19
Nov 12

PIDE, pide, Formiga Branca, formiga branca

Ou não?

 

 

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista Formiga Branca — «sociedade secreta de revolucionários civis que surgiu em Portugal pouco depois de proclamada a república». Era uma milícia, criada pelo governador civil de Lisboa Daniel José Rodrigues, constituída por antigos carbonários, ao serviço do Partido Democrático. Assim, ainda é mais estranho que este dicionário, e não é a primeira vez que o afirmo, não acolha os termos PIDE e pide. E, na mesma lógica, o nome comum formiga branca.

      «Entretanto, a minha tia tem vindo ver-me e também ela, apesar da presença de um pide a seu lado, conseguiu aludir ao clamor da solidariedade comigo no estrangeiro» (Assim Se Esvai a Vida, Urbano Tavares Rodrigues. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 40).

      «— Foste um valente. Atiravas-te a eles com uma gana... Os formigas-brancas sempre apanharam um arrepio! Ouve lá!» (Os Reinegros, Alves Redol. Lisboa: Publicações Europa-América, 1986, p. 283).


[Texto 2348]

Helder Guégués às 18:22 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Sobre «regalismo»

Uma pergunta

 

 

      Na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, regalismo é o «sistema político dos que defendem os direitos do Estado nas suas relações com a Igreja». A definição não é pouco precisa? Não será antes o sistema dos que defendem a supremacia do poder civil sobre o poder eclesiástico?

 

[Texto 2347]

Helder Guégués às 16:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «marginália»

Bagatelas

 

 

      Pode impressionar mais em latim, pois claro, mas a verdade é que a palavra está aportuguesada — marginália, «conjunto de anotações na margem de um livro, caderno, manuscrito, etc.» (na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora).

 

[Texto 2346]

Helder Guégués às 12:35 | comentar | favorito
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Léxico: «pertússis»

Seria mais uma

 

 

      Ultimamente, não se ouve nem lê com muita frequência a palavra «coqueluche». Para evitar o galicismo, temos tosse convulsa — que é apenas um dos sintomas desta doença infantil infecto-contagiosa provocada pelo bacilo Bordetella pertussis. Em português, é também chamada pertússis, coisa que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ignora, mas não o Dicionário Houaiss. Em castelhano, é conhecida por tos ferina. Parece que a palavra francesa se formou do latim cuculuccia, por sua vez derivado de cucullus, «capuz». Antigamente, em França, os doentes de tosse convulsa eram obrigados a cobrir a cabeça com um capuz.

 

[Texto 2345]

Helder Guégués às 10:43 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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A propósito de «talvez»

Se calhar

 

 

      E a propósito. Ontem perguntaram-me a que classe gramatical pertence a palavra «talvez». «É um advérbio», respondi prontamente. Grande espanto: «Advérbio?! De quê?» «É um advérbio de dúvida.» Novo espanto. Pertence, suspeito, à geração que, na faculdade, andou vários anos a aprender as teorias de Chomsky. No início, «talvez» era advérbio de tempo, equivalente a «certa vez». «Tal vez se viu uma criança ainda viva puxar pela teta da mãe já morta» (Nova Floresta, Manuel Bernardes, com actualização ortográfica minha). Se antes indicava uma incerteza de tempo, como escreve Said Ali, passou depois a indicar uma incerteza de facto.

 

[Texto 2344]

Helder Guégués às 10:41 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Palavras substantivadas

Podem saber, mas esquecem-se

 

 

      «Quando substantivada, uma palavra pertencente a qualquer classe flexiona-se normalmente: “Sem senões nem talvezes” — “Ouvimos os prós e os contras” — “Sins e nãos foram ouvidos a um só tempo” — “Os setes e os noves do baralho estão marcados” — “Ais lancinantes se ouviam”» (Gramática Metódica da Língua Portuguesa, Napoleão Mendes de Almeida. São Paulo: Edição Saraiva, 1973, 24.ª ed., p. 104).

 

[Texto 2343]

Helder Guégués às 08:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Wind shear»

Foi só esperar

 

 

      Em Dezembro do ano passado, escrevi aqui a propósito da expressão «cisalhamento do vento»: «Eu não conhecia a expressão, de cariz técnico. Só me espanta uma coisa: que se não tenha copiado a expressão inglesa: wind shear.» Foi só esperar. Meteorologista Maria João Frada, em declarações na sexta-feira: «O wind shear é a variação do vento com a altitude em direcção e/ou intensidade.» Ainda mais estranho: «É assim: a análise [que] tinha sido feita logo pela manhã levou a que nós não ficássemos estranhos com o facto de isto acontecer, porque nós sabíamos que havia condições para que se formasse este tipo de fenómenos.»

 

[Texto 2342] 

Helder Guégués às 08:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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19
Nov 12

Léxico: «sazonalidade»

Ora esta

 

 

      «O presidente da Câmara [Municipal do Fundão] serrana garante que a comercialização de cogumelos silvestres, apesar da sua sazonalidade, vale cerca de 15 milhões de euros. Mas “a forma desorganizada como se apanha os cogumelos faz que os coletores os vendam a 5 ou 6 euros e depois eles são vendidos em Lisboa a 30 euros”. Daí a importância do centro de recolha» («15 mil visitaram feira de míscaros», Helder Robalo, Diário de Notícias, 19.11.2012, p. 25).

       Pois acreditem: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o vocábulo «sazonalidade».

 

[Texto 2341]

Helder Guégués às 07:21 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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