23
Ago 12

«Paroquiano/diocesano»

Mais modestamente

 

 

      «O bispo de Viseu alerta os paroquianos da diocese para a inauguração de dois crematórios na região e para as regras da Igreja sobre este costume funerário. Ilídio Leandro sossega os fiéis ao lembrar que a Igreja Católica não proíbe esta prática, mas lembra que coloca alguns impedimentos ao culto do morto após a cremação» («Bispo acalma fiéis quanto à cremação», Helder Robalo, Diário de Notícias, 20.08.2012, p. 16).

      «Paroquianos da diocese»... Mas não temos o termo «diocesano»? Mas ele há coisas estranhas. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora afirma que diocesano é o «súbdito de uma diocese». Súbdito... Já paroquiano é, mais modestamente, para o mesmo dicionário, «que ou aquele que é habitante de uma paróquia».

 

[Texto 1992]

Helder Guégués às 22:28 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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O desgraçadíssimo verbo «haver»

Fala uma médica

 

 

      Fala Ana França, directora clínica do Hospital Garcia de Orta, em declarações datadas de Março deste ano relembradas no Telejornal na passada segunda-feira: «Lamento sobretudo que desta situação tenham havido tantas complicações que podem ser inerentes à própria doente, mas que teve um factor desencadeante que não era da doente.»

 

[Texto 1991]

Helder Guégués às 20:08 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «triquíni»

Quem diria

 

 

      «Em pleno verão, a socialite mostra que tem a sensualidade à flor da pele. A namorada de Kanye West posou para a câmara num exuberante triquíni que realça o seu bronzeado» («Kim Kardashian sensual de triquíni dourado», Diário de Notícias, 23.08.2012, p. 53).

      Não é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o termo?! «Vestuário feminino usado na praia ou na piscina, composto por duas peças (sutiã e slip) que estão unidas entre si por uma parte do conjunto».

 

[Texto 1990]

Helder Guégués às 18:00 | comentar | favorito
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«Tribunal da magistratura»?

Como é?...

 

 

      Ora vejam esta: «O assassino do ex-líder da extrema-direita branca Eugène Terre’Blanche foi ontem condenado a prisão perpétua no tribunal da magistratura de Ventersdorp, Noroeste da África do Sul. Chris Mahlangu, que em 2010 matou Terre’Blanche na sua residência, nos arredores de Ventersdorp, com uma barra de ferro, trabalhava na fazenda da vítima e confessou o crime, que justificou com a falta de pagamento de salários e agressões sexuais» («Perpétua por morte de Blanche», Diário de Notícias, 23.08.2012, p. 26).

      «Tribunal da magistratura»? Sim, o Diário de Notícias não é o único jornal a traduzir desta forma, porque é disso que se trata, a denominação de língua inglesa, que é Circuit Court of the North West.

 

[Texto 1989] 

Helder Guégués às 17:28 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Infinitivo

Mas relendo...

 

 

      «Avô e neta, que morreram durante um passeio pelo areal da praia do Salgado, na Nazaré, chamavam-se Lara Lewis e Brian O’Dwyer, de 5 e 66 anos, respetivamente, segundo o jornal The Guardian. Na página da Internet do Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico, os turistas ingleses são avisados para terem cuidado nas praias portuguesas e obedecer aos avisos dos nadadores-salvadores» («Londres diz aos turistas para terem cuidado», Joana de Belém, Diário de Notícias, 23.08.2012, p. 19).

      «São avisados para terem cuidado nas praias portuguesas e obedecer aos avisos»...

 

  [Texto 1988]

Helder Guégués às 17:14 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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«Marés vivas»

É adivinhar

 

 

      Tenho estado de férias e não sei, mas pergunto a mim próprio: terá algum meio de comunicação social explicado o que são marés vivas? Duvido. «As marés vivas assinaladas um pouco por todo o País, após a passagem do furacão Gordon pelos Açores, serão usuais para esta altura do ano, na opinião dos especialistas» («Agitação marítima vista como “normal” nesta época do ano», Joana de Belém, Diário de Notícias, 23.08.2012, p. 19). As marés vivas — custava assim tanto explicar ao menos uma vez? — são as que se apresentam quando a Lua e o Sol estão em conjunção ou em oposição e trabalham ambos para levantar marés coincidentes. Mais explicações deviam ser pedidas aos tais especialistas.

 

  [Texto 1987]

Helder Guégués às 17:05 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Casa-de-banho»?

E quanto a revisão...

 

 

      Uma ortografia própria: «A explosão ocorrida em Castro Marim não tem ainda causas determinadas mas pode ter-se verificado por acumulação de gases numa divisão da casa, um quarto com casa-de-banho» («Explosão ainda por explicar mata dentista e dois filhos», José Manuel Oliveira, Diário de Notícias, 23.08.2012, p. 18).

      Nem pensar: não era assim antes, não é agora assim e praza a Deus que nunca venha a ser assim. Já chegam as outras esquisitices da ortografia.

 

  [Texto 1986]

Helder Guégués às 15:48 | comentar | favorito
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Como se escreve nos jornais

Para o anedotário

 

 

      «O cadáver da dentista Luciana Garcia, já muito debilitado, como explicaram ao DN, foi encontrado “próximo da porta do quarto”, o que para os bombeiros indicia que a mãe das crianças ainda terá “tentado abri-la” após a explosão, para todos conseguirem fugir» («Explosão ainda por explicar mata dentista e dois filhos», José Manuel Oliveira, Diário de Notícias, 23.08.2012, p. 18).

      Será que há cadáveres cheios de vigor e saúde? Será que os jornalistas não podem dedicar cinco minutos a reler o que escrevem?

 

  [Texto 1985]

Helder Guégués às 15:35 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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23
Ago 12

«Accommodation» e «facility»

Turismo e língua

 

 

      «Gostaria de saber a sua opinião», pergunta-me o leitor P. R., «sobre a tradução de accommodation por “acomodação” e facilities por “facilidades” ou “comodidades”. Por um lado, estou farto de ver “equipas de tradutores” como a do Booking.com (não, aquilo não é feito por tradutores automáticos, por incrível que pareça), a assassinar a língua portuguesa. Por outro, falta-me o espaço e a veia humorística que o Helder possui para reflectir adequadamente sobre o assunto.»

      Em relação a accommodation, Agenor Soares dos Santos escreveu: «Notar as diferenças entre este s. e “acomodação”, pois esta, assim como “comodidades”, em alguns casos não traduz inteiramente o cognato ing.» Com efeito, o termo inglês refere-se, simultaneamente, ao alojamento, à comida e a outros serviços em hotel ou estabelecimento semelhante («lodging, food, and services or traveling space and related services», lê-se no Merriam-Webster). Talvez não seja a pior tradução, ao contrário de «facilidades» por facilities. Demasiado fácil. Ainda assim, abstruso é, creio, traduzir, no mesmo texto, accommodation por «acomodação» e facilities por «comodidades». Se se não encontra correspondência num só termo, decerto que o recurso a uma expressão é sempre possível.

 

  [Texto 1984] 

Helder Guégués às 00:32 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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