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Mar 13
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Mar 13

Um neologismo em Camilo

Não tão cedo

 

 

      Hoje passei por um múpi em que se lia que o «primaverão está a chegar», ou algo parecido. Mas só no calendário, porque quanto à meteorologia parece o que é, Inverno. Não vamos primaverar tão depressa. «Primaverar. Escreveu Camilo na pág. 152 dos Vulcões de Lama: “Em Abril iam primaverar na quinta do Flórido em Campanhã.” Neologismo aceitável. Semelhantemente existe em latim æstivare, veranear, passar o verão. (D. D.)» (Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português, vol. 2, Vasco Botelho de Amaral, pp. 771-72).

 

[Texto 2666]

Helder Guégués às 22:56 | comentar | favorito
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11
Mar 13

Sobre «exergo»

Fora da obra (e dos dicionários)

 

 

      «Foram estas palavras que o poeta escolheu inicialmente para exergo desta parte da sua obra.» Diz mais ou menos isto o nosso autor. Creio que já conhecia este sentido do termo, mas esse conhecimento estava alojado num escaninho da memória. De qualquer maneira, vejo que os dicionários (consultei apenas seis, é certo) também o não registam. Tome-se a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: exergo: «espaço de uma moeda ou medalha em que se grava uma inscrição, data, etc.». Literalmente, exergo significa «fora da obra», mas este «fora» terá de se entender, no sentido do excerto em cima, como a margem do livro, ou da mancha gráfica. Assim, por metonímia, passou a dizer-se também «exergo» por «epígrafe».

 

[Texto 2665]

Helder Guégués às 15:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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E sobre Heraclito, nada

De nada

 

 

      Montexto observou aqui que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista nenhum adjectivo relativo a (António Feliciano de) Castilho. Não é o único. Melhor, talvez não haja nenhum que o faça. Muito mais estranho é que aquele dicionário não acolha nenhum dos adjectivos relativos a Heraclito, e há vários: heraclíteo, heraclítico, heracliteu e heraclitiano. Ou será antes «heracliteano», como se lê no Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora? Rebelo Gonçalves, na p. 524 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa, regista «heraclitiano».

 

[Texto 2664]

Helder Guégués às 12:17 | comentar | ver comentários (16) | favorito
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11
Mar 13

Léxico: «dorial»

Nunca avistada

 

 

      «Do “vício” da rua — da mágoa e do negro, do companheirismo e do crescimento dorial — fez-se poesia no livro Farrapos de Alma. Há dias, os amigos encheram o restaurante onde apresentou pela primeira vez a obra sobre os quatro anos em que viveu nas ruas do Porto e os exemplares vendidos pagam agora a primeira renda do T0 onde vai viver nos próximos meses» («Daniel Horta Nova. Do “vício” da rua fez-se poesia», Mariana Correia Pinto, Público, 11.03.2013, p. 12).

      Dorial. Esta nunca eu tinha lido nem ouvido, mas está nos dicionários, pelo menos em alguns — relativo a dor; doloroso.

 

[Texto 2663]

Helder Guégués às 08:20 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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10
Mar 13

«Cognac», «stress»...

Um retrocesso

 

 

      «Chama-se conclave à reunião de cardeais que escolhem os papa porque, num passado remoto, ficavam trancados cum clave (à chave, em latim) numa sala. Ali ficavam, isolados e mal alimentados, o tempo que fosse preciso. O primeiro conclave data de 1241 e elegeu Celestino IV. O mais famoso realizou-se em Viterbo (onde o Papa da época, Clemente VI, tinha morrido). Começou em 1268, mas os cardeais estavam tão divididos que demoraram dois anos e nove meses a eleger Gregório X. Neste período foram impostas as regras da clausura e a do pão seco e água como únicos alimentos. No futuro seriam concedidas algumas comodidades aos sacerdotes em conclave. Em 1878, quando foi eleito Leão XIII, o carmelengo [sic] foi autorizado a comprar uma garrafa de cognac para aliviar o stress dos sacerdotes deprimidos pelo isolamento e parca dieta, apesar de o pão já não ser seco. Se algum quisesse uma garrafa só para si só [sic] com prescrição médica» («A importância do cognac na escolha do papa», Público, 10.03.2013, p. 30).

      O texto veio da Reuters, e por isso cognac ficou... cognac. Mas esta é a grafia francesa, porque aportuguesado é, e há muito tempo, conhaque. E é claro que stress podia traduzir-se por «tensão».

 

[Texto 2662]

Helder Guégués às 19:12 | comentar | ver comentários (4) | favorito
10
Mar 13

«Exibir um moquenco»?

Vá-se lá saber

 

 

      «E o sr. Gaspar começa a exibir um moquenco de penitente que lhe vai muito bem. Mas, no meio disto, ainda ninguém respondeu à pergunta óbvia: onde está o dinheiro para o país continuar com o mínimo de decência e alguma dignidade» («Uma visita da autoridade», Vasco Pulido Valente, Público, 10.03.2013, p. 56).

      Não os do costume, mas todos os dicionários registam que moquenco é aquele que faz caretas ou momices; o que é humilde, envergonhado, indolente, preguiçoso. Em Bluteau, também é sinónimo de invencioneiro. Alguém conhece outra acepção? Não terá o cronista pretendido dizer mocanquice, isto é, trejeito, esgar?

 

[Texto 2661]

Helder Guégués às 18:23 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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