03
Ago 13

«Risco», uma acepção

Tem de ir para lá

 

 

      A propósito de empréstimos subprime e de swaps, ao que parece, terei de ser eu, que não sou economista, a pôr no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora a acepção usada em finanças do termo «risco» — a variância, ou diferença, que tanto pode ser positiva como negativa, entre o retorno esperado e o retorno obtido de um investimento.

 

  [Texto 3140]

Helder Guégués às 20:29 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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O AO mal assimilado

Alto!

 

 

      Tivesse sido na SIC, e nem se notava.... «Hoje, é claro que, tal como os empréstimos subprime, os swaps são uma arma financeira de destruição maciça, um jogo de altorrisco que foi literalmente vendido por partes interessadas e detentoras de mais informação e mais poder» («Uma verdade sistémica», Pedro Adão e Silva, Expresso, 3.08.2013).

      Caro Pedro Adão e Silva, e o Acordo Ortográfico, o que é, senão também uma arma de destruição maciça da língua? Nunca pensou que podia prová-lo, confesse lá. Pois é, conseguiu. Tudo provém, nós percebemos, da monomania do hífen: de um hipotético «jogo de alto-risco» passou para *altorrisco, porque lhe soou que se dobravam os ss e os rr. Quando, em que casos, é que lhe escapou completamente. Mas este não é um jogo de morte súbita.

 

  [Texto 3139]

Helder Guégués às 19:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Ortografia: «autoconhecimento»

Para não dizer apenas mal

 

 

      «Fazendo um elenco mais ou menos exaustivo dos temas abordados neste romance, podem encontrar-se referências ao dinheiro, ao casamento, a um subtil mas acutilante confronto de classes e até, pela evolução e pelas metamorfoses dos estados de alma da protagonista Elizabeth Bennet, um caminho original para uma profunda regeneração através do auto-conhecimento» («Morte acrescentada», Rui Lagartinho, «Ípsilon»/Público, 2.08.2013, p. 19).

      Esta é uma parte do código de escrita que não dominam, nem os críticos literários. Enfim, para não dizer apenas mal, reproduzo o bem que Rui Lagartinho diz da tradução recenseada: «Nota final: a janela de oportunidade que este livro [Morte em Pemberley] abriu ao trazer de novo P. D. James para as livrarias portuguesas numa edição cuidada e muito bem traduzida por Tânia Ganho deveria, passado o efeito do título que vai estar na origem de uma série da BBC a estrear no final do ano, ser aproveitada pela Porto Editora para disponibilizar novas edições dos romances de P. D. James, um corpus indispensável da literatura policial dos últimos 50 anos. Poucos estão disponíveis no mercado português, os que o estão são difíceis de encontrar e estão mal traduzidos.»

 

  [Texto 3138] 

Helder Guégués às 17:51 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «desruralização»

Outra acepção

 

 

      «O campo, hoje, sucumbiu à compulsão do consumo, à suburbanidade, a uma ruralidade pautada pelo dogma do investimento a longo prazo — as pessoas terão sempre necessidade da agricultura, dir-nos-ão. O geógrafo Álvaro Domingues tem estudado a mutação da ruralidade. Criou, até, o conceito de desruralização para explicar a alteração do modo de vida rural e é autor de uma antologia de imagens, ilustradas por fragmentos, que é de uma eficácia total na descrição do que é hoje a Vida no Campo, título de uma das suas obras» («O campo», António Pinto Ribeiro, «Ípsilon»/Público, 2.08.2013, p. 27).

      Será então outra acepção, que ainda não chegou aos dicionários. A desruralização, tal como vemos nos dicionários, é o despovoamento progressivo dos meios rurais, e veio, há não menos de cinquenta anos, directamente do francês déruralisation.

 

  [Texto 3137]

Helder Guégués às 17:16 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Não é senão isso

De além-tumba

 

 

      «É um facto que a mitologia rural da Morgadinha — com a sua natureza bondosa, o seu ciclo agrário constante, os animais cordatos, os bois puxando os carros, a harmoniosa hierarquia das classes sociais, a ventura da pobreza — não era se não isso: uma mitologia que consagrava o campo como prolongamento do paraíso, onde a vida saudável se combinava com as virtudes humanas» («O campo», António Pinto Ribeiro, «Ípsilon»/Público, 2.08.2013, p. 27).

      Já vimos (à exaustão, julgava eu) que é senão que se escreve nestes casos. Graciliano Ramos diz, de além-tumba, como é. «Em seguida modifiquei e venci a reacção molesta e acusei-me de precipitação: Nunes Leite devia estar doente, devia ser doente. Não era senão isso. O lençol de água a correr como fonte e o brado lamentoso indicavam desequilíbrio, pois não havia razão para tais excessos» (Memórias do Cárcere, Vol. 1, Graciliano Ramos. Lisboa: Editorial Caminho, 1993, p. 93).

 

  [Texto 3136]

Helder Guégués às 14:59 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Linguística forense

Autoplágio? Acho normal

 

 

      «O linguista forense Rui Sousa-Silva não esperava encontrar tamanha sobreposição de texto quando decidiu comparar os memorandos de entendimento assinados entre a Comissão Europeia (CE), o Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI), por um lado, e a Grécia, a Irlanda ou Portugal, por outro. Logo na primeira leitura, notou grande reutilização de texto. Ao fazer uma análise comparativa, a dimensão pareceu-lhe “absurda”: os acordos assinados pela Irlanda e por Portugal partilham 75% do texto, os assinados pela Grécia e pela Irlanda coincidem em 77%, e os assinados pela Grécia e por Portugal em 82%» («Memorando da troika. O texto português é 82% igual ao grego», Ana Cristina Pereira e Lurdes Ferreira, Público, 3.08.2013, p. 18).

 

  [Texto 3135]

Helder Guégués às 08:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Cantonamento», de novo

Ausentes dos dicionários

 

 

      «Mas há uma outra geografia ferroviária portugesa que vive ainda a um ritmo não muito diferente do século XIX. São as linhas que ainda não foram modernizadas e cuja exploração continua dependente do cantonamento telefónico — um sistema no qual o chefe da estação telefona para a estação seguinte a pedir o avanço do comboio. [...] O mesmo acontece entre o Pocinho e a Régua, em que o cantão (distância entre estações guarnecidas com pessoal) é de 68 quilómetros)» («Em Portugal poderia ocorrer um acidente igual ao da Galiza?», Carlos Cipriano, Público, 3.08.2013, p. 8).

 

  [Texto 3134]

Helder Guégués às 08:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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03
Ago 13

Acelera ou frena

Infrene e não destravado

 

 

      «O Convel [de controlo de velocidade] permite ainda a condução em “piloto automático”, na qual o maquinista dá indicações ao computador de bordo sobre a velocidade a que se pode circular naquele troço e o próprio comboio acelera ou frena — os comboios não travam porque não têm travões, mas sim freios — consoante esteja a subir ou a descer, de maneira a manter-se dentro do limite imposto» («Em Portugal poderia ocorrer um acidente igual ao da Galiza?», Carlos Cipriano, Público, 3.08.2013, p. 8).

 

  [Texto 3133]

Helder Guégués às 08:12 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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