03
Set 12

Tradução: «pallbearer»

Em desuso, mas temos

 

 

      Lembram-se de, no Assim Mesmo, ter lamentado que, para traduzir pallbearer, só tivéssemos uma palavra já caída em desuso, «corpoferário»? Eis que um leitor me diz ter encontrado outra: farricoco (ou farricouco ou ferricoco). Na definição do Aulete, é o «carregador de ataúdes nos enterros». Talvez seja uma simplificação ou extensão, porque, originalmente, era o que levava a tumba da Misericórdia em que iam os cadáveres dos pobres. Iam? Vão. Depois de Francisco Esperança, o assassino da mulher, da filha e da neta, se ter suicidado, o cadáver ficou por reclamar durante semanas no Instituto Nacional de Medicina Legal, e já se ponderava que fosse a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa a pagar o funeral, até que apareceu um anónimo que arcou com a despesa.

 

[Texto 2045]

Helder Guégués às 18:59 | comentar | ver comentários (10) | favorito
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«Concílio de Constantinopla II»

Porque sim

 

 

      Se quase ninguém escreve «Concílio de Vaticano II», porque é que só se escreve «Concílio de Constantinopla II»? Porque se omite num caso a preposição e não no outro? Tradição?

 

[Texto 2044]

Helder Guégués às 18:27 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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Um Renault 4L, dois...

Se é no plural...

 

 

      «A Avenida Europa, em Viseu, serviu de ponto de encontro a cerca de 60 Renault 4L que desfilaram pelas ruas da cidade rumo à Quinta da Corga e ao vizinho concelho de Penalva do Castelo» («Décimo encontro de 4L junta 60 carros», Cristina Marques, Jornal de Notícias, 3.09.2012, p. 19).

      «Foi o rebuliço dos grandes dias de festas nacionais. Foi o esgotar de tudo nos restaurantes e nos cafés. Foi a reforma da Reforma Agrária. Foi o anticomunismo. Foram os Fiats 600, os Renaults 4L, e os grandes Mercedes e “bocas de sapo”» (Os Cravos na Ferradura: crónicas publicadas em O Comércio do Porto, Fernando Barradas e Ercílio de Azevedo. Lisboa: Intervenção, 1976, p. 167).

 

[Texto 2043]

Helder Guégués às 18:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se escreve nos jornais

De fato e gravata

 

 

      «Os astrónomos recordam que para o telescópio Kepler “é virtualmente impossível distinguir entre estes três casos, pois uma anã castanha, por exemplo, pode ter o mesmo tamanho que Júpiter (mas é cerca de 20 vezes mais massiva)”. Na amostra, 65% dos objetos eram de fato planetas, sendo 20% sistemas múltiplos, 11% binários de eclipse e 4% anãs castanhas» («Um terço das descobertas do ‘Kepler’ são estrelas», Helder Robalo, Diário de Notícias, 3.09.2012, p. 30).

      Virtualmente impossível, de fato... Não vou escavar mais neste artigo. Vou, isso sim, tomar o pequeno-almoço, que está na hora.

 

[Texto 2042]

Helder Guégués às 08:39 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Como se escreve nos jornais

Mais colocações esquisitas

 

 

      «Arianna Huffington sobreavaliou o poder da sua marca e sobrestimou a disponibilidade dos leitores de publicações digitais para pagarem por elas e teve de recuar na estratégia de colocar um preço na revista que lançou para consumo exclusivo em iPad, em meados de junho» («‘Huffington Post’ deixa de cobrar revista para iPad», Fernanda Mira, Diário de Notícias, 3.09.2012, p. 51).

      «“Ele pretendia a reconciliação”, diz uma amiga. Havia também uma desavença por partilhas, em que ela queria ficar com bens ou colocá-los em nome da filha de ambos, a estudar no estrangeiro» («Arma com que matou mulher também serviu para se suicidar», José Manuel Oliveira, Diário de Notícias, 3.09.2012, p. 20)

 

[Texto 2041]

Helder Guégués às 08:33 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Plural: «Jupíteres»

Não tão simples

 

 

      «Segundo os dados agora revelados pela equipa de cientistas, foi possível detetar uma variedade de objetos entre a amostra utilizada. Entre os quais planetas como “Jupiteres quentes” e anãs castanhas, bem como sistemas binários e triplos de estrelas» («Um terço das descobertas do ‘Kepler’ são estrelas», Helder Robalo, Diário de Notícias, 3.09.2012, p. 30).

      Podia ser assim — mas não é, está errado. Ao pluralizar, há deslocação do acento tónico, não eliminação do acento tónico: Jupíteres. E outra coisa: a par de «sistemas binários» não devia estar «sistemas ternários»?

 

[Texto 2040]

Helder Guégués às 08:27 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Como se escreve nos jornais

E se lessem o que escrevem?

 

 

      «Uma equipa de cientistas europeus, entre os quais se encontra o portuense Nuno Cardoso Santos, defende que cerca de 35% dos candidatos a planetas gigantes são, na verdade, estrelas. A equipa, liderada por investigadores do Laboratório de Astrofísica de Marselha (LAM), usou o espetrógrafo Sophie3, instalado no Observatório da Alta Provença (França), para observar uma amostra aleatória de candidatos a planetas previamente detetados pelo satélite Kepler (NASA). [...] Alexandre Santerne, do laboratório francês, salienta que o estetógrafo Sophie “é um dos instrumentos mais prolíficos do mundo, na medição de velocidades radiais de estrelas”» («Um terço das descobertas do ‘Kepler’ são estrelas», Helder Robalo, Diário de Notícias, 3.09.2012, p. 30).

      O que é que um aparelho usado para registar os movimentos do tórax está aqui a fazer? Bem, os leitores são inteligentes e percebem tudo. É outra forma de jornalismo colaborativo, não é assim?

 

[Texto 2039] 

Helder Guégués às 08:02 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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03
Set 12

Léxico: «alpetriniense»

Mais um esquecido

 

 

      «A vila de Alpedrinha assistiu ontem a um momento que considera “um ato de justiça” que demorou 157 anos a cumprir-se. A imagem de São Jorge, padroeiro da vila entre 1675 e 1855, foi devolvida pelo município do Fundão aos alpetrinienses, depois de mais de um século longe dos olhares do público» («São Jorge regressa a cavalo a Alpedrinha», C. D., Diário de Notícias, 3.09.2012, p. 24).

      Parece que todos os dicionários se esqueceram de registar este gentílico. Alguns ainda estão a tempo de o registar.

 

[Texto 2038]

Helder Guégués às 06:52 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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