02
Jun 12

O teatral verbo «haver»

Caçado na Antena 1

 

 

      Jardins de Serralves. No noticiário das 6 da tarde, na Antena 1, ouvi que está lá o Teatro mais Pequeno do Mundo: uma rulote que não leva mais de 15 pessoas. Ouviu-se então parte — pequena, Deus seja louvado! — de uma peça e uma voz masculina: «E a história que vos vou contar, cacei-a na Noruega. E na Noruega, há muitos, muitos anos atrás, no tempo dos trolls, haviam três irmãos.»

      Esta e outras histórias vão ser contadas vezes sem conta nas próximas 40 horas, informaram. Pobres espectadores. Ide, correi.

 

[Texto 1632]

Helder Guégués às 19:26 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «escribariato»

Outro proletariado, ou não

 

 

     Também nunca visto, mas claramente menos castiço do que «esterlinto» e «escoiriçar»: «Na civilização suméria, os escribas pertenciam às famílias mais ricas e o escribariato (que excluía as mulheres) era um ofício muito considerado.»

 

[Texto 1631]

Helder Guégués às 15:00 | comentar | ver comentários (10) | favorito
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Léxico: «automaca»

Pouco vista

 

 

      «Dois homens morreram ontem à noite no IC22, em Lisboa, na sequência do despiste do motociclo de grande cilindrada em que seguiam. O despiste mortal ocorreu cerca das 21.25, junto ao acesso daquela via para a Ramada. Os dois homens morreram no local, tendo a PSP feito deslocar para o sítio do desastre a automaca do Comando Metropolitano de Lisboa» («Despiste de moto provoca dois mortos», Diário de Notícias, 2.06.2012, p. 48).

      «Maca montada em veículo automóvel», regista, e nem todos o fazem, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 1630]

Helder Guégués às 11:33 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Mandato da Rainha»?

Qual deputada

 

 

      «Desde o século XVI que cada monarca britânico tem sido também o Governador Supremo da Igreja de Inglaterra, mas isso não significa que Isabel II seja a chefe da Igreja. “É a pessoa que tem a decisão final sobre o que a Igreja pode ou não fazer em termos de lei”, disse o arcebispo de Cantuária, Rowan Williams, o quinto a ocupar este posto durante o mandato da Rainha» («Papel de Isabel II como ‘defensora da fé’ em causa», Susana Salvador, Diário de Notícias, 2.06.2012, p. 29).

      Também se pode falar de mandato quando nos referimos ao reinado de um monarca? E eu não escolheria a palavra «posto».

 

[Texto 1629]

Helder Guégués às 11:29 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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02
Jun 12

«Dançarinos maoris»

E uns cortes

 

 

      «Mas nem todos são seus fãs. O jornal conservador The Times escreveu: “A razão pela qual é tão comum dizer que a Rainha faz muito bem o seu trabalho é porque ela na realidade não tem trabalho nenhum, a não ser que consideremos como tal o facto de olhar para os dançarinos Maori com um sorriso congelado nos lábios» («A Rainha que já deu conselhos a 12 primeiros-ministros britânicos», Susana Salvador, Diário de Notícias, 2.06.2012, p. 29).

      Quase, quase, Susana Salvador: então não é «dançarinos maoris» que se diz? Ora experimente lá consultar o tão acessível Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. E a frase precisava de uns cortes, não da tal nefanda tesoura que por aqui pervagou, qual alma penada, mas de uma criteriosa.

 

[Texto 1628]

Helder Guégués às 11:10 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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01
Jun 12

Metáforas animalistas

Erros serpentinos

 

 

      «Accorto come una biscia» («Astuto como uma serpente»), leio aqui, é uma metáfora animalista. Não é: se a frase tem a conjunção «como», é uma comparação e não uma metáfora. Como exemplo de metáfora animalista, Feliciano Ramos, autor da obra Breves Noções de Poética e Estilística (Braga, 1966), aponta «este homem é um leão». A frase lá de cima é do Evangelho segundo São Mateus: «Envio-vos como ovelhas para o meio dos lobos; sede, pois, prudentes como as serpentes e simples como as pombas» (10, 16).

 

[Texto 1627]

Helder Guégués às 08:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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01
Jun 12

Por água e por vinho

Vai uma sacholada

 

 

      «Parafraseando Aquilo [sic] Ribeiro, “em Portugal mata-se por água e por vinho”. Ou seja, nas partilhas, nas divisões de terras, todos preferem as zonas com água, e as quezílias muitas vezes acontecem já depois de algum álcool consumido» («Questões familiares explicam 27% dos homicídios em 2011», Diário de Notícias, 1.06.2012, p. 7).

      Quanto ao vinho, estamos entendidos. Já quanto à água, não é assim que entendo os motivos das agressões e homicídios. Tanto quanto sei, eu, citadino, essas desavenças, que outrora ocupavam boa parte do tempo de um magistrado na província, eram originadas por desentendimentos sobre a distribuição (e, assim, partilha, sim, mas não no sentido de divisão dos bens de uma herança) de águas para rega, águas de levadas, por terrenos de cultivo. Adrede ou por esquecimento, um agricultor prolongava o tempo em que tinha a água a correr para os seus terrenos, e lá vinha o vizinho prejudicado dar-lhe uma sacholada, vazando-lhe um olho ou matando-o. Como também escreve Gilbert Durand, «a água divide e a água reúne».

 

[Texto 1626] 

Helder Guégués às 08:05 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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