02
Ago 12

«Retrato/fotografia»

Ainda assim

 

 

      Demos outro pulo ao Paulo do Lobo: «É obrigatório ir ao Paulo do Lobo. Mas a primeira paragem, essa, tem de ser em cima da ponte para tirar a Leica do saco e fazer o retrato da ponte férrea» («Serpa: a ponte do Rio Grande», Filomena Araújo, Diário de Notícias, 2.08.2012, p. 49).

      Retrato é a imagem de uma pessoa reproduzida por fotografia, desenho ou pintura ou, por extensão de sentido, a obra de arte em que se reproduz a imagem de uma pessoa. De uma ponte, habitualmente não dizemos que é o retrato, mas a fotografia, se for esse o processo. Em italiano, e o étimo é italiano, por extensão de sentido, ritratto também é a «reppresentazione d’un luogo o d’una cosa». É verdade que dizemos «retrato do país», «retrato da situação». Como também, por extensão de sentido, se diz «radiografia do país», por exemplo, a significar o estudo pormenorizado e aprofundado.

 

  [Texto 1910]

Helder Guégués às 13:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se escreve nos jornais

Só uma gralha, sim, mas

 

 

      «É obrigatório ir ao Paulo do Lobo. Mas a primeira paragem, essa, tem de ser em cima da ponte para tirar a Leica do saco e fazer o retrato da ponte férrea. Outrora passagem para a margem esquerda do Guadiana, está desde há muitos anos desativada. Só que imortalizada pelo projeto musical Rio Grande. “Parece que estava escrito (como a vida nos engana), o sonho era mais bonito, para lá do Guadiana”, canta Jorge Palma» («Serpa: a ponte do Rio Grande», Filomena Araújo, Diário de Notícias, 2.08.2012, p. 49).

      Sim, é uma mera gralha, a que eu prometi não ligar — excepto quando forem, como é manifestamente o caso, sintoma de um mal maior: o desleixo. Nunca se escreveu desta forma displicente no Diário de Notícias. Não há, hoje em dia, nenhum jornal com tantas gralhas. Os leitores merecem melhor.

 

  [Texto 1909]

Helder Guégués às 09:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Baía dos Tubarões»

Mais atenção

 

 

      «Na baía dos tubarões, na costa ocidental da Austrália, há um grupo alargado de golfinhos residentes que tem uma estratégia de caça muito particular. Esses cetáceos servem-se de uma esponja, que seguram firmemente na ponta da boca e, assim “enfeitados”, vão à procura do almoço no fundo do mar. Para que lhes serve a esponja?» («Golfinhos transmitem cultura às suas crias», Filomena Naves, Diário de Notícias, 2.08.2012, p. 24).

      É uma espécie de reacção alérgica: como em inglês é tudo grafado com maiúsculas, Bay Shark, a jornalista quis que em português fosse tudo com minúsculas.

 

  [Texto 1908]

Helder Guégués às 08:59 | comentar | favorito
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«Cidade dos Estudantes»

Mais um esforço

 

 

      «Se viver ou estiver de passagem pela cidade dos estudantes[,] não deixe de aproveitar para levar a clássica cesta de vime, recheada de fruta, água e comidinhas leves, até ao Parque Verde. Um almoço à sombra de uma árvore junto ao Mondego é uma boa maneira de aproveitar a cidade de Coimbra. E se estiver na região e o tempo não for um problema, então mais vale levantar-se bem cedo e rumar até ao Luso, onde o que não faltam são espaços verdes e a água fresca jorra livremente nas bicas da fonte do centro da vila» («Levar o farnel na cesta e pôr a mesa ao ar livre», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 2.08.2012, p. 48).

      Cara Catarina Reis da Fonseca, trata-se de um prosónimo, está em vez de um topónimo, por isso escreve-se com maiúsculas iniciais. Não tem de quê.

 

  [Texto 1907]

Helder Guégués às 08:57 | comentar | favorito
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Léxico: «piquenicar»

As aspas, essa doença

 

 

      «Continuando para sul, encontramos em Aveiro alguns locais agradáveis bem no centro da cidade que pedem uma tarde bem passada a “piquenicar”. No Jardim do Rossio, à beira da ria, não há mesas, mas a tranquilidade e as palmeiras românticas compensam esse pequeno senão. Já no Parque Infante Dom Pedro, também no centro, há um espaço com mesas e bancos, que se esconde entre árvores frondosas» («Levar o farnel na cesta e pôr a mesa ao ar livre», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 2.08.2012, p. 48).

     Espero que a justificação para o uso das aspas não seja a de que o vocábulo não está dicionarizado, porque está. E, sobretudo, mesmo que não estivesse, não precisava das aspas.

      «—... e, à tardinha, vi-os piquenicar de cesto e garrafão, entre as camionetas estacionadas no Terreiro do Trigo e em frente do Ministério da Marinha. Alguns vinham a Lisboa pela primeira vez, e atribuíam esse acontecimento maior das suas vidas à própria existência do homem providencial que lhes arengou do alto de uma janela ministerial do Terreiro do Paço» (Café República, Álvaro Guerra. Lisboa: BIS/Leya, 2010, p. 263).

 

  [Texto 1906]

Helder Guégués às 08:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Solarengo», de novo

Velha e sempre esquecida questão

 

 

      «“Piquenique. Refeição festiva no campo em que cada qual fornece ou paga a sua parte.” A definição consta no II Volume do Dicionário Enciclopédico Lello Universal, mas não precisa de ser levada à letra por quem decidir aproveitar os dias mais solarengos para pôr a mesa na rua» («Levar o farnel na cesta e pôr a mesa ao ar livre», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 2.08.2012, p. 48).

  Está quase tudo nos dicionários, até esse disparate inominável de «solarengo» na acepção usada no artigo encontrou acolhimento no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa. Mas um jornalista tem obrigação de saber que é um disparate. De ora em diante não pode sequer afirmar que não foi avisada.

 

  [Texto 1905]

Helder Guégués às 08:54 | comentar | ver comentários (11) | favorito
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02
Ago 12

Léxico: «heredo-biológico»

De médico

 

 

      Mais de mil portugueses suicidam-se todos os anos. No Bom Dia Portugal, foi entrevistado o psiquiatra António José Albuquerque. «Aí, tudo nos leva a crer que,  para além do enquadramento geral, das condições sociais, há uma acentuação, há digamos uma tónica que é fundamentalmente biológica e pessoal, digamos assim, familiar, ou, heredo, se quiser, heredo-biológica, que pertencerá, digamos assim, ao genoma das famílias em que há uma maior taxa de suicídio.»

 

  [Texto 1904]

Helder Guégués às 06:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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