08
Ago 12

Plural: «papos-secos»

É o que se ouve

 

 

      Em parte, temos de o admitir, a jornalista tem razão: o que ouvimos é «papo-secos». Mas é assim que se fala, a mascar e a engolir fonemas. No caso, o encontro de dois ss de sílabas diferentes tinha de dar nisto.

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora garante que «papo-seco» é popular. Amílcar Ferreira de Castro, em A Gíria dos Estudantes de Coimbra, afirma que «em Lisboa costuma chamar-se aos pães pequenos “papos-secos”. Esta designação é dada também aos janotas, pelo que pãozinho veio provàvelmente a ter o mesmo sentido» (p. 91). Até agora, quase só ouvi a palavra no Alentejo e muito pouco em Lisboa.

      «O Pedro continuava, mais mais, agora os poemas do novo livro, já em provas, poemas que estalavam, novinhos em folha, moletes, papos-secos, pães a quebrar a crosta, vivinhos da costa, polidos na teta da origem» (O Mundo à Minha Procura, vol. 3, Rúben A. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1968, p. 14).

 

  [Texto 1950] 

Helder Guégués às 22:12 | comentar | favorito
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«Catequese» e «catequizar»

Saibam de cor

 

 

      Em parte, temos de o admitir, a jornalista tem razão: catequizar, a par de sintetizar e de sifilizar, é uma excepção, pois –izar só se usa nos verbos derivados de vocábulos sem s. Domício Proença Filho pergunta, com muita graça, se, no caso de «catequese» e «catequizar», estamos perante divergências de família. Não, responde, apenas tem que ver com caprichos da origem, grega, das palavras. Os Gregos só nos arranjam problemas. Ainda hoje.

 

  [Texto 1949]

Helder Guégués às 18:32 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Sobre o cânone literário

Vamos ver se entendem

 

 

      «Nunca será demais insistir em que os estudantes, se tiverem um bom domínio da língua portuguesa, ficam preparados para ler tudo o mais: bulas de medicamentos, manuais de instruções, relatórios técnicos, notícias de jornais... Ao invés, se a sua preparação for circunscrita a este tipo de textos, nunca eles conseguirão ler capazmente um grande escritor. E se não forem capazes de ler capazmente um grande escritor, acabarão por não ser capazes de mais nada» («Sobre o cânone literário», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 8.08.2012, p. 54).

 

  [Texto 1948]

Helder Guégués às 08:14 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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08
Ago 12

Ortografia: «bloco-notas»

Procura-se

 

 

      «Leonor, de seis anos, e Jenifer, de nove, são clientes habituais do escorrega, dos baloiços e da estrutura de escalada do pequeno parque infantil do Jardim Constantino. E mal veem o bloco notas correm a contar a história-do-menino-que-foi-metido-por-um-homem-na-casa-de-banho, entre sorrisos e o inevitável “vamos aparecer?”» («Menino violado ainda sem apoio psicológico», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 8.08.2012, p. 12).

      Com tantos hífenes mais à frente, esqueceu-se de usar um onde devia: bloco-notas. O que é curioso é que a palavra, que eu conheço desde sempre, não está registada nos dicionários. Nem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa o registam. Em nenhum, enfim.

      «Escreve muito rapidamente, com o pequeno bloco-notas apoiado na mão que tem o chapéu. Entre cada frase, olha a actriz que responde, e o olha, e responde, e o olha. As perguntas são breves, e sorriem, as respostas são breves, e riem» (A Guerra da Meseta, Artur Portela. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009, p. 80).

 

  [Texto 1947]

Helder Guégués às 08:10 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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