14
Jan 14

Léxico: «cróquete»

Para fazer companhia ao uíste

 

 

      «Por algum tempo, dei-me muito bem com essas quatro. Viajavam de comboio, montavam a cavalo, jardinavam e também jogavam muito cróquete» (Autobiografia, Agatha Christie. Tradução de Maria Helena Trigueiros. Lisboa: Livros do Brasil, [1978], «Colecção Dois Mundos», p. 110).

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o que podemos ler é — «croquet», acreditem. Tem receio que o confundamos com «croquete». Inacreditável.

 

  [Texto 3857]

Helder Guégués às 23:39 | comentar | ver comentários (3) | favorito

Léxico: «mangra»

Não ponho as mãos no lume

 

 

    «Retive pedaços de conhecimentos assim adquiridos: — Quais são as três doenças do trigo? — Mangra, míldio e ferrugem» (Autobiografia, Agatha Christie. Tradução de Maria Helena Trigueiros. Lisboa: Livros do Brasil, [1978], «Colecção Dois Mundos», p. 107).

  «Rust, mildew, and soot», lê-se no original. Não conhecia a palavra mangra: «ferrugem dos trigos», diz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. E quanto ao Dicionário de Inglês-Português da mesma editora, vemos que «rust» é a «ferrugem das plantas, mangra, alforra»; «mildew» é inequívoco e «soot» não tem uma acepção botânica, mas a primeira acepção é «fuligem» e a segunda «ferrugem de chaminé». Nas traduções, quase tudo o que diz respeito a botânica e a zoologia é fonte de incerteza.

 

  [Texto 3856]

Helder Guégués às 23:21 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Portal «Ensina»

Vamos experimentar

 

 

      Conhecem o Efeito Martha Mitchell? Não? Pesquisem. Conhecem o Efeito Dunning-Kruger? Não? Pesquisem. Está bem, revelo alguma coisa deste último. No fundo, sugere que quanto menos competentes são as pessoas, mais tendem a sobrevalorizar os seus conhecimentos. Ora, nós já vimos isto, por aqui e em todo o lado. Conhecem o novo portal Ensina, da RTP? Não? Pesquisem. Só desejo que não tenha lá erros do calibre daquele que — apesar dos meus avisos — ainda está no Prontuário Sonoro, também da RTP; «uxorcida», lembram-se? Bem, já dei uma olhadela, e, por exemplo nesta secção, temos entrevistas com escritores. Fica aqui na barra ao lado.

 

  [Texto 3855]

Helder Guégués às 21:35 | comentar | favorito
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Como se escreve nos jornais

Nisto andamos

 

 

      «Os depoimentos prestados em tribunal pelos finalistas dessa altura são esclarecedores: embora não constassem dos regulamentos internos, os castigos que aplicavam aos mais novos faziam parte da tradição do Colégio Militar, tendo “um cariz pedagógico”. Consistiam sobretudo em exercícios forçados — flexões, abdominais, saltos agachados —, mas também em “caldos”, nome dado às palmadas aplicadas na zona do pescoço. [...] A juíza que analisou o caso nos juízos criminais de Lisboa considerou provado que um dos seus agressores, José Maria Ferreira, com 17 anos, sabia perfeitamente que agia contra a lei, quando o obrigava a exercícios forçados ou lhe aplicava “caldos”» («Juízes desculparam agressões de aluno do Colégio Militar a colega em 2008», Ana Henriques, Público, 14.01.2014, p. 8).

      A explicação do que é um caldo deve ser para os leitores extraterrestres, que o Público, como outros jornais portugueses, deve ter. As aspas só podem servir para atingir o número requerido de caracteres. Deixe-se disso, cara Ana Henriques.

 

  [Texto 3854]

Helder Guégués às 08:02 | comentar | favorito
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Itálico ou maiúscula

Dar a volta ao texto

 

 

  «Não existiam, é claro, passaportes nem quaisquer formulários a preencher. Comprava-se apenas a passagem, reservava-se uma cabina-leito e não era preciso mais nada. Era a própria simplicidade. Mas, fazer as malas! (Somente o itálico pode dar uma ideia do que isso, realmente, significava)» (Autobiografia, Agatha Christie. Tradução de Maria Helena Trigueiros. Lisboa: Livros do Brasil, [1978], «Colecção Dois Mundos», p. 77).

   No original: «There were, of course, no passports or any forms to fill in. You bought tickets, made sleeping-car reservations, and that was all that had to be done. Simplicity itself. But the Packing! (Only capital letters would explain what packing meant.)» Afinal não era apenas o itálico que podia dar a ideia; mas a solução é engenhosa.

 

  [Texto 3853]

Helder Guégués às 07:36 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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14
Jan 14

«Pão dormido»?

Vai ser assim

 

 

      Nos próximos tempos, a receita vai ser esta: Botas à noite, Agatha de manhã. Até ficardes de nervos destrambelhados e... Estou a brincar, mas só um pouco.

    «Retirei-me para o jardim com Tony, mastigando uma enorme côdea de pão dormido, obtida de Jane, na cozinha, e comecei a cogitar, tentando visualizar as montanhas» (Autobiografia, Agatha Christie. Tradução de Maria Helena Trigueiros. Lisboa: Livros do Brasil, [1978], «Colecção Dois Mundos», p. 76). «An enormous crust of dry bread», lê-se no original. Creio que também podia ser stale bread, mas falemos da tradução, que para isso aqui estamos. Para mim e para muita gente, seria «pão de véspera» ou mesmo «pão duro», mas já tenho ouvido, reconheço, a expressão «pão amanhecido»; «pão dormido» é a primeira vez. E mais: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «dormido» — de data anterior, de dia anterior — como moçambicanismo.

 

  [Texto 3852]

Helder Guégués às 07:26 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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