09
Nov 13

Que raio de «província»

Foram os da glote

 

 

     «Tomemos o exemplo de uma província da teoria do texto, etc.». Podemos exprimir-nos desta maneira? Em sentido figurado, está nos dicionários, podemos usar o termo para significar secção, ramo. Não terá origem no italiano? «In senso fig., nell’uso letter. (non com.), settore specifico, ramo ben determinato nell’ambito di una disciplina, di un’arte e sim.: le scienze ... mi paiono una p. di letteratura ... interamente diversa dalle belle lettere (Alfieri)», lê-se no Treccani. À primeira vista, dir-se-ia um falso amigo. Não daqueles do Facebook, antes um falso cognato.

 

  [Texto 3488]

Helder Guégués às 19:34 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Tradução: «Schlagholz»

Se é para bater, batedeira

 

 

      «E via-se a si próprio como se debruçava sobre as batedeiras, para escolher uma; como fazia rolar a bola de um lado para o outro até tê-la bem ajeitada e lançá-la no momento preciso mesmo para o sítio onde queria que fosse cair; tão alto, para que o tempo de queda da bola correspondesse exactamente ao tempo que ele necessitava para pôr também a mão esquerda em volta do cabo da batedeira, brandi-la e atingir a bola com toda a força, para que voasse para muito longe, até para além da marca» (Bilhar às Nove e Meia, Heinrich Böll, tradução de João Carlos Beckert d’Assumpção. Lisboa: Editorial Aster, s/d [mas talvez de 1961], p. 48).

      Em que se repara logo, logo? Que não são frases para leitores com deficiências cognitivas. E que mais? Que faz ali uma batedeira? Em todo o texto é isso que se lê, batedeira para aqui, batedeira para ali. Na página 53, porém, o tradutor distraiu-se ou consentiu em facilitar a vida ao leitor e saiu «taco». Claro que o tradutor devia usar sempre «taco», a haste com que se bate a bola em jogos como o golfe, o pólo, o hóquei, etc.; nem sei onde foi desencantar «batedeira» nesta acepção. Pode ter sido o termo que, provisoriamente, encontrou, com a intenção de mais tarde substituir por outro, e depois esqueceu-se.

      «Und er sah sich selbst, wie er sich nach den Schlaghölzern bückte, um seins herauszusuchen; wie er den Ball in der linken Hand hin und her rollte, her und hin, bis er ihn griffig genug hatte, ihn im entscheidenden Augenblick genau dorthin zu werfen, wo er ihn haben wollte; so hoch, daß die Fallzeit des Balles genau der Zeit entsprach, die er brauchte, um umzugreifen, auch die linke Hand ums Holz zu legen, auszuholen und den Ball zu treffen, mit gesammelter Kraft, so, daß er weit fliegen würde, bis hinters Mal.»

 

  [Texto 3487]

Helder Guégués às 15:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Sobre «sereia», de novo

Mais um r, e metia endoscopia

 

 

      De manhã, enquanto esperava que a minha tivesse aula de mandarim, estive no Farol de Santa Marta. Mesmo no exterior, estão expostas algumas peças que se usam ou usaram nos faróis, e entre elas uma sereia eléctrica. É assim que se lê na cartela. Sereia — não sirene. Não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem em muitos outros. Registam, porém, «nefoscópio», um instrumento que serve para determinar a direcção e a velocidade das nuvens em movimento, que também lá está em exposição.

 

  [Texto 3486]

Helder Guégués às 14:56 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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«Envenenado até à morte»

Jornalistês

 

 

      A. M. Pires Cabral anunciou no Facebook — disseram-me, porque eu não frequento essas paragens — a sua próxima obra, Língua Charra, Regionalismos de Trás-os-Montes e Alto Douro (Âncora Editora, 2013), onde também deixou esta nota:

      «JORNALISTÊS
      Oiço na Antena 1 uma jornalista dizer, aparentemente sem arrepios de consciência, que Yasser Arafat “foi envenenado até à morte”. As maldades que estes jornalistas e tradutores apressados estão ao fazer ao Português! Recebem um despacho em inglês de uma qualquer agência noticiosa internacional, onde lêem que “Mr. Arafat was poisoned to death”, e nem param um minuto a pensar. Toca a traduzirem para jornalistês: “envenenado até à morte”. Dá impressão que, até morrer, o pobre Arafat foi sendo envenenado metodicamente, dia após dia, e só deixaram de o envenenar quando morreu. Já tínhamos o “espancado até à morte”, o “esfaqueado até à morte” e outros mimos que tais. Não seria muito melhor Português dizer “morto por envenenamento”, etc.? Pois era; mas para isso os jornalistas tinham de falar Português, e não jornalistês. E tinham que prestar culto à língua portuguesa, e não preito de submissão à língua inglesa.»

 

  [Texto 3485] 

Helder Guégués às 14:12 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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09
Nov 13

Dois pesos, duas medidas

Ou não fosse ele indígena

 

 

      «No Ocidente, o abandono do cristianismo em qualquer das suas variedades tem sido progressivo desde o princípio do século XIX e reforçado, a partir de 1850-1870, pela crítica bíblica e pelo evolucionismo de Darwin. [...] Mas, fatalmente, a cada concessão, irá crescendo a ideia de uma mudança radical na Igreja, que a deixaria irreconhecível como, por exemplo, sucedeu ao Anglicanismo» («O inquérito do Papa Francisco», Vasco Pulido Valente, Público, 9.11.2013, p. 52).

 

  [Texto 3484]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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