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Linguagista

Tradução: «knickerbockers»

Não desta vez

 

 

      Então se até o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora dá como tradução de  knickerbockers «calças à golfe» (que faz anteceder do labéu de «antiquado»...), o tradutor deixa no original? Não pode ser. «E já muda o turno, agora é um rapaz alto, de aspecto amável, calças à golfe, cabelos loiros de caracol à Tintin. O homem sorri-se, lembra-se de Óscar com seis anos ao seu colo, a ouvi-lo ler a história de Les Bijoux de la Castafiore» (Não Te Esqueças de Mim: O Pó das Palavras Mortas, Nuno de Figueiredo. Lisboa: Escritor, 2000, p. 173).

 

[Texto 2284]

Tradução: «doily»

Com paninhos

 

 

      Fico sempre perplexo quando alguém traduz do inglês — com termos de outra língua que não a portuguesa. Desta vez, a palavra era doily ­— paninho ornamental, segundo o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora. O tradutor quis que fosse napperon. Mas até o temos aportuguesado, naperon. E é assim que ele aparece abundantemente na obra de António Lobo Antunes, talvez o autor que mais a usa.

 

[Texto 2283]

«Golpe de magia/passe de magia»

Não vá o Diabo tecê-las

 

 

      «Como explicar, senão por um golpe de magia, esse estranho fenómeno colectivo que varreu rotinas, sacudiu torpores, quebrou tabus e nos levou, como que tocados pela graça, ao autoconvencimento de que íamos fazer História?» (Arte de Marear, Manuel Alegre. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002, 2.ª ed., p. 116).

      Isto não cheira logo, mesmo ao longe, a galicismo? Ora golpe, coup... Prefiro «passe de magia»: «Por um verdadeiro passe de magia, o autor, desprezando a coerência da unidade espacial, faz coincidir a localização dos dois centros de acção» (Vida e Obra de Raul Brandão, Guilherme Castilho. Lisboa: INCM, 2006, p. 278). Claro que, se o autor, ou alguém por ele, decide que «golpe de magia» (e, para maior francesia, «golpe de mágica» ainda era melhor: coup de magique) é que é, nada podemos fazer.

 

[Texto 2282]

 

Léxico: «lamieiro»

Isto não tem fim

 

 

      O que o homem disse, e a mulher repetiu, é que ano sim, ano não corta os lamieiros lá no terreno e os usa como estacas para o feijão. Que são plantas altas, fortes, com folha viçosa semelhante à da laranjeira. Alguém conhece o termo nesta acepção? Para todos os dicionários e enciclopédias que consultei, é apenas outro nome para o pisco-azul. Será regionalismo?

 

[Texto 2281]

Léxico: «biotítico»

Mas devia

 

 

      «No Geoparque Arouca é possível assistir a um fenómeno que, até hoje, é considerado único no mundo. Junto à aldeia da Castanheira, num afloramento de granito com cerca de um quilómetro de extensão, discos de pedra (chamam-se nódulos biotíticos) soltam-se de rochas de granito, como se delas nascessem. São as pedras parideiras» («Pedras parideiras ganham ‘maternidade’», Helder Robalo, Diário de Notícias, 3.11.2012, p. 27).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora também não regista este adjectivo: relativo à biotita (ou biotite) ou que contém este mineral.

 

[Texto 2280]

Léxico: «canhotismo»

Sinistro

 

 

      Sim, «paladar» também tem essa acepção de parte superior da cavidade bucal. Veja-se o Salmo 137: «Pegue-se-me a língua ao paladar,/ se eu não me lembrar de ti,/ se não fizer de Jerusalém/ a minha suprema alegria!» É também este salmo que se refere, ao que parece, ao canhotismo — mas esperem: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista «canhotismo». Se até regista «mancinismo» e «sinistrismo»...

 

[Texto 2279]

Léxico: «hostal»

Boa alternativa

 

 

      «Na Baixa de Lisboa, o Lisbon Story Guesthouse recebe hóspedes de todo o mundo. Mas estes, para além das suas histórias, deixam solidariedade para os sem-abrigo da cidade. A ideia, inédita, partiu de Bruno Ferreira, o seu proprietário e gerente, que dia após dia, via os sem-abrigo nas imediações do seu hostal» («Hóspedes entregam pão e roupa para sem-abrigo», Joaquim Cardoso e Marina Almeida, Diário de Notícias, 1.11.2012, p. 16).

      Ora muito bem: em vez de um termo estrangeiro, um termo português antigo. Curiosamente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que regista «estau», não acolhe nem «hostal» nem «hostau».

 

[Texto 2278]

Léxico: «congeneridade»

Mas existe

 

 

      E a propósito de «congénere». Sabiam que os dicionários registam o vocábulo «congeneridade»? Nunca a viram antes? Ei-la: «Uma escolha paradoxal, pois Salazar não nega só a congeneridade dos regimes estadonovista e mussoliniano, mas faz todo um rol de afirmações as quais, no seu conjunto, não abonam em absoluto o fascismo italiano» (Portugal e Itália: Relações Diplomáticas (1943-1974), Vera de Matos. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2010, p. 16). De «estado-novista» falámos aqui.

 

[Texto 2276]

Sobre «aspirina»

Uma dor de cabeça

 

 

      «Os doentes de cancro colorretal que são portadores de uma mutação específica num gene chamado PIK3CA podem sobreviver mais tempo quando tomam também uma simples Aspirina. Essa é, pelo menos, a conclusão de um estudo de médicos e investigadores norte-americanos, que foi publicada ontem na revista New England Journal of Medicine» («‘Aspirina’ prolonga a vida em certos cancros colorretais», Diário de Notícias, 26.10.2012, p. 27).

      Será necessário o itálico e a maiúscula inicial? É marca? Mas também é a designação comercial do ácido acetilsalicílico.



[Texto 2275]