29
Jun 12
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Jun 12

Tradução: «roomette»

No Amtrak

 

 

      «To escape the confines of our roomette…» É em vão que procuramos no Dicionário Inglês-Português da Porto Editora tradução para a palavra «roomette». Regista «roommate», e já é um pau. Bem, é «a small private single room on a railroad sleeping car». «Compartimento»? «Cabina»? No sítio da CP, lemos que os passageiros do Lusitânia «podem optar por lugares cama em compartimentos para 1, 2 ou 4 pessoas».

 

 [Texto 1740]

Helder Guégués às 08:44 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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28
Jun 12

«Desportivismo»

Jogo limpo

 

 

      «Quero felicitar muito calorosamente todos os jogadores e a equipa técnica, que por terras da Polónia e da Ucrânia se bateram com brio, com determinação e com muito desportivismo e que alcançaram um excelente resultado. Os Portugueses estão orgulhosos da sua selecção nacional de futebol», disse o Presidente da República. Fosse outro o titular ou — talvez até para sermos mais justos — o redactor dos discursos, e teríamos ali fair play. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «fair play», pois claro, mas não remete para «desportivismo». Grandes promotores da lingua franca.

 

 [Texto 1739]

Helder Guégués às 23:29 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Petrechado»

Agora imaginem

 

 

      «N’essa mesma noite partiu Gonçalo para a côrte, petrechado de boas recommendações para debelar quaesquer ardis judiciarios da consorte, favorecidos pelos valiosos amigos de Heytor Azinheiro» (Estrellas Funestas, Camilo Castelo Branco. Porto: Viúva Moré Editora, 1869, 2.ª ed., p. 77).

      Agora imaginem que, numa reedição, desta ou de qualquer outra obra, em vez de «petrechado» na editora entendiam que «apetrechado» é que estava correcto, e alteravam nesse sentido. Agora imaginem que isso já aconteceu.

 

 [Texto 1738]

Helder Guégués às 13:26 | comentar | ver comentários (19) | favorito
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28
Jun 12

Czar, tzar, tçar

Esquecidas

 

 

      «Por todos os lados, na tolda do imenso barco, a confusão e o movimento são intensos: há centenas de soldados russos que voltam da ilha de Creta (em cuja baía a esquadra do tzar permanece, pronta, dizem, para intervir no conflito turco-grego), e tantos ou mais peregrinos, da mesma nacionalidade, que regressam de Jerusalém» (Novelas Eróticas, M. Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, s/d [mas de 1961], 2.ª ed., pp. 165-66).

      A fiável Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira regista o que provavelmente nenhum dicionário regista: «Tçar, s. m. Título do antigo Imperador da Rússia; o mesmo e melhor que tzar e czar, mas menos usado.» Rebelo Gonçalves, no seu Vocabulário da Língua Portuguesa, regista somente «czar», mas com a ressalva de que é a «forma consagrada pelo uso: a correcta seria tçar». Em francês, recorde-se, é tsar ou tzar, e em castelhano e em italiano zar (Zar em alemão).

 

 [Texto 1737]

Helder Guégués às 07:59 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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27
Jun 12

Coisas dos dicionários

Ignotíssimo

 

 

       «As duas familiares (a mais velha era mãe solteira de uma criança de ano e meio) perderam a vida num acidente, pelas 00.30, quando seguiam no estradão florestal de Calvão» («Álcool e velocidade excessiva em despiste com três mortos», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 27.06.2012, p. 17).

      Um estrangeiro que esteja a aprender a língua consulta, ingenuamente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e que vê? «Estradão: aumentativo, masculino singular de estrado (nome)». Pois é...

      «Graças, porém, a um estradão florestal de construção relativamente recente, a serra oferece acesso fácil até ao limiar dos mil metros» (Alto Douro Ignoto, Sant’Anna Dionísio. Lisboa: Lello Editores, 1973, p. 129).

 

 [Texto 1736]

Helder Guégués às 22:36 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«De conta própria»

Era assim

 

 

      «— Já teve..., antes de meu pai se estabelecer de conta própria. Eu ainda lhe não disse o nome do meu pai, chama-se Cruteman» (Novelas Eróticas, M. Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, s/d [mas de 1961], 2.ª ed., p. 32).

      Se agora escrevemos e dizemos sempre «por conta própria», dantes era quase sempre como se lê na novela de Teixeira-Gomes.

 

 [Texto 1735] 

Helder Guégués às 17:11 | comentar | favorito
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27
Jun 12

Deste livrámo-nos

Uf...

 

 

      «No carácter geral da cidade havia mais homogeneidade, de modo que a catedral — a incomparável — com as suas naves tenebrosas, onde se acendem as fulgurações dos vitrais; o claustro composto, deduzido, como sinfonia magistralmente orquestrada na série das suas capelas de retábulos polilhados, entrevistos através de vetustíssimas e imaginosas grades de ferro batido; a sua catedral — a única — não dava ainda essa impressão de flagrante anacronismo que depois foi tomando passo a passo, com a abertura das infinitas avenidas rectilíneas, dos esquares geométricos, das vastas praças rectangulares» (Novelas Eróticas, M. Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, s/d [mas de 1961], 2.ª ed., pp. 120-21).

      Deste lá escapámos, caro Montexto, valha-nos Deus. «Esquare»! Talvez assentasse bem na escrita do cosmopolita e esteta Teixeira-Gomes.

 

 [Texto 1734]

Helder Guégués às 12:28 | comentar | ver comentários (12) | favorito
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26
Jun 12

Plural de apelidos estrangeiros

Ele sabia

 

 

      O apelido do pai da amante do protagonista é Cruteman. Logo, são os?... «De Nieuwe Markt a Oude Schans, onde era o escritório do Kater, havia dez minutos de caminho e, embora a ocasião não fosse própria para o procurar, pois àquela hora de volta da Bolsa encontrá-lo-ia certamente na crise diária de trabalho, cercado de empregados, transmitindo ordens e fechando contratos, o ouvido colado ao telefone e a voz ditando, imperiosamente, concisos mas importantes telegramas, não resisti à tentação de o importunar para colher qualquer informe acerca desses Crutemans que deixavam uma filha tão linda e caprichosa à solta e vestida miseràvelmente» (Novelas Eróticas, M. Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, s/d [mas de 1961], 2.ª ed., p. 33).

 

 [Texto 1733] 

Helder Guégués às 18:14 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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26
Jun 12

«Indispensável/”nécessaire”»

Amor da língua

 

 

      «Assim era que levava a melhor parte dos dias flanando, sempre com um romance do Querido — espécie de Zola holandês — no indispensável, um depósito de côdeas de queijo, pedaços já secos de pão com passas de Corinto, na algibeira a que ela recorria — chamando-lhe o seu Entrepôt-dok ou porto franco — sem a menor cerimónia, fosse onde fosse, para meter na boca o primeiro bocado que topava» (Novelas Eróticas, M. Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, s/d [mas de 1961], 2.ª ed., pp. 25-26).

      Agora vejam: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista a acepção: «antiquado saquinha ou maleta de senhora para transportar objectos de uso pessoal». E no mesmíssimo dicionário, também está o termo francês «nécessaire»: «bolsa ou estojo para guardar objectos de uso pessoal ou de toilete».

 

 [Texto 1732]

Helder Guégués às 13:59 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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