27
Fev 13
27
Fev 13

Sobre «benjamim»

Alvíssaras

 

 

        Não, pelo que vejo, no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, mas no Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, José Pedro Machado escreveu: «Benjamim, adj. e s.» Será o único dicionário a fazê-lo? Um substantivo adjectivado, isto é, tomado, empregado como adjectivo, não é assim tão raro, mas muito menos, como sabemos, do que a substantivação de um vocábulo pertencente a qualquer das restantes nove classes gramaticais. Montexto já aqui afirmou saber, pela leitura de Jorge Daupiás, que Arnaldo Gama o empregara como adjectivo. Não apenas ele; também Silveira Bueno reparou. Eis o passo: «Camilla, o seu beijinho, a filha benjamim já o pozera nos apuros que sabemos quando elle teve de partir para o Roussillon; e mais tarde, quando a trouxe de Encourados para Areias, também lhe não tirou poucas noutes de somno, por se lhe ter despertado a consciencia de que a filha estava finalmente mulher» (O Sargento-Mór de Villar, 1.º vol., Arnaldo Gama. Porto: Tipografia do Comércio, 1863, p. 14).

 

[Texto 2632] 

Helder Guégués às 13:07 | comentar | ver comentários (7) | favorito
Etiquetas:
26
Fev 13

Léxico: «camonista»

Andamos a perder palavras

 

 

      «Foram os primeiros volumes da última obra que D. Leonor de Noronha (1488-1563), filha de D. Fernando de Meneses, segundo marquês de Vila Real, fez publicar em Coimbra, por João da Barreira e João Álvares, entre 1550 e 1553. Dedicou-os a D. Catarina, mulher de D. João III, e intitulou a sua tradução Coronica Geral da Eneyda... des ho começo do mundo ate nosso tempo. Em Os Lusíadas (1572), Camões inspirou-se na história universal de Sabelico, conforme a lição do filólogo José Maria Rodrigues. E, um século depois da sua primeira edição em português, o célebre bibliógrafo e camonista João Franco Barreto ainda informava que os restantes volumes da tradução feita por D. Leonor circulavam em manuscrito» («Uma história do mundo quinhentista: Sabelico», Diogo Ramada Curto, Público, 26.02.2013, p. 26).

      O mais parecido que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista é «camionista»...  Ah, sim, certamente, também regista «camonianista» (e «camoniano»), mas são muuuuuuuitas sílabas. O Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves regista os três.

 

[Texto 2631]

Helder Guégués às 09:39 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas:
26
Fev 13

Léxico: «nemátodo»

Que traduz a ideia de fio

 

 

      «Cientistas da Universidade de Coimbra e da Escola Superior Agrária de Coimbra desenvolveram um dispositivo para detectar a doença do nemátodo do pinheiro muito antes dos sintomas. O artigo que dá conta do trabalho foi distinguido com o Best Student Paper Award na Conferência Biodevices 2013, em Barcelona» («Nemátodo do pinheiro já tem detecção precoce», Teresa Firmino, Público, 26.02.2013, p. 29).

      É assim que andamos a ouvir e a ler há anos. No entanto, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista «nematode». O Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves só regista «nematóide» (adj. 2 gén. e s. m.). A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (pp. 572 e 573 do vol. 18) regista, oh riqueza, «nemátodes», «nematóide», «nematódios» «nemátodos».

 

[Texto 2630] 

Helder Guégués às 09:26 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas:
25
Fev 13

Butelo ou bulho, casulas ou cascas

Em terras de Bragança

 

 

      «As panelas foram postas ao lume há quase três horas. Lá dentro, ferve a água que coze os enchidos, butelo ou bulho, assim se chama o protagonista desta cozinha. [...] O enchido consistente acompanha com outras carnes de porco e umas cascas ou casulas, é como quem diz com vagens de feijão seco» (jornalista Sílvia Brandão, Jornal da Tarde, 23.02.2013). E a Sra. cozinheira Fernanda Reis disse: «É feita uma adoba dos ossinhos e das tenrilhas do porco, digamos, e é inserido na bexiga do porco e é seco, como o resto do fumeiro.»

 

[Texto 2629]

Helder Guégués às 15:22 | comentar | ver comentários (6) | favorito
Etiquetas:

Como se escreve nos jornais

A culpa é mesmo do revisor

 

 

      «“Há demasiados ladrões no poder, já nos roubaram que chegue... Nós já suportámos demasiado”, diz Clemente, que tem um filho nascido na Argentina que é carabiniere em Turino» («“Os italianos querem votar e mudar”, mesmo os que só se decidem nas urnas», Sofia Lorena, Público, 25.02.2013, p. 23).

