26
Dez 12
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Dez 12

Português, língua pobre?

Absolutamente lamentável

 

 

      «Passos Coelho afirmou num órgão do seu partido que não podia prescindir de Relvas, porque ele era, em inglês, um doer. O ministro adjunto será um “doer”, mas em português. Os tombos de Relvas estão a doer ao chefe do governo, que bem poderia, por um momento, ser um thinker e pôr termo ao seu “doer”» («O figurão do ano», Carlos Fiolhais, Público, 26.12.2012, p. 37).

      Com péssimos exemplos como este, todos os descalabros no uso da língua parecem legitimados.

 

[Texto 2462]

Helder Guégués às 11:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Dez 12

Sobre «seta»

De cachafrito

 

 

      Também no Jornal da Tarde, o jornalista João Ricardo de Vasconcelos fez uma reportagem no Restaurante Zé Calha, em Marvão, vila alentejana lá no topo da serra do Sapoio onde decorre, até dia 30, a Quinzena Gastronómica da Caça. Um dos pratos era lombo de veado com setas. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o termo «seta» nesta acepção como regionalismo: «cogumelo comestível». Mais um castelhanismo. Para o dicionário da Real Academia Espanhola, seta é «cualquier especie de hongo, comestible o no, con forma de sombrilla, sostenida por un pedicelo».

      Nesta 2.ª Quinzena Gastronómica da Caça, também se pode comer um bom coelho bravo de cachafrito — invenção alentejana e termo que também não anda pelos dicionários.

 

[Texto 2461]

Helder Guégués às 08:31 | comentar | favorito
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Dez 12

«Filhós de canudo»

Que canudo

 

 

      Já tinha ouvido na Antena 1 e, no Jornal da Tarde, vi uma reportagem da jornalista Helena Figueiras sobre as filhós de canudo do Algarve. A entrevistada disse que tinha ali a «calda para alfelar as filhós», mas a jornalista não deixou passar: «Está-me aí a dizer verbos que eu desconheço. Mel para quê?» De facto, não está dicionarizada, mas pelo contexto percebia-se muito bem. Alfelar é passar os doces, neste caso as filhós, por uma calda feita com mel, água, açúcar amarelo, limão e canela. Os dicionários só registam «alféloa» (massa de açúcar em ponto com que se fazem vários doces) e «alfeleiro» (aquele que faz ou vende alféloa). Comum às reportagens da rádio e da televisão foi terem dito que o nome destas filhós é «uma homenagem ao tempo em que eram estendidas com uma cana». Será? Ora, se estas filhós são confeccionadas com tiras de massa que se enrolam quando se fritam, o nome não evocará precisamente esta forma? É que o étimo de «canudo» significa «semelhante a cana». A cana mais grossa para fazer as vezes do tradicional rolo de madeira usar-se-ia antigamente para muitos outros tipos de filhós, e não somente para este.

 

[Texto 2460]

Helder Guégués às 08:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Dez 12

Próclise & etc.

Ordem cl-V obrigatória

 

 

      «Este é o tempo da voz. Simbolicamente, todos os anos a igreja faz-nos crer que um menino virá pregar a fé que recria a esperança. E que a fé não se rodeia de mantos com brocados, mas de palha ou, numa versão mais actual, de caixas de cartão forradas de jornais e cobertores velhos» («A voz humana», António Jacinto Pascoal, Público, 24.12.2012, p. 44).

      Pelo menos um professor, mormente se escreve na imprensa, não devia ignorar que o vocábulo «Igreja», na acepção de organização, entidade, se grafa com inicial maiúscula. E, na mesma frase, «todos», à semelhança do que sucede com elementos de negação, outros quantificadores e certos advérbios, não desencadeia obrigatoriamente a próclise? «Simbolicamente, todos os anos a Igreja nos faz crer que um menino virá pregar a fé que recria a esperança.»

