03
Jul 13
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Jul 13

«Rectificar/ratificar»

Era o ano de 2013

 

 

      À saída da audiência em que Vale e Azevedo foi condenado a dez anos de prisão efectiva, disse a sua advogada, Luísa Cruz: «Este julgamento violou uma convenção internacional, e que foi feito violando a Convenção [Europeia] de Extradição, que Portugal rectificou, portanto, é evidente que vou pôr em causa.»

      Dantes, só os jornalistas caíam nestes erros crassíssimos. Agora até os advogados — os advogados! Rectificar é corrigir, emendar; ratificar é confirmar o que ficou dito ou escrito, validar, comprovar. Se não quiserem aprender comigo, aprendam com Camilo: «Era o anno de 1717. Deter-nos-hemos algumas paginas para rectificar erros de historia» (A Caveira da Mártir, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Tavares Cardoso & Irmão, 1902, 2.ª ed., p. 73). «A ama percebeu-o, e abaixou os olhos em gesto de ratificar o que jurara. Não se demorou ao lado da mãe, que se espantou do porte glacial do filho» (O Demónio do Ouro, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1970, p. 103).

      Nesta mesma notícia, que vi no Telejornal, a jornalista Lígia Veríssimo contribuiu para outra confusão já clássica: entre mandado e mandato.

 

[Texto 3044]

Helder Guégués às 07:57 | comentar | favorito
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02
Jul 13

Léxico: «indúbio»

A segunda vez que a leio

 

 

   «Curioso referir que Rui de Pina e o cronista anónimo não indicam qualquer plantação de pinheiros na zona de São Pedro de Muel [sic] com o fim de evitar a deslocação de areias que prejudicava as culturas agrícolas. Parece indúbio que o monarca ordenou a substituição de pinheiros mansos por bravos na região costeira em frente de Leiria. A tradição do século XVI ligou essa iniciativa à obtenção de madeiras para intensificar o fabrico de naus comerciais, mas é ainda bem pouco o que se conhece em tal domínio» (História de Portugal: Estado, Pátria e Nação (1080-1415), Joaquim Veríssimo Serrão. Lisboa: Editorial Verbo, 1977, p. 253).

 

[Texto 3043]

Helder Guégués às 16:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «agrumelar»

Muito poucas vezes

 

 

      É uma tradução portuguesa de uma obra de Umberto Eco, e nela pode ler-se que no Finnegans Wake, de Joyce, «não só o inglês, mas as línguas de todos os povos, reduzidas a um vórtice de fragmentos em liberdade, são recompostas e de novo desfeitas num turbilhão de novos monstros lexicais, que se agrumelam por um instante para depois tornarem a dissolver-se, como numa dança cósmica de átomos, em que a escrita se estilhaça até ao étimo — e não é casual a analogia fónica entre étimo e átomo que induziu Joyce a falar em relação à sua obra de abnihilation of the ethym».

      Não é verbo que se veja muito por aí, este agrumelar. Tão pouco, aliás, como a variante agrumular — coagular em grúmulos. Ainda não foi expulso dos dicionários.

 

[Texto 3042]

Helder Guégués às 12:12 | comentar | favorito
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«Off the record»

Isso é que é comunicar

 

 

      «A aceitação do off-the-record em declarações de um governante promove a irresponsabilidade do governante e do Governo, aumenta a opacidade da política, reduz a liberdade de imprensa e abre a porta ao tráfico de influências. Que alguém que escreveu um livro intitulado Teoria da Responsabilidade Política não perceba isto, é lamentável» («Pedro Lomba lança programa de irresponsabilidade política», José Vítor Malheiros, Público, 2.07.2013, p. 45).

      Tencionava ver essa primeira aparição (natural e não sobrenatural) de Pedro Lomba, o adjunto do adjunto, mas estava em viagem e não pude. Não o vi assim brandir — ou será «bramir»? — o estandarte da transparência. Vejo que correu mal porque foi pessimamente pensada. Acontece aos melhores.

      Quanto ao que nos interessa aqui: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «off the record». Sem hífenes, portanto. Só como adjectivo é que tem obrigatoriamente hífenes. E José Vítor Malheiros cita incorrectamente o livro de estilo do Público, em que se lê «off the record».

 

[Texto 3041] 

Helder Guégués às 09:03 | comentar | favorito
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02
Jul 13

«Onda de calor»

Cientificamente

 

 

      «Para quem se queixava do frio, cá está: Portugal enfrentou na semana passada a sua primeira onda de calor em Junho desde 2009. Em vários pontos do país, a temperatura tem estado mais de cinco graus acima da média há mais de seis dias consecutivos. É isto que qualifica um período como onda de calor meteorológica» («Verão chegou com primeira onda de calor dos últimos quatro anos», Ricardo Garcia, Público, 2.07.2013, p. 15).

 

[Texto 3040]

Helder Guégués às 09:01 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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01
Jul 13
01
Jul 13

Samatra, finalmente

Eles até sabem

 

 

      «Os alunos dos 10.º e 11.º anos que no dia 18 de junho fizeram a provam tinham de analisar os sismos que ocorrem na costa oeste da ilha de Samatra. Ora, aí não há sismos, diz o geólogo Fernando Ornelas Marques, que defende a anulação da prova» («Erros põem em causa exame de Geologia», Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 1.07.2013, p. 16).

      Ora, afinal, sabem que é Samatra, que sempre foi Samatra. Não volto a dizer que são indocíveis. Quanto aos sismos na costa oeste da ilha, era só uma hipótese.

 

[Texto 3039]

Helder Guégués às 23:49 | comentar | ver comentários (9) | favorito
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