28
Set 12

Tradução: «tiglon»

Sempre a aprender

 

 

      Hoje descobri o tigreão, e não foi no Discovery. Nem podia, pois deixei mesmo de ver televisão, excepto no iPad. Foi na poesia de Dylan Thomas: «I see the tigron [sic] in tears/In the androgynous dark». É um híbrido, resultado do cruzamento de um tigre com uma leoa. Dylan Thomas não o diz, mas também há o ligre (liger em inglês), que é resultado do cruzamento de um leão com um tigre fêmeo. Para os dicionários, isto deve ser do domínio da teratologia, pois nenhum os regista.

 

 

[Texto 2153]

Helder Guégués às 19:14 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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«Paparazzo/paparazzi»

La Dolce Vita

 

 

      «A Villa Certosa, propriedade do antigo chefe do Governo italiano Silvio Berlusconi, foi posta à venda por um preço entre os 450 e os 470 milhões de euros. Situado na ilha italiana da Sardenha, o espaço acolhia as famosas festas “bunga-bunga”, que se tornaram em mais um escândalo envolvendo o ex-primeiro-ministro, quando, em 2009, um paparazzi fotografou várias jovens despidas na sua propriedade» («Berlusconi quer vender ‘villa’ das festas», Diário de Notícias, 28.09.2012, p. 27).

      Pois é, mas o singular de paparazzi é paparazzo. E a propósito, aqui, um leitor perguntou-me: «Não era melhor traduzir ao pé da letra? “Papa-astro”?» Contudo, paparazzo é aquele que engole raio, e razzo (raio, relâmpago) é uma alusão ao flash da máquina fotográfica.

 

[Texto 2152]

Helder Guégués às 09:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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28
Set 12

Léxico: «majoritariamente»

Do outro lado do Atlântico

 

 

      «No século XI, um artista religioso da Mongólia esculpiu o deus budista Vaisravana numa pequena rocha compacta, majoritariamente feita de ferro. Em 1939, uma expedição arqueológica patrocinada pelo regime nazi encontrou a estatueta e levou-a para a Alemanha, onde desapareceu numa coleção particular, em Munique» («O Buda que veio do espaço», Diário de Notícias, 28.09.2012, p. 30).

      Os termos majoritário e majoritariamente, que têm étimos franceses, são quase exclusivamente usados no âmbito da economia e da política e mais da preferência dos Brasileiros.

 

[Texto 2151]

Helder Guégués às 09:22 | comentar | favorito
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27
Set 12

Léxico: «aforquilhar»

Raramente se vê

 

 

      «The seed that makes a forest of the loin/Forks half its fruit; and half drops down,/Slow in a sleeping wind» (Dylan Thomas). «Aforquilha metade do seu fruto», traduziu alguém, que um dia se saberá. Aforquilhar, que Morais registou, é dar forma de forquilha a e segurar com forquilha. Um dos exemplos da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira é aforquilhar um andor, que significa segurá-lo com as forquilhas, enquanto o préstito está parado.

      «Em conclusão: O mesmo Satanás que, através de comissários, arruinou a saúde do Zé Rato, foi o que aforquilhou o ânimo dos inimigos do Estêvão VI na via do estrangulamento do Santo Padre, a fim de (patranhava o Malino) ficar aplacada a ira de Deus, indubitavelmente, manifestada no desmoronamento do telhado do paço pontifical» (Histórias para Boi Dormir, Valério Bexiga. Olhão: Gente Singular, 2008, p. 123).

 

[Texto 2150]

Helder Guégués às 21:42 | comentar | favorito
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«À-vontade/à vontade»

Sem revisão, não surpreende

 

 

      «Não podia ter começado melhor o regresso de Marta Crawford à televisão portuguesa. A estreia de 100 Tabus confirma tudo o que já sabíamos da sexóloga, que chegou ao pequeno ecrã em 2005: clarividência na explicação, naturalidade na abordagem dos temas, à vontade perante as câmaras e telegenia natural. Convenhamos que, todos juntos, são atributos que não estão à mercê da esmagadora maioria dos comunicadores portugueses» («A rapidinha perfeita», Nuno Azinheira, Diário de Notícias, 27.09.2012, p. 52).

      Mais um que não sabe. Neste caso, é à-vontade, substantivo, e não locução adverbial, à vontade. E eu não utilizaria, neste contexto, a locução à mercê de, mas antes à disposição de.

 

[Texto 2149] 

Helder Guégués às 09:07 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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27
Set 12

Desgraçadíssimo verbo «haver»

TPA, RTP

 

 

      Isabel dos Santos, filha do presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, foi entrevistada em Agosto no canal angolano TPA — o que foi notícia agora na televisão pública portuguesa... «E recordou momentos marcantes: “Ele [José Eduardo dos Santos] levou-me à escola, deixou-me na escola, e eu tive que esperar até ele me vir buscar. Portanto, isso é um momento marcante. Como esse, houveram outros...”» Formada em Engenharia, a mulher mais rica de África... todos temos fraquezas.

      A única peculiaridade do verbo haver no sentido de existir é a sua impessoalidade, nada mais.

 

[Texto 2148]

Helder Guégués às 09:01 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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26
Set 12

Prefixo «anti-»

Há sete anos a dizer o mesmo

 

 

      «O ‘Cerco ao Congresso’ – que concentrou os participantes de manifestações anti-austeridade partidos de vários pontos da cidade – estava marcado para as 18.00 (17.00 em Lisboa), mas a essa hora ainda eram poucas as pessoas que se concentravam na praça de Neptuno, levando a crer que a manifestação poderia decorrer pacificamente» («‘Cerco ao Congresso’ provoca caos em Madrid», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 26.09.2012, p. 23).

      Este erro não é cíclico: é continuado, permanente. Estatui o Acordo Ortográfico de 1990 que não se emprega o hífen «nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por vogal diferente, prática esta em geral já adotada também para os termos técnicos e científicos». Logo, antiausteridade.

 

[Texto 2147]

Helder Guégués às 13:59 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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26
Set 12

«Pontos percentuais/percentagem»

Porque é cíclico

 

 

      «A queda de François Hollande é histórica. Em quase 50 anos, poucos presidentes conseguiram desagradar tanto aos franceses nos primeiros quatro meses de mandato como o atual chefe do Eliseu. Entre agosto e setembro, o Presidente socialista caiu onze pontos percentuais nas sondagens: em agosto, 54% dos franceses diziam-se satisfeitos com o trabalho de Hollande, mas durante este mês a percentagem caiu para 43%» («Popularidade de Hollande cai a pique em 4 meses», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 24.09.2012, p. 23).

      Se houve melhorias nos meios de comunicação, e em especial nos jornais, esta foi uma delas: a compreensão de que ponto percentual e percentagem são conceitos relacionados, sim, mas diferentes. A diferença entre percentagens, que é um valor absoluto, expressa-se por meio desta unidade, ponto percentual. Se se dissesse que o apoio a François Hollande tinha baixado 11 %, tal significava que tinha descido, se o valor fosse o mesmo, de 54 % para 48,06 % (54 – 11 % = 5,94; 54 – 5,94 = 48,06). Se melhorou, porque estou a perder tempo a dizê-lo? Porque quase todos os erros são cíclicos. Daqui a uns anos, se não formos alertando, vê-lo-emos de novo campeando por aí.

 

[Texto 2146] 

Helder Guégués às 13:23 | comentar | favorito
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