09
Nov 12

«A partir de»

Economia e elegância

 

 

      «Tudo começou num beijo e não devia passar daí», escreveu Nelson Rodrigues em Meu Destino É Pecar (Rio de Janeiro: Editora Agir, 2007, p. 162). Podemos então corrigir esta frase: «Discute-se como tudo pode ter começado a partir de um sonho.» Mais breve e incisivo: «Discute-se como tudo pode ter começado num sonho.»

 

[Texto 2305]

Helder Guégués às 17:42 | comentar | ver comentários (11) | favorito
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Tradução: «teacher’s gear»

Parece-me que sim

 

 

      Na última LER, Maria Filomena Mónica revela que está a escrever dois livros em simultâneo, e diz: «Durante uns anos despirei a minha farda de historiadora e vestirei a de socióloga» (p. 74). Em sentido figurado, pois claro. E aqui? «You were still in your teacher’s gear but your jacket was off and enough buttons were open on your blouse to show me the black bra I bought you and the freckles on your chest.» E esta expressão, despir a farda, não devia estar dicionarizada? Só para o caso...

 

[Texto 2304]

Helder Guégués às 16:07 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Sobre «contraciclo»

Para pensar

 

 

       «Ninguém perguntou a Jonet a que estrutura se referia, e foi pena. Porque, quiçá inconscientemente, Jonet está a reconhecer o papel das políticas sociais que lograram reduzir não só a taxa de pobreza como, até, recentemente, diminuir a desigualdade – a contra-ciclo do que se passou com a generalidade dos países europeus. O efeito combinado de uma série de medidas – do subsídio de desemprego ao RSI, passando pelo Complemento Solidário para Idosos – logrou essa proeza» («Obrigada, Isabel Jonet», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 9.11.2012, p. 7).

      Não está em muitos dicionários, mas é usado com alguma frequência, sobretudo em contextos económicos. Em nenhum estará, de certeza, com hífen. Provavelmente, começou por se escrever a contra ciclo. Ora, ouve-se e vê-se mais a expressão com a preposição «em». Mas não se diz, por exemplo, «a contrapelo»?

      «Acrescentavam tratar-se de empresas, que não eram multinacionais mas, repetiam, familiares e algumas com longa tradição, e que asseguram cerca de dois terços dos empregos no sector privado europeu e uma grande estabilidade de detenção do capital, muitas vezes funcionando positivamente em contraciclo» (Alfreda ou a Quimera, Vasco Graça Moura. Lisboa: Bertrand, 2008, p. 60).

 

[Texto 2303]

Helder Guégués às 14:57 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Verbo «assistir»

É a evolução, estúpido

 

 

      «Portugal voltou a acordar, ontem de manhã, com mais uma agressão num reality show da TVI. Ao fim de 54 dias encerrado na Casa dos Segredos, o concorrente Wilson agrediu o companheiro Hélio, acabando expulso do programa. Uma história que os espectadores assistem pela terceira vez desde 2000: primeiro foi Marco Borges, que, no Big Brother, pontapeou Sónia; depois foi Vítor, que, levado pelo ciúme, agrediu Ana Isabel, concorrente e sua própria namorada, na primeira edição de Casa dos Segredos» («Estar no limite e frustração conduzem à agressividade», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 9.11.2012, p. 50).

      No Brasil, o último autor a afirmar que o verbo assistir, com o sentido de «presenciar, ver», é transitivo indirecto terá sido Napoleão Mendes de Almeida. Desde então, até parece que todos os autores, brasileiros e portugueses, estão a fazer um favor quando afirmam que é transitivo indirecto e directo. Adeus, ortodoxia gramatical.

 

[Texto 2302]

Helder Guégués às 14:48 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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09
Nov 12

Léxico: «dopaminérgico»

Da fisiologia

 

 

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o termo «dopamina», que é o «mediador químico sintetizado por certas células nervosas, presente nos sistemas nervoso [sic] central e periférico, e cuja acção é semelhante à da noradrenalina». (Não são dois sistemas nervosos?) Esperava-se que acolhesse igualmente o adjectivo «dopaminérgico». Mas esperem lá: a definição não é completamente obscura para o leigo que consulta o dicionário? Alguém, um médico, escreveu para toda a gente perceber: «A dopamina é uma substância química que serve para fazer a passagem de informação entre neurónios responsáveis por muitas funções importantes do cérebro humano.»

 

[Texto 2301]

Helder Guégués às 00:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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