29
Ago 13

Como se escreve nos jornais

Mas que bem

 

 

      «As chamas rodearam várias aldeias no Parque Natural do Alvão. Ventos fortes dificultaram o trabalho dos bombeiros. De tarde, labaredas continuaram a ganhar terreno. Foram accionados três meios áreos pesados e duas máquinas de rasto militares» («DGS alerta para concentração de fumo no Porto», Ana Cristina Pereira, Público, 29.08.2013, p. 7).

      Cá estão, novamente, várias frases seguidas sem nenhum articulador, simplesmente justapostas. É a desagregação da linguagem. Depois disto, os jornalistas passarão a dar-nos meras notas, alcançando dessa maneira a almejada objectividade.

 

  [Texto 3250]

Helder Guégués às 10:21 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se escreve nos jornais

Que bem que eles escrevem!

 

 

      «Essa passagem [do discurso de Martin Luther King], que passou largamente desapercebida nas notícias do dia seguinte, levou um dos directores do FBI, William Sullivan, a escrever num relatório que Martin Luther King se tinha tornado “o negro mais perigoso para o futuro do país, do ponto de vista do comunismo e da segurança nacional”» («Discurso histórico está protegido por lei até 2038», Público, 29.08.2013, p. 20).

      Como não têm tempo para escrever bem, escrevem mal. Exige um bocadinho mais de esforço, mas é o emprego deles, e por isso não se importam.

 

  [Texto 3249]

Helder Guégués às 07:45 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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29
Ago 13

Tradução: «political junkie»

Fanáticos

 

 

      «Mas o orador que falou ontem, num dia chuvoso, apresentou um discurso familiar — tão familiar que os junkies políticos de Washington foram buscar os primeiros e famosos discursos de Obama (como o que fez na Convenção Democrata em 2004) para concluir que eram semelhantes» («Obama tem um sonho: igualdade económica para todos os americanos», Kathleen Gomes, Público, 29.08.2013, p. 20).

      Vamos imaginar que o leitor do Público só tem à mão o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora. Que encontra no verbete «junkie»? O termo de calão para «drogado». Ora, em inglês, um political junkie é um fanático da política, alguém que segue, de forma obsessiva, tudo o que diz respeito à política. E isto precisava de estar em inglês? É claro que não.

 

  [Texto 3248]

Helder Guégués às 07:36 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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28
Ago 13

«Ênfase» é feminino

Eu tenho um sonho

 

 

      A 28 de Agosto de 1963, faz hoje precisamente cinquenta anos, em Washington, Martin Luther King falava sobre o sonho americano e a igualdade de direitos dos negros. O Jornal da Tarde de hoje foi ouvir um jornalista, José Alberto Lemos, a propósito deste discurso: «Aquilo que se tornou célebre, que é a parte do “eu tenho um sonho, eu tenho um sonho”, são apenas os últimos quatro ou cinco minutos de discurso de 17 minutos em que Luther King improvisou. Portanto, isto não estava preparado, ele decidiu dar, digamos, um ênfase mais importante ao seu discurso no final justamente para sublinhar que aquilo que ele sonha é aquilo que a América ainda não concretizou.»

      Eu tenho um sonho: que um dia, em vez de nove em cada dez falantes que erram no género de «ênfase», ninguém erre ou erre apenas um em cada dez.

 

  [Texto 3247] 

Helder Guégués às 21:44 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Tanto a Oriente como a Ocidente»

Ou não

 

 

      «Figura grada e prestigiosa do terceiro mundo, Hailé Selassié I tem influência junto dos chefes que contam na paisagem política africana e, do mesmo passo, é acolhido e cultivado pelas grandes potências, tanto a Oriente como a Ocidente; e por estes títulos tem interesse para Portugal e sua política a visita do imperador» (Salazar: A Resistência (1958-1964), Franco Nogueira. Coimbra: Atlântida Editora, 1984, p. 87).

      Não devia ser antes «tanto a oriente como a ocidente», tal como «de norte a sul»?

 

  [Texto 3246]

Helder Guégués às 21:31 | comentar | favorito
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Léxico: «guanche»

Queremos melhor

 

 

      «“Encontramos estruturas proto-históricas [período que se segue à pré-história mas que é anterior ao da história documentada] semelhantes no Norte de África e noutras culturas aborígenes como a guanche, nas ilhas Canárias. Mas ainda é muito cedo para dizermos exactamente o que são e quando foram construídas, precisamos de estudar mais os materiais e de fazer datações precisas”, admite o arqueólogo» («As “pirâmides” da vinha do Pico já lá estavam quando os portugueses chegaram?», Lucinda Canelas, Público, 28.08.2013, p. 30).

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, está registado «Guanches», mas, incoerentemente, não «guanche», o que é equivalente a estar «Portugueses» e não estar «português». Os Guanches eram os antigos habitantes das ilhas Canárias.

 

   [Texto 3245]

Helder Guégués às 10:46 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «maroiço»

E outras coisas mais

 

 

      «Desde Janeiro que estes arqueólogos [Nuno Ribeiro, da APIA, e sua equipa] visitam o local [ilha do Pico] marcado por estes montes de rocha [vulcânica] que ali se conhecem por maroiços, fazendo levantamentos e prospecção» («As “pirâmides” da vinha do Pico já lá estavam quando os portugueses chegaram?», Lucinda Canelas, Público, 28.08.2013, p. 30).

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «maroiço» remete para «marouço» e neste podemos ler: «onda encapelada; maré viva». No Grande Dicionário da Língua Portuguesa de José Pedro Machado, é algo mais do que isso: nos Açores, é outra designação para tumor, o paredão para arrumar pedra e, em São Miguel, o nó da madeira.

 

  [Texto 3244]

Helder Guégués às 09:17 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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28
Ago 13

«Esquirro»?

Daí as aspas

 

 

      «No exílio desde 1815, nesta pequena ilha vulcânica no meio do Atlântico Sul que é Santa Helena, o imperador, que se queixava frequentemente de dores no aparelho digestivo, vivia obcecado com a hipótese de um mal de família. O seu pai morrera com menos de 40 anos, vítima de um “esquirro” (um tumor) do piloro» («Napoleão. Os mistérios de um tumor imperial», Sandrine Cabut, Público, 27.08.2013, p. 26).

      O que não sabemos é se as aspas são da jornalista francesa, se, mais provavelmente, são do tradutor português. No original estará squirre ou squirrhe. E é isso: um tumor duro, de tecido fibroso, renitente. Vem do grego através do latim. Nos dicionários gerais, não o encontro. Comecei a suspeitar que a ortografia em português seria «escirro», que não encontrei, mas apenas cirro: «tumor maligno, de consistência muito dura à palpação». E lembrei-me, era inevitável, de «cirrose». Portanto, se existisse seria «escirro». Embora, ao longo do tempo («no plano diacrónico», diriam os da glote, como Montexto gosta de lhes chamar), na língua francesa, tenha passado de schirre para squirrhe, só esta se usa, e em castelhano, por exemplo, só está dicionarizado «escirro».

 

  [Texto 3243]

Helder Guégués às 08:29 | comentar | favorito
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