30
Jan 13

Léxico contrastivo: «guria»

Brasileirismo

 

 

      «“Os primeiros a sair tentavam puxar quem estava lá dentro. Apareciam mãos, braços na porta entre a cortina de fumaça. Puxamos várias pessoas. Eu, inclusive, puxei uma guria pelos cabelos. Foi um caos, o maior desespero”, contou o estudante de medicina, [sic] Murilo de Toledo Tiecher, ao jornal Zero Hora» («Quatro detidos e muitas dúvidas no inquérito à tragédia no Brasil», Susana Salvador, Diário de Notícias, 29.01.2013, p. 23).

      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que regista o termo, usado no Brasil, é a «criança do sexo feminino» ou a «namorada». No caso em apreço, não é. Segundo o Dicionário Houaiss, é a «moça com quem se namora; namorada, garota». Nas mesmas circunstâncias, um jovem português diria rapariga, miúda, talvez garina.

 

[Texto 2549] 

Helder Guégués às 10:17 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «branquela(s)»

Devia estar

 

 

      «Abebe Selassie é o escurinho, como o outro da troika é o careca e nem sei a qual dos dois branquelas me refiro, confundo-os (daí a escolha do sindicalista em especificar Selassie, o mais nítido dos três)» («Sei lá se é racismo? Sei, não é!», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 29.01.2013, p. 56).

      Com tantos termos pejorativos e ofensivos nos dicionários, este não está dicionarizado. Não está, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

      «Cercados por grades, pelo medo, cercados pela espera, para todos os lados dos poucos lados para onde nos podemos virar, merda pelos cantos que ninguém limpou, um cheiro constante eterno, mijo, suor que já não se lava, passos nos corredores, quem vem lá, basta ouvir um portão abrir e logo quem vem lá, sempre a mesma pergunta, todos os dias, todos os minutos que ouvimos com estrondo, badaladas de ferro nas têmporas, quem vem lá, o padre finalmente, o Américo que chama para nos alinharmos, outro russo, ou outro que não sendo russo é como se fosse, mais um preto, ciganada, um branquelas magrito, um gordo de bigode que não se percebe se é branco ou mulato ou monhé, um gordo de bigode que não gostou que o gajo de trás lhe buzinasse no semáforo, trazia um ferro ali à mão, o gajo de trás não volta a buzinar, ia atrasado para o emprego e podes apostar que o despediam se não tivesse ido a enterrar no dia seguinte» (Canário, Rodrigo Guedes de Carvalho. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, pp. 60-61).

 

[Texto 2548]

Helder Guégués às 09:48 | ver comentários (1) | favorito
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O AOLP90 à medida

Corte e costura

 

 

      «O fato de a jovem ser menor faz que não seja responsabilizada criminalmente» («Adelaide Ferreira ouvida por juiz», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 29.01.2013, p. 18).

      Com um acordo à medida, aparecem mais fatos que nunca. Essa é que é essa. Mera gralha? Dantes nunca se via.

 

[Texto 2547]

Helder Guégués às 09:45 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «homicídio oblativo»

Mesmo para ateus

 

 

      «No caso da morte dos filhos, ela é encarada pela mãe como um homicídio oblativo, ou seja, é visto como uma prova de amor, é um homicídio de misericórdia, para poupar os filhos a um sofrimento insuportável» (psiquiatra Pedro Afonso, em declarações ao Diário de Notícias, 29.01.2013, p. 12).

 

[Texto 2546]

Helder Guégués às 09:44 | favorito
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30
Jan 13

Léxico: «precatório-cheque»

Já não há

 

 

      «Mas, ontem à tarde, quando se apresentou na agência da Caixa Geral de Depósitos (CGD) de Moscavide para levar [sic] o dinheiro, o advogado de Elvas soube que a conta indicada no precatório cheque emitido pela 8. [sic] Vara Criminal de Lisboa, onde decorre o processo, estava vazia. [...] Hugo Marçal saiu ontem de Oliveira do Bairro, onde agora reside, com o objetivo de levantar o precatório cheque na secretaria do tribunal e depois ir ao banco sacar o dinheiro. [...] Ou seja, os precatórios cheques haviam desaparecido dando lugar aos documentos únicos de cobrança (DUC). [...] Antes, o tribunal passava o precatório cheque para ser levantado no banco» («Tribunal devolve 10 mil euros a Marçal em cheque careca», Licínio Lima, Diário de Notícias, 29.01.2013, p. 17).

      Não é por ter deixado de existir que não merece estar dicionarizado. Em alguns acórdãos e diplomas legais, surge hifenizado, precatório-cheque, que é como se vê num decreto de 1918: «Os depósitos obrigatórios serão levantados por meio de precatórios-cheques, assinados pelas autoridade que tiverem jurisdição sôbre os depósitos, nos termos das leis e segundo a constituição dos mesmos depósitos.»

 

[Texto 2545] 

Helder Guégués às 09:23 | ver comentários (1) | favorito
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29
Jan 13
29
Jan 13

Léxico: «espalhafatar»

Incompletos

 

 

      «Os brados e o estrépito do arruído ouviam-se distintamente. A rua e o largo estavam inteiramente desertos. Apenas se via sentada na ombreira de uma porta uma mulher já de idade, chorando e espalhafatando em altos brados de aflição» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 196).

      Lá está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, como está noutros, mas um dicionário, ainda que bom, sem abonações é só meio dicionário.  

 

[Texto 2544]

Helder Guégués às 20:51 | ver comentários (1) | favorito
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