27
Dez 12
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Dez 12

Léxico: «bovarismo»

Da literatura para a vida

 

 

      «“A sociedade procura ardentemente um guia, um raio de luz”, teoriza o psicossociólogo [Luís Rodrigues]. E não é raro que quem vai tão longe na mentira acabe por ficar convencido do que inventou. O fenómeno até tem um nome, diz o especialista: bovarismo. Acontece quando a pessoa tenta escapar à sua condição adoptando uma personalidade idealizada, como o fez Madame Bovary, a personagem de Flaubert» («Mesmo depois de descoberto como impostor, “observador da ONU” ainda desperta simpatias», Bárbara Reis e Ana Henriques, Público, 27.12.2012, p. 6).

      Até está nos dicionários, como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «estado de espírito mediante o qual um indivíduo faz de si mesmo e da sua condição uma ideia falsa, como sucede com Emma Bovary, personagem principal do romance Madame Bovary, do escritor G. Flaubert, 1821-1880».

 

[Texto 2464]

Helder Guégués às 09:14 | comentar | ver comentários (10) | favorito
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26
Dez 12

Se temos, não precisamos

Aqui não há favelas

 

 

      «Phiona Mutesi é uma miúda de 16 anos. Nasceu no Uganda, numa favela, Katwe. Quando tinha nove anos, Phiona foi apresentada a um ex-jogador de futebol, Robert Katende. Ele mostrou-lhe um jogo tão estranho que nem sequer tinha um nome no idioma em que ela se expressava: xadrez. Ela sentiu-se atraída pelas figuras das peças. Começou a jogar. Sete anos depois, tornou-se rainha. A história dela deu um livro. A história dela faz sonhar» («Phiona Mutesi passou de analfabeta a rainha do xadrez», Vítor Ferreira, Público, 26.12.2012, p. 33).

      Sou o primeiro a defender que se use um brasileirismo na falta de termo equivalente só nosso, porque, afinal, a língua é a mesma. Não assim quando dispomos de um vocábulo para designar essa realidade. É o caso. Nunca eu diria «favela» se temos «bairro-de-lata».

 

[Texto 2463]

Helder Guégués às 11:26 | comentar | ver comentários (12) | favorito
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26
Dez 12

Português, língua pobre?

Absolutamente lamentável

 

 

      «Passos Coelho afirmou num órgão do seu partido que não podia prescindir de Relvas, porque ele era, em inglês, um doer. O ministro adjunto será um “doer”, mas em português. Os tombos de Relvas estão a doer ao chefe do governo, que bem poderia, por um momento, ser um thinker e pôr termo ao seu “doer”» («O figurão do ano», Carlos Fiolhais, Público, 26.12.2012, p. 37).

      Com péssimos exemplos como este, todos os descalabros no uso da língua parecem legitimados.

 

[Texto 2462]

Helder Guégués às 11:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Dez 12

Sobre «seta»

De cachafrito

 

 

      Também no Jornal da Tarde, o jornalista João Ricardo de Vasconcelos fez uma reportagem no Restaurante Zé Calha, em Marvão, vila alentejana lá no topo da serra do Sapoio onde decorre, até dia 30, a Quinzena Gastronómica da Caça. Um dos pratos era lombo de veado com setas. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o termo «seta» nesta acepção como regionalismo: «cogumelo comestível». Mais um castelhanismo. Para o dicionário da Real Academia Espanhola, seta é «cualquier especie de hongo, comestible o no, con forma de sombrilla, sostenida por un pedicelo».

      Nesta 2.ª Quinzena Gastronómica da Caça, também se pode comer um bom coelho bravo de cachafrito — invenção alentejana e termo que também não anda pelos dicionários.

 

[Texto 2461]

Helder Guégués às 08:31 | comentar | favorito
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Dez 12

«Filhós de canudo»

Que canudo

 

 

      Já tinha ouvido na Antena 1 e, no Jornal da Tarde, vi uma reportagem da jornalista Helena Figueiras sobre as filhós de canudo do Algarve. A entrevistada disse que tinha ali a «calda para alfelar as filhós», mas a jornalista não deixou passar: «Está-me aí a dizer verbos que eu desconheço. Mel para quê?» De facto, não está dicionarizada, mas pelo contexto percebia-se muito bem. Alfelar é passar os doces, neste caso as filhós, por uma calda feita com mel, água, açúcar amarelo, limão e canela. Os dicionários só registam «alféloa» (massa de açúcar em ponto com que se fazem vários doces) e «alfeleiro» (aquele que faz ou vende alféloa). Comum às reportagens da rádio e da televisão foi terem dito que o nome destas filhós é «uma homenagem ao tempo em que eram estendidas com uma cana». Será? Ora, se estas filhós são confeccionadas com tiras de massa que se enrolam quando se fritam, o nome não evocará precisamente esta forma? É que o étimo de «canudo» significa «semelhante a cana». A cana mais grossa para fazer as vezes do tradicional rolo de madeira usar-se-ia antigamente para muitos outros tipos de filhós, e não somente para este.

 

[Texto 2460]

Helder Guégués às 08:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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24
Dez 12

Próclise & etc.

Ordem cl-V obrigatória

 

 

      «Este é o tempo da voz. Simbolicamente, todos os anos a igreja faz-nos crer que um menino virá pregar a fé que recria a esperança. E que a fé não se rodeia de mantos com brocados, mas de palha ou, numa versão mais actual, de caixas de cartão forradas de jornais e cobertores velhos» («A voz humana», António Jacinto Pascoal, Público, 24.12.2012, p. 44).

      Pelo menos um professor, mormente se escreve na imprensa, não devia ignorar que o vocábulo «Igreja», na acepção de organização, entidade, se grafa com inicial maiúscula. E, na mesma frase, «todos», à semelhança do que sucede com elementos de negação, outros quantificadores e certos advérbios, não desencadeia obrigatoriamente a próclise? «Simbolicamente, todos os anos a Igreja nos faz crer que um menino virá pregar a fé que recria a esperança.»

 

[Texto 2459]

Helder Guégués às 12:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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24
Dez 12

Modas parvas

Também terá sido imitado

 

 

      «É muito provável que o sul-coreano Psy nunca tenha pensado que Gangnam Style atingisse tamanho sucesso mundial em tão pouco tempo, ao ponto de já ser o vídeo com mais visualizações (mais de mil milhões) na curta vida do site YouTube. Mas o êxito de Psy não fica por aqui e está perto de obter reconhecimento pelo dicionário britânico CollinsGangnam Style foi eleita, juntamente com fiscal cliff (precipício fiscal) e Romneyshambles (vacilações de Romney), uma das palavras do ano» («Gangnam Style a caminho do dicionário», Público, 24.12.2012, p. 37).

      Bem, nenhuma delas é pior do que «entroikado», o que já não é, a meu ver, pouco.

 

[Texto 2458]

Helder Guégués às 11:31 | comentar | favorito
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