03
Set 13
03
Set 13

Tradução: «liverish»

Está doente

 

 

      A pobre criatura sofria de um «liverish feeling», ou seja, ou seja... Ahn, bem... O tradutor diz que é de um «sentimento hepático». Há-de ser apenas, digo eu, porque para o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora liverish é coloquial e se diz do «doente do fígado; achacado a problemas do fígado». («Achacado a» já vi, é verdade, mas tenho sérias dúvidas que seja correcto.) Não será antes «sentimento irritável» ou «sentimento bilioso»?

 

  [Texto 3267]

Helder Guégués às 06:32 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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02
Set 13

Sobre «legista»

Metade de certo

 

 

      «Da mesma forma, foram lançadas dúvidas sobre o relatório médico-legal inicial assinado pelos três legistas, incluindo Thomas Noguchi. O legista das estrelas (que autopsiou entre outros os cadáveres de Marilyn Monroe, Robert Kennedy, Janis Joplin e John Belushi) e os seus colegas terão sido negligentes na autópsia?» («Natalie Wood. Um “caso arquivado” em águas agitadas», Sandrine Cabut, Público, 2.09.2013, p. 28).

      Legista, para nós, é somente o especialista em leis; jurisconsulto; jurisperito. O tradutor devia ter escrito médico-legista.

 

  [Texto 3266]

Helder Guégués às 09:31 | comentar | favorito
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«Tratar-se de»

Nem daqui a trezentos anos

 

 

      «As lesões têm entre 1,25 a 5 centímetros de diâmetro. São retiradas amostras de algumas delas para observação ao microscópio, que revela tratarem-se de “hemorragias subcutâneas recentes”, compatíveis, segundo o relatório, com equimoses recentes e superficiais» («Natalie Wood. Um “caso arquivado” em águas agitadas», Sandrine Cabut, Público, 2.09.2013, p. 28).

      Não, nem pensar: «entre 1,25 e 5 centímetros». Perturbado, o tradutor esqueceu-se que a construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular. Digam-lhe, ele talvez agradeça.

 

  [Texto 3265]

Helder Guégués às 09:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Sobre «revelim»

Nebulosa

 

 

      «A fortaleza militar de Almeida, rodeada por um fosso, foi construída nos séculos XVII e XVIII. Tem forma hexagonal e é constituída por seis baluartes (São Francisco, São Pedro, Santo António, ou de Santa Bárbara e de São João de Deus) e igual número de revelins (da Cruz, dos Amores ou Hospital de Sangue)» («Câmara de Almeida candidata antiga praça-forte a Património Mundial», Público, 2.09.2013, p. 17).

      Constituída por seis baluartes — e depois nomeiam quatro... Mas isso agora não interessa. Revelim (ou rebelim, que os dicionários já esqueceram) é, diz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a «construção externa de duas faces, que formam um ângulo saliente, para cobertura ou defesa de uma obra de arte». No mínimo equívoca, esta definição.

 

  [Texto 3264]

Helder Guégués às 08:48 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Cacatua/catatua»

Aos pares

 

 

      «Os ovos apreendidos [no Aeroporto das Portela] agora em Maio não são de arara-jacinta (Anodorhynchus hyacinthinus), mas sim de outra espécie de Psittaciformes, a ordem de aves que inclui papagaios, araras, periquitos, cacatuas e afins» («Ovos de papagaio são o negócio de ouro dos traficantes de animais», Ricardo Garcia, Público, 2.09.2013, p. 12).

      Pode dizer-se de ambas as formas: cacatua ou catatua. Esta provém daquela, com assimilação. Mas é claro que se escreve Psitaciformes. Já que não usam — como deviam — itálico, que escrevam em português.