      Carabiniere será para dar a cor local, imprescindível numa reportagem. «Turino» é para os eventuais leitores italianos perceberem pelo menos uma ínfima parte do artigo.

 

[Texto 2628]

Helder Guégués às 14:44 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas:

«Resignação», «renúncia»...

O leitor decide

 

 

      «Um cardeal com poder de voto na eleição do novo Papa foi acusado de ter praticado “actos impróprios” com quatro jovens seminaristas há mais de 30 anos. A denúncia contra Keith O’Brien, o cardeal da Escócia, partiu de três padres e um ex-padre, na semana anterior ao anúncio de resignação de Bento XVI. Mas a notícia só agora chegou aos media. [...] A apresentação da queixa parece ter sido planeada para coincidir com a aposentação do cardeal, mas o facto de o Papa ter renunciado levou os queixosos a divulgá-la, pedindo que O’Brien seja impedido de participar no conclave. Se assim não for, sentirão que as suas queixas não foram devidamente atendidas. Querem um conclave “limpo” e virar a página sobre o passado» («Cardeal da Escócia acusado de ter tido “actos impróprios” com seminaristas», Ana Dias Cordeiro, Público, 25.02.2013, p. 24).

      Em que ficamos: Bento XVI resignou ou renunciou? Na declaração oficial de Bento XVI, é «renúncia» que se lê, e não vejo motivos para se dizer de outra forma.

 

[Texto 2627] 

Helder Guégués às 14:38 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas:

«Líder camarária»!

Raispartam

 

 

      «A população de Haringey, no norte de Londres, rejubilou através da sua líder camarária, Claire Kober: “É um verdadeiro reconhecimento para a comunidade que a sua campanha pareça ter ajudado a impedir a venda desta obra de arte.” [...] “Vamos continuar a explorar todas as possibilidades para trazer o Banksy de volta à comunidade a que pertence”, declarou a líder política do município ao Telegraph» («É legal agarar num Banksy e vendê-lo? As autoridades dizem que sim», Mário Lopes, Público, 25.02.2013, p. 26).

      «Líder camarária», «líder política do município»... Mas, raispartam, Claire Kober não é vereadora? Então para quê usar essa designação alienígena e ambígua de «líder»? Certo é que Mário Lopes está em muito boa companhia. Na edição de hoje deste jornal, pode ler-se: na página 4, «líder da UGT»; na página 12, «líder da direita portuguesa», «líder Jonas Savimbi» e «líder do CCISP»; na página 21, «líderes europeus» (três vezes); na página 22, «líder do centro-esquerda»; na página 23, «líder da direita» e «líderes da Associação dos Trabalhadores Católicos Italianos»; na página 24, «líder máximo da Igreja Católica»; na página 27, «líder dos Beautify Junkyards»; na página 47, «líderes que versam altos problemas de Estado»; na página 48, «líder da Liga».

 

[Texto 2626]

Helder Guégués às 14:03 | comentar | ver comentários (11) | favorito
Etiquetas:
25
Fev 13

Limitação de mandatos

A culpa é do revisor

 

 

      «O tempo galgou oito anos e a Presidência da República, após rios de suor, a correr em Belém, descobriu que, na limitação dos mandatos autárquicos, a Imprensa Nacional equivocou-se: um revisor que não reviu escreveu: “de” câmara ou junta, ao invés da profundidade da diferença do “da” câmara ou “da” junta» («O “de” e o “da” das autarquias», Alberto Pinto Nogueira, Público, 25.02.2013, p. 47). Estamos de acordo, Sr. procurador-geral adjunto, esta é uma discussão idiota. Mas o seu texto carece de revisão: os revisores não escrevem ­— revêem (ou não revêem). A única excepção conhecida é ficcional: o competentíssimo e humílimo Raimundo Silva.

 

[Texto 2625]

Helder Guégués às 14:01 | comentar | favorito
Etiquetas:
24
Fev 13
24
Fev 13

Sobre «tiroteio»

Pólvora seca jornalística

 

 

      «A polícia encontrou munições ilegais de uma arma da qual Oscar Pistorius não tem licença (de 38 milímetros), sendo apenas legal a pistola de nove milímetros utilizada no tiroteio» («Oscar Pistorius já tinha sido detido por agressão», Madalena Esteves, Diário de Notícias, 21.02.2013, p. 40).

      «Tiroteio»... Disparou três ou quatro ou seis tiros, do outro lado alguns gritos e é um tiroteio. Pode consultar, por exemplo, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que regista: «disparo sucessivo de tiros de uma e outra parte». Reeva Steenkamp disparou com quê, com o piaçaba?

 

[Texto 2624]

Helder Guégués às 11:00 | comentar | favorito
Etiquetas: