprendem se não quiserem

 

 

      «Ainda faltam vender perto de cinco mil bilhetes para domingo» («Camarim de Madonna esterilizado», Paula Carmo, Diário de Notícias, 22.06.2012, p. 49).

      Erro muito comum, este, e não apenas na imprensa, é claro. O sujeito do verbo faltar, que é pessoal, é outro verbo, o verbo vender, que está no infinitivo. O valor nominal do verbo no infinitivo exige assim que o verbo faltar esteja no singular. Difícil?

 

 [Texto 1715]

Helder Guégués às 08:26 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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22
Jun 12

Tradução: «rastrello»

Falta de experiência

 

 

      «Em volta, os jogadores, homens e mulheres, velhos e novos, de todos os países e de todas as condições, uns sentados, outros de pé, apressavam-se nervosamente a dispor pequenos montículos de luises, de francos e de notas nos números amarelos dos quadrados; os que não conseguiam aproximar-se, ou o não queriam, diziam ao banqueiro os números e as côres em que queriam jogar, e logo o destro banqueiro, com a sua rasoira, dispunha maravilhosamente as jogadas» (O Falecido Matias Pascal, Luigi Pirandello. Tradução de José Marinho. Lisboa: Inquérito, s/d [mas de 1945], 2.ª ed., p. 61).

      Aqui o filósofo, o tradutor, digo, errou. No original, está rastrello. Em inglês diz-se rake; em francês, râteau; em castelhano, rastrillo. Talvez se hesitasse entre rodo e ancinho, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista como acepção de «rodo» o utensílio semelhante para aproximar e recolher o dinheiro nas bancas do jogo. Agora «rasoira»... Só quem nunca viu nenhuma é que pode confundir.

 

 [Texto 1714]

Helder Guégués às 08:21 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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