29
Out 12

«Pôr em marcha»

Saramago foi o último

 


      Pôr é para esquecer. Pelo menos nos próximos anos. «Colocar em marcha o novo mapa judiciário, que reduz para 23 as atuais 231 comarcas, vai custar cerca de 29 milhões de euros. A reforma da organização judiciária em curso, que deverá entrar em vigor ainda durante 2013, implica obras de adaptação em vários edifícios» («Novo mapa judiciário vai custar 29 milhões», Licínio Lima, Diário de Notícias, 29.10.2012, p. 18).

      «Quero-os aqui em três quartos de hora, às dez em ponto, disse, teremos de discutir, aprovar e pôr em marcha os paliativos necessários para minorar as confusões e balbúrdias de toda a espécie que a nova situação inevitavelmente criará nos próximos dias» (As Intermitências da Morte, José Saramago. Lisboa: Bis/Leya, 2011, 4.ª ed., p. 114).

 

[Texto 2261] 

Helder Guégués às 17:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Out 12

«Influir em»

Ainda se vê

 

 

      «Influir em (e não sôbre). — Não raro sucede que uma forte asneira francesa vem substituir a lógica mais perfeita da nossa língua, e êste é o caso, por exemplo, de influir sôbre. Influir, do latim in-fluere, significa, literal e etimològicamente, fazer fluir ou correr para dentro, como quando se deita qualquer líquido dentro de uma vasilha. Se é para dentro, ¿a que vem o sôbre? Tudo o que influi, influe em, como bem mostra o prefixo latino.

      Portanto; o clima influe na saúde e é visível a influência de Fulano em Beltrano» (Glossário de Incertezas, Novidades,  Curiosidades da Língua Portuguesa, e também de Atrocidades da Nossa Escrita Actual, Agostinho de Campos. Lisboa: Livraria Bertrand, 1938, p. 161).

 

[Texto 2260]

Helder Guégués às 17:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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28
Out 12

Verbo «intervir»

Até nisto erram

 

 

      «O Governo alemão já interviu nesta matéria e aprovou um projeto de lei que obriga o Google, bem como outros agregadores de notícias, a pagar uma taxa por indexar conteúdos de sites de informação profissionais alemães. A proposta, que aguarda aprovação parlamentar, visa garantir que os media recebam parte do lucro gerado pelo gigante norte-americano em publicidade» («Governo quer que o lucro seja repartido», Diário de Notícias, 28.10.2012, p. 43).

      Já o escrevi uma vez, mas volto a escrevê-lo: na oralidade, e proferido por um analfabeto, admito; um jornalista não tem qualquer desculpa para conjugar desta forma o verbo «intervir».

 

[Texto 2259]

Helder Guégués às 15:52 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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28
Out 12

Acordo Ortográfico revisto

Já que falamos nisso

 

 

      «O meu trabalho consiste, em suma, na revisão de traduções do Inglês para o Português de manuais de instruções e interfaces do utilizador de equipamento médico. [...] O que me chega às mãos está 90% das vezes muito longe do nível de qualidade que seria de esperar para qualquer tradução, quanto mais para traduções nesta área. Os exemplos são infindáveis, mas escolhi um que servirá para demonstrar aquilo de que falo. Na tradução do manual de um ventilador, feita por um tradutor brasileiro, lê-se:

     “Usar o ventilador de maneira diferente como foi instruída pode causar danos ao digitalizar de RM.”

      Uma tradução correcta do original em Inglês poderia ser assim:

      “A utilização do ventilador de maneira diferente da que foi indicada nas instruções, pode causar danos ao aparelho de RM (ressonância magnética).”» («O Acordo Ortográfico e a tradução para português», Paula Blank, Público, 28.10.2012, p. 56).

      Tudo verdades: a sintaxe e parte do léxico do Brasil são estranhas para nós. Contudo, nunca se diz isto demasiadas vezes, um acordo ortográfico não serve para eliminar essas diferenças. Aliás, com este acordo, nem sequer o que seria de esperar que fosse uniformizado o foi. E já que o texto começa por falar em revisão, impõe-se dizer que também ele precisa de revisão: o «nível» podia aspar-se à vontade: «muito longe da qualidade que seria de esperar». Também não estou a ver porque hão-de os termos «inglês» e «português» ser grafados com maiúscula inicial. E a vírgula depois de «instruções» é uma intrusa assassina. Não devia estar lá.

 

[Texto 2258]

Helder Guégués às 11:16 | comentar | ver comentários (13) | favorito
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27
Out 12

«Produto-bandeira»

Esta não sugiro a ninguém

 

 

      «O duplo lançamento deixou a audiência de boca aberta, porque é inédito a Apple renovar um produto-bandeira em apenas sete meses. O iPad 4.ª geração custa o mesmo que o anterior (509 euros em Portugal, 499 dólares nos EUA) e vai funcionar em mais redes 4G. No entanto, continua a não ser compatível com as frequências usadas em Portugal» («Apple surpreende mercado com iPad 4 e iPad mini em novembro», Ana Rita Guerra, Diário de Notícias, 24.10.2012, p. 28).

 

[Texto 2257]

Helder Guégués às 12:14 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Sobre «pork»

Vamos lá

 

 

      «Há nos EUA uma expressão muito usada na política: pork. Este pork, ou seja, carne de porco, refere situações em que se desperdiça o dinheiro público para benefício de clientelas. Em Portugal não temos palavras assim, tão despachadas e carregadas de ironia, para designar ocorrências típicas da política» («Leite com chocolate», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 26.10.2012, p. 9).

      Somos uns pobretanas, não temos nada. O melhor é renunciarmos a esta língua, também ela paupérrima. Temos sempre o inglês, em que há muitos especialistas em Portugal.

 

[Texto 2256]

Helder Guégués às 12:13 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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Sobre «smartshop»

As lojas espertas

 

 

      Nos últimos tempos, tenho ouvido muito, na rádio e na televisão, a palavra «smartshop». «Um rapaz de 17 anos e uma rapariga de 15 foram assistidos, no espaço de 48 horas, no Hospital de Évora, depois de terem, alegadamente, fumado um produto comprado numa “smartshop”. [...] Segundo o comandante distrital da PSP, o rapaz terá fumado um produto designado Cm21, que é vendido como incenso. “A rotulagem diz que não é para consumo humano”, realçou o responsável» («Intoxicação com produtos de ‘smart shop’», Diário de Notícias, 27.10.2012, p. 17).

      A loja é esperta, os clientes é que nem todos. E lá porque se pode escrever smart shop e smartshop, não me parece muito atilado escrever das duas formas no mesmo artigo.

 

[Texto 2255]

Helder Guégués às 11:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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27
Out 12

Tradução: «mantelpiece»

Não vale a pena inventar

 

 

      E depois devia ainda levar «two ancient French silver candlesticks from the mantelpiece». «Do rebordo da chaminé do fogão», verteu o tradutor. Já vimos várias vezes, no Assim Mesmo, que «lintel (ou cornija) da lareira» é a melhor tradução.

 

[Texto 2254]

Helder Guégués às 11:04 | comentar | ver comentários (12) | favorito
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