 

[Texto 2459]

Helder Guégués às 12:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Modas parvas

Também terá sido imitado

 

 

      «É muito provável que o sul-coreano Psy nunca tenha pensado que Gangnam Style atingisse tamanho sucesso mundial em tão pouco tempo, ao ponto de já ser o vídeo com mais visualizações (mais de mil milhões) na curta vida do site YouTube. Mas o êxito de Psy não fica por aqui e está perto de obter reconhecimento pelo dicionário britânico CollinsGangnam Style foi eleita, juntamente com fiscal cliff (precipício fiscal) e Romneyshambles (vacilações de Romney), uma das palavras do ano» («Gangnam Style a caminho do dicionário», Público, 24.12.2012, p. 37).

      Bem, nenhuma delas é pior do que «entroikado», o que já não é, a meu ver, pouco.

 

[Texto 2458]

Helder Guégués às 11:31 | comentar | favorito
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24
Dez 12

Sobre «desenhar»

Desenham muito

 

 

      «Um dos grandes desígnios do PDJ era a limitação do poder da burocracia. É a alta burocracia — inspirada no mandarinato chinês — quem efectivamente “governa” o Japão. Foram os altos funcionários do MITI (Ministério do Comércio Externo e da Indústria) quem desenhou a estratégia de crescimento em simbiose com os grupos industriais e financeiros. Mas, a partir do fim da década de 1980, mostraram-se incapazes de responder à “estagnação”» («Japão à deriva», Jorge Almeida Fernandes, Público, 23.12.2012, p. 25).

      Mesmo se a acepção de conceber, projectar, idear sempre esteve no vocábulo português, por influência da língua inglesa, ultimamente é um fartote, e não apenas, longe disso, nas traduções. Agora, nada é concebido, projectado, ideado, pensado, é tudo, mas tudo desenhado.

 

[Texto 2457] 

Helder Guégués às 11:23 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Dez 12

«Bacalhau de cura amarela»

Não só os queijos

 

 

      «A qualidade paga-se e bem. O bacalhau amarelo é o mais caro de todos, pode custar 30 euros o quilo» (jornalista Sandra Vindeirinho, no Telejornal de ontem). Bacalhau de cura amarela, é como se costuma dizer. No verbete «cura», o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista a acepção relativa aos queijos: «processo de maturação dos queijos que lhes apura o sabor e os torna mais consistentes». Não devia registar algo semelhante em relação ao bacalhau? O bacalhau de cura amarela (por ser mais gordo?) é menos salgado do que os outros, tem um teor de sal igual ou inferior a 45 % e a cura é obtida pela exposição ao sol.

 

[Texto 2456]

Helder Guégués às 08:07 | comentar | favorito
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Dez 12

Infeliz verbo «haver»

Área crítica

 

 

      Pobre verbo «haver», pobres jornalistas. «A Chapelaria Azevedo Rua está há 126 na família. Chapéus continuam a haver muitos. E há cerca de trinta anos atrás já se faziam as contas» (jornalista Filipa Simas, no Telejornal de ontem).

 

[Texto 2455]

Helder Guégués às 07:27 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Dez 12
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Dez 12

Tradução: «minable»

Esquecem-se, é isso

 

 

      «Catherine Deneuve, que já contracenou com Depardieu em O Último Metro, em 1980, ou Potiche – Minha Rica Mulherzinha, de 2010, atacou também o Governo, cujo primeiro-ministro, Jean-Marc Ayrault, classificou a decisão de Depardieu de “depreciável”. Para a atriz os adjetivos utilizados “não são dignos de membros ligados ao Estado”. Também Brigitte Bardot veio defender o ator, chamando a atenção para a sua importância e contribuição para o cinema e a cultura francesas» («Catherine Deneuve defende amigo Depardieu na ‘fuga’ para a Bélgica», Tiago Henriques, Diário de Notícias, 22.12.2012, p. 45).

      Não tínhamos já visto que o adjectivo era só um, minable, e que se traduz por «miserável», «deplorável»? Vimos aqui.

 

[Texto 2454] 

Helder Guégués às 20:15 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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