 

  [Texto 3263]

Helder Guégués às 08:14 | comentar | favorito
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02
Set 13

«Personæ non gratæ»

Não se meta nisso

 

 

      Milhares de professores contratados não colocados irão hoje inscrever-se nos centros de emprego. Vai daí, Mário Nogueira, da FENPROF, põe-se a falar em latim. Mal: «Vem confirmar que o Ministério da Educação tem os professores contratados como personas non gratas. E o que ainda é mais estranho e curioso é o próprio Ministério da Educação vir dizer que até tem mais de seis mil horários ainda para preencher.»

      O plural da expressão é personæ non gratæ. É difícil? Bem, ninguém o manda pôr-se a falar em latim, acho eu. Ou isso também conta para o regime de ponderação curricular?

 

 

  [Texto 3262]

Helder Guégués às 07:43 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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01
Set 13

Nomenclatura científica

A alquimia da ortografia

 

 

      «Provámos quatro amostras: um virgem extra “especial reserva” sem adição de qualquer aroma externo, combinação das variedades Madural e Cobrançosa; um “especial peixe”, aromatizado com endro e gengibre e enriquecido com chondrus crispus, um antioxidante natural de origem marinha proveniente da costa portuguesa; um “especial saladas”, aromatizado com manjericão e limão e enriquecido com o antixodante marinho unnaria pinnatifida; e um “especial al funghi”, aromatizado com boletus edulis, importado da Umbria, Itália (este cogumelo também existe em Portugal)» («A deliciosa alquimia dos azeites aromatizados», Pedro Garcias, «Fugas»/Público, 31.09.2013, p. 27).

      Que alguém diga a Pedro Garcias (se estiver no Facebook, pode ter 3000 ou 4000 «amigos»): na designação binominal científica, o primeiro termo do nome da espécie (o nome genérico) deverá sempre ser escrito em maiúscula; o segundo termo (o epíteto específico), por sua vez, escrever-se-á em minúscula. Tinha obrigação de saber, sim senhor. E já agora, é Undaria e não Unnaria. E se escrevesse Úmbria também seria melhor.

 

  [Texto 3261]

Helder Guégués às 20:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Irmãs Brontës

Dizem os editores

 

 

      «Disse-lhe que devia procurar um agente e mostrar-lhe o manuscrito. Recomendou-lhe o seu, que, por coincidência, era David Godwin! Este telefonou a Alexandra Pringle, editora executiva da Bloomsbury, que achou que o livro tinha “a qualidade de um Dickens do século XIX e ao mesmo tempo era futurista” e lembrou-se das três irmãs Brontës à volta de uma mesa a criarem um mundo imaginário. Samantha Shannon recebeu um avanço da Bloomsbury para escrever os três primeiros livros da série de sete» («Quase conto de fadas», Isabel Coutinho, «2»/Público, 1.09.2013, p. 9).

      Muito bem, cara Isabel Coutinho: irmãs Brontës. Já quanto a «avanço», é acepção empregada apenas no meio editorial. Nem sequer está dicionarizada.

 

  [Texto 3260]

Helder Guégués às 12:22 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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01
Set 13

Léxico: «sinépica»

Outra nova

 

      «Uma coisa é a formulação do conceito de casamento; outra é o regime jurídico a ele associado. No recorte conceitual, não deverão ser convocadas consequências derivadas da aplicação de um determinado regime jurídico (“sinépica”): os elementos caracterizadores do conceito deverão ser teorizados de forma “descomprometida” (profs. D. Freitas do Amaral; Paulo Otero)» («Inconstitucionalidade da lei do casamento homossexual e da possibilidade de adopção», Ivo Pêgo, Público, 1.09.2013, p. 54).

      Nos dicionários, não está. Encontro-a na obra Da Boa Fé no Direito Civil, de António Manuel da Rocha e Menezes Cordeiro (Coimbra: Livraria Almedina, 2001, p. 39). É um neologismo proposto pelo jurista e antropologista legal Wolfgang Fikentscher ­— Synepeik. É o reconhecimento e o estudo da ponderação das consequências, que habilitam o intérprete-aplicador a pensar através da conformação de resultados.

 

  [Texto 3259]

Helder Guégués às 08:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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