31
Ago 13

Léxico: «anualizar»

E será mesmo brasileirismo?

 

 

      Lê-se no texto: «No nosso país, as despesas sociais aumentaram, em percentagem do PIB, de 9,9 %, em 1980, para 25 %, em 2012, representando um crescimento anualizado de 2,94 %.»

      Não sei se as contas estão bem feitas (se houver por aí um economista que pudesse ajudar, agradecia), mas aquele «anualizado» faz-me espécie. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora assegura que o verbo transitivo anualizar é um brasileirismo e significa «estabelecer um índice anual», o que não explica propriamente nada.

 

  [Texto 3258]

Helder Guégués às 17:49 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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Léxico: «proteoma»

Tudo por causa de Ötzi

 

 

      «Finalmente, um estudo mais recente, publicado em Junho, volta a semear a dúvida sobre a natureza da sua ferida fatal. A equipa do instituto de Bolzano analisou o conjunto de proteínas (proteoma) de amostras do cérebro da múmia e identificou uma “acumulação significativa de proteínas associadas à resposta ao stress e à cicatrização das feridas”» («Ötzi. Os segredos de uma múmia assassinada», Sandrine Cabut, Público, 31.08.2013, p. 25).

    Proteoma, um neologismo, ainda não está em todos os dicionários gerais. E esta acepção de múmia — nos dicionários de língua inglesa «a body unusually well preserved» — não está nos nossos dicionários. Melhor é a definição (que junta dois sentidos) do dicionário da Real Academia Espanhola: «Cadáver que naturalmente o por preparación artificial se deseca con el transcurso del tiempo sin entrar en putrefacción.»

 

 

  [Texto 3257] 

Helder Guégués às 09:49 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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31
Ago 13

«Linha», uma acepção

Desalinhado

 

 

      «Até aqui tinha tocado sempre de dia, era sempre o empreiteiro. O coração dispara, descompassado. Está, não, é uma casa particular, boa noite. O ouvir de uma voz revitalizou-o, não tanto como a linha de coca que cheirou logo de seguida, mas ajudou» (Atrás de Ti, Pedro Mendonça. Vialonga: Coisas de Ler, 2001, p. 52).

      Só com recurso ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, não se fica a saber o que é uma linha de coca.

 

  [Texto 3256]

Helder Guégués às 09:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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30
Ago 13

«Contradição em/nos termos»

Em termos linguísticos

 

 

      O autor terminou o raciocínio a pedir: «desculpem a contradição em termos». Já todos lemos dezenas de vezes a expressão «contradição em termos». E outras tantas «contradição nos termos», que me parece mais conforme à nossa língua. Aquela está mais colada ao inglês contradiction in terms. Sinónima é a expressão latina contradictio in adjecto. Literalmente, contradição no que se acrescenta.

      «Esta ideia é de tal forma inovadora que a primeira reacção é pensar que “verdade empírica necessária” é uma contradição nos termos» (Essencialismo Naturalizado: Aspectos da Metafísica da Modalidade, Desidério Murcho. Lisboa: Angelus Novus, 2002, p. 13).

 

  [Texto 3255] 

Helder Guégués às 11:29 | comentar | favorito | partilhar
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Léxico: «hipertelia»

E também este

 

 

      «O mundo em que vivemos entrou num regime de manifestação hipertélica de onde só sairá por interrupção catastrófica. A hipertelia é uma lógica coerciva que impele qualquer coisa para além dos seus próprios fins, anulando os seus objectivos primeiros e instituindo um conflito interno, uma espécie de silencioso dilema que não pode ser resolvido e só pode prosseguir na sua via fatal» («Os conflitos da liberdade de expressão», António Guerreiro, «Ípsilon»/Público, 30.08.2013, p. 24).

    Também estes não os encontramos em muitos dicionários. Esta acepção, concretamente, não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que apenas regista um sentido. Basta ver que o Aulete regista quatro acepções, e nenhuma coincide com a registada pelo dicionário da Porto Editora. Neste caso, hipertelia é, segundo o Aulete, a «situação, e sua lógica intrínseca, que determina o movimento de um sistema para além de sua finalidade racional [Termo criado por Baudrillard]».

 

  [Texto 3254]

Helder Guégués às 08:55 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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Léxico: «dactiloscrito»

Acrescentem

 

 

      «Dactiloscrito do poema The Copulation Blues, assinado à mão por Bukowski e datado do dia 9 de Maio de 1973» («Site dedicado a Bukoswki reúne poemas, cartas, fotos e até a ficha no FBI», Luís Miguel Queirós, Público, 30.08.2013, p. 32).

      Não está em muitos dicionários. Não está, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

  [Texto 3253]

Helder Guégués às 08:02 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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30
Ago 13

Tradução: «enveloppe»

Pois, mas não

 

 

      «No raciocínio — elaborado — do procurador [John Miner], a ausência de resíduos de comprimidos no estômago seria incompatível com uma absorção maciça por via oral: a ingestão de uma quantidade importante de cápsulas de Nembutal teria causado a morte antes que estas (e o seu envelope amarelo) se tivessem dissolvido completamente no estômago» («Marilyn Monroe. Os comprimidos da infelicidade», Sandrine Cabut, Público, 30.08.2013, p. 26).

      Como temos — mas não precisamos — «envelope», o tradutor achou que bastava tirar um p ao francês enveloppe e estava tudo bem. Não está: neste caso, deve ser traduzido por envoltório, invólucro.

 

  [Texto 3252]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | favorito | partilhar
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