04
Ago 12

«Ponto final, parágrafo»

Agora me lembro

 

 

      «Chegaram polícias, uns de farda, outros à paisana, e com eles uma ambulância. Os polícias inquiriram de quem vira e não vira os bandidos, e se sabiam dizer quantos tinham sido, se eram pretos, pretos retintos, mulatos ou brancos amulatados, e como trajavam eles e em que direcção tinham fugido depois de terem feito aquele lindo serviço. Ninguém soube dizer nada de concreto nem de aproveitável à Polícia. Ponto final, parágrafo» (As Coisas da Alma, João de Melo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2003, p. 161).

      Agora mesmo vi outra variante: «ponto final, com parágrafo». Mas, em Novembro do ano passado, um leitor escrevia-me: «Meu caro Helder: “Ponto final parágrafo” não será uma contradição de termos? Ponto parágrafo faz mais sentido, não acha?»

 

  [Texto 1922] 

Helder Guégués às 16:36 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Cara chapada»

Ora bem

 

 

      «— A cara chapada! É incrível! Inacreditável! Ele é a cara chapada...

      O que dizem é “spitting image”, “imagem cuspida”» (Nem Pato, nem Cisne, Ana Saldanha. Lisboa: Editorial Caminho, 2008, 2.ª ed., p. 78).

      Mas não se diz também «escarrada e cuspida»? Bem, mas este é só o ponto de partida, o intróito. O que eu queria era um sinónimo elegante para «cara chapada». O «rosto, sem tirar nem pôr, de ***»? Que acham? Sugestões, aceitam-se.

 

  [Texto 1921]

Helder Guégués às 14:46 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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Ortografia: «paracomercial»

Solda, solda

 

 

      Reparem: «Uma brincadeira de miúdos, feita por gozo e para os amigos, transformar-se de repente num fenómeno para comercial é uma coisa inesperada, difícil de integrar» («A piada de fazer de parvo em vídeo», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 4.08.2012, p. 6).

      Até agora, apenas conhecíamos os fenómenos paranormais. O prefixo é o mesmo, e fica juntinho da palavra que se lhe segue, sem espaço nem hífenes a servirem de breve ponte. Near-commercial, cuasicomercial, paracomercial.

 

  [Texto 1920]

Helder Guégués às 11:05 | comentar | favorito
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Léxico: «ressarcitório»

Deixaram escapar esta

 

 

      «“O presidente da segunda maior câmara do país vir aqui, responder em tribunal se lhe chamam fanático dos popós e se é um fanático dos popós, em agosto, quando os tribunais estão fechados e só coisas urgentes é que são tratadas, revela o quadro em que a justiça e o regime político em que vivemos está”, criticou o edil. O advogado do autarca confirmou a existência de uma “ação principal para efeitos ressarcitórios”, mas não especificou o montante» («“Um energúmeno a dizer se é fanático dos popós”», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 4.08.2012, p. 17).

      Nem os dicionaristas mais espevitados lá chegaram. Estão, contudo, sempre a tempo.

 

  [Texto 1919]

 

Helder Guégués às 10:49 | comentar | ver comentários (11) | favorito
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Anagrama, sim, mas

De outro nome

 

 

      «No topo da lista em termos de subscritores de canal YouTube e a fazer quase o ordenado mínimo nacional em cliques (“No primeiro mês ganhei 128 dólares, no segundo 400 – depende dos vídeos que faço. Não vou ficar rico, mas é melhor do que nada.”), Bruno Leça, 17 anos, (muito) mais conhecido pelo anagrama do nome próprio, Nurb, é sem dúvida a vedeta do grupo» («A piada de fazer de parvo em vídeo», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 4.08.2012, p. 6).

    Anagrama — com elisão, há-de ser. Não mereceria entrar no Jardim Anagramático de Divinas Flores Lusitanas, Hespanholas e Latinas.

 

  [Texto 1918]

Helder Guégués às 08:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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04
Ago 12

Changana, moluene, ronga...

Tão perto e tão longe

 

 

      Aqui precisamos de uma achega de Vítor Santos Lindegaard. Acabei de ler: «As ruas de Maputo estavam enxameadas de crianças sem família e sem tecto: meninos de rua ou moluwene, como lhes chamavam em Shangane, o dialecto predominante do Sul de Moçambique.»

      Comecemos então pelo fim: é changana que se escreve, a língua dos Changanas, «etnia de matriz banta, que vive na província de Gaza, em Moçambique, e na de Gaza N’Kulu, na África do Sul», lê-se no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Língua ou dialecto? E «moluwene»? O mesmo dicionário regista moluene: «Moçambique criança abandonada; criança vagabunda». E acrescenta que provém do ronga molwêni.

 

  [Texto 1917]

Helder Guégués às 08:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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