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Dez 13
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Dez 13

Sobre «quenelle»

Alguma semelhança

 

 

   «O comediante diz que se trata de “um gesto de insubmissão ao sistema”. O presidente da Liga Internacional Contra o Racismo e o Anti-semitismo, Alain Jakubowicz, descreve-o como uma “saudação nazi invertida, o que significa a sodomização das vítimas” do Holocausto. Quenelles são uns bolinhos fritos, de peixe ou de carne. O gesto, na verdade, assemelha-se bastante ao tradicional manguito» («Paris tenta travar humorista acusado de anti-semisitismo», Sofia Lorena, Público, 31.12.2013, p. 23).

     No Dicionário de Francês-Português da Porto Editora, diz-se que é uma «almôndega; (recheio) bolinha de carne». Não é bem o mesmo. Lê-se no Trésor: «Préparation, en forme de boulette ou de petit cylindre, à base de viande, d’abats, ou de poisson finement hachés, incorporée à une pâte de farine ou de mie de pain, que l’on sert telle quelle accompagnée d’une sauce ou dans une garniture de pâté chaud: vol-au-vent, bouchée à la reine.» Ainda recentemente o chefe Kiko Martins, no Chefs’ Academy, fez quenelles, que são, pode ler-se no sítio do programa, «rolinhos de creme com uma forma oval semelhante à dos pastéis de bacalhau».

 

  [Texto 3741] 

Helder Guégués às 10:27 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Dez 13
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Dez 13

Ortografia: «fio dental»

Mesmo sem hífen, não cai

 

 

    «Toda a menina do Rio, seja homem, seja mulher, patricinha de Ipanema ou morena de Bangu, trabalha para ter um bumbum à dura altura da expectativa. O cartão-postal do Rio de Janeiro é um bumbum aos pés do Cristo, idealmente fio-dental. O Cristo nem pisca, nem fecha os braços. Mas experimenta a menina botar um peito de fora: vem a polícia» («O corpo é a cara do Rio», Alexandra Lucas Coelho, «2»/Público, 29.12.2013, p. 31).

   «Toda a menina do Rio, seja homem, seja mulher»?! Desisto, nem quero perceber. E «fio dental» precisará mesmo de hífen? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o sem hífen. E a mesmíssima Alexandra Lucas Coelho escreveu-o sem hífen vai fazer dois anos agora em Janeiro: «E apesar de as autoridades terem proibido os postais com as mulatas de fio dental, o Rio-da-Copa-e-das-Olimpíadas continua a ser o postal do corpo que samba, do corpo no calçadão, da garota de Ipanema e do Leãozinho, corpo aberto no espaço. Então em que ficamos? [...] Sim, o Rio é esta aldeia. A
 Oi Futuro não foi pudica, foi provinciana. Não era o fundo, é a forma. Fio dental sim, topless não. Fio dental sim, calção no Municipal não. Fio dental sim, Nan Goldin não» («Fio dental sim, Nan Goldin não», Alexandra Lucas Coelho, «2»/Público, 7.01.2012, p. 8).

 

  [Texto 3740] 

Helder Guégués às 18:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Dez 13

Era de esperar

O bê-á-bá, no século XXI

 

      «Fazia-se cara feia, dizia-se “racista mau, racista feio”, e era esperar que eles caíssem neles» («Às ramas, às ramas», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 13.12.2013, p. 9).

      Fernando Campos, ou porque nasceu em Águas Santas ou porque foi professor, sabia: «Silêncio de almas assustadas, passos lentos, o inclinar de cabeças para o pó da terra, eis o acompanhamento e ritmo do derradeiro transe, a hora de os mortais caírem em si e sentirem, duro como rocha, o efémero percurso deste mundo» (O Lago Azul, Fernando Campos. Lisboa: Difel, 2007, p. 147).

 

  [Texto 3739]

Helder Guégués às 18:35 | comentar | ver comentários (17) | favorito
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«Reunir-se»

Toque a reunir

 

 

      «Para atingirem a meta de “derrubar” a prova, os professores ligados a este movimento reúnem hoje à tarde em Coimbra, nas cantinas azuis, perto da Praça da República» («Professores discutem hoje novo plano de ataque à prova», Pedro Sousa Tavares, Diário de Notícias, 27.12.2013, p. 15).

      Os professores reúnem o quê — já que o verbo é transitivo —, pedras para atacar a prova? Ou estará a frase incompleta?

 

  [Texto 3738]

Helder Guégués às 16:59 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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«Local», outra vez

Um indígena inglês, digamos

 

 

      Ainda recentemente o vimos aqui. «Não param de entrar. Brancos, negros, velhos, novos, famílias com crianças de colo, bêbados (há um que insiste à porta em convencer alguém a pagar-lhe mais uma ginjinha) e sóbrios. E estrangeiros, claro. Um estrangeiro paga sempre uma ginjinha quando é cravado e o local paga-lhe com uma graçola num inglês arranhado» («Uma ginjinha, com ou sem?», Alexandra Prado Coelho, «2»/Público, 29.12.2013, p. 34).

 

  [Texto 3737]

Helder Guégués às 16:28 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Cadeias e redes

Chain?

 

 

      «Nessa era de expansão, na qual a rede de jornais de Hearst convertera-se em fator político indiscutível no cenário do país, era visível a suspeita pública crescente aos propósitos de Hearst» (Império de Palavras, Jacques A. Wainberg. Porto Alegre: EdiPUCRS, 2003, 2.ª ed., p. 155).

      Talvez se use mais «cadeia de jornais», «cadeia de supermercados», mas será o mesmo? Uma das acepções de rede, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é «conjunto de pessoas, estabelecimentos ou organizações que trabalham comunicando entre si, sob uma direcção central». Parece ser o caso. A mesma acepção encontramos para cadeia no Aulete: «Conjunto de estabelecimentos, lojas etc. pertencentes a uma mesma empresa ou que atuam no mesmo ramo: cadeia de supermercados; cadeia de cinemas.» E talvez só no Aulete.

 

  [Texto 3736]

Helder Guégués às 16:14 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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«Número dois»

Pode ir para os dicionários

 

 

  «E com o CDS, o partido mais à direita, também não houve naturalmente problemas – até porque o seu número dois era igualmente um católico praticante, membro do Opus Dei com voto de celibato: Adelino Amaro da Costa» (Política à Portuguesa, José António Saraiva. Cruz Quebrada: Oficina do Livro, 2007, p. 100).

 

  [Texto 3735]

Helder Guégués às 14:04 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Dez 13

«Écran/ecrã»

Por uma vez

 

 

      «Os portugueses já nem se devem lembrar dele: o homem nomeado como novo director de Informação da RTP é um jornalista quase desaparecido dos écrans de televisão» («Novo director de Informação da RTP suscita surpresa», Alexandra Campos, Público, 29.12.2013, p. 17).

    Julgava que só em França se continuava a escrever desta maneira. Curiosamente, é dos poucos casos em que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora faz uma remissão para levar a sério: de écran para ecrã.

 

  [Texto 3734]

Helder Guégués às 13:28 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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