16
Jan 14

«Um Watts, dez Watts»

E não volto a falar nisto

 

 

      «My mother retired to her bed exhausted and weeping, and Mr and Mrs Watts to their hotel–Mrs Watts no doubt also to weep. Such appears to be the effect of wedding on mothers. The young Wattses, my cousin Gerald and I were left to view each other with the suspicion of strange dogs, and try to decide whether or not we were going to like each other», escreveu a Sr.ª Mallowan. Neste caso, dos nomes que terminam em s, quer os tradutores pluralizem os apelidos quer não, é tudo igual: «A minha mãe recolheu à cama, exausta e chorosa, e Mr. e Mrs. Watts ao hotel — Mrs. Watts, sem dúvida, também chorosa. Parece ser esse o efeito dos casamentos nas mães. Os jovens Watts, o meu primo Gerald e eu ficámos a olhar uns para os outros com a deconfiança de cães desconhecidos e a tentar decidir se íamos ou não gostar uns dos outros» (Autobiografia, Agatha Christie. Tradução de Elsa T. S. Vieira. Alfragide: Edições Asa II, 2011, p. 125). «A minha mãe foi depois deitar-se, exausta e chorosa, e o Sr. e a Sr.ª Watts foram para o hotel – onde, possivelmente, a Sr.ª Watts também chorou. Este é, segundo parece, o feito dos casamentos nas mães dos noivos. Os jovens Watts, o meu primo Gerald e eu fomos deixados sozinhos e olhávamo-nos suspeitosamente, como cachorros que não se conhecem, cogitando se poderíamos ou não entender-nos uns com os outros» (Autobiografia, Agatha Christie. Tradução de Maria Helena Trigueiros. Lisboa: Livros do Brasil, [1978], «Colecção Dois Mundos», p. 134). Para quê acrescentar um s se o nome já termina em s no singular? Podemos fazê-lo, decerto, mas fica pouco natural e — argumento mais ponderoso — até no inglês, como vimos aqui, por vezes não se acrescenta o s. Recapitulando: decisivo é como se faz em português. No caso da língua inglesa, podemos afirmar que a pluralização dos apelidos é igual à nossa. Há línguas, contudo, em que não é assim, como já vimos em relação aos nomes russos. Decisivo, porém, repito, é como se faz em português. O recado do tal autor referia-se também a este aspecto, que usou como mais um argumento para não aceitar a pluralização dos apelidos: «No texto, o revisor não passou a família Watts para o plural (porque em português 1 Watts ou 10 Watts indica-se da mesma maneira: o próprio nome já termina em s).»

 

  [Texto 3869]

Helder Guégués às 23:22 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Atchim/atxim»

Vendo bem

 

 

      Ao almoço, a minha filha trouxe uma adivinha da escola: «Está na garganta,/Está no nariz,/Começa por a,/Acaba por um x.» Ahn... Hum... Não sei, desisto. «É o espirro, papá!» Hã?! «O espirro: atx.» Talvez em nenhum dicionário esteja registado atxim, mas, dada a sua natureza onomatopaica, é caso para dizer que é indiferente escrever atchim ou atxim. Aliás, já a vi algumas vezes com a esta última grafia.

 

  [Texto 3868]

Helder Guégués às 16:50 | comentar | favorito
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«Separador central»

É só esperar

 

     

      Ontem usei aqui a expressão «separador central» («canteiro central», no Brasil); vejo agora que não está em nenhum dicionário. Um dia estará.

 

  [Texto 3867]

Helder Guégués às 16:49 | comentar | ver comentários (26) | favorito
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Sobre «uísque»

Ora toma

 

 

      No episódio de ontem do programa The Layover, no 24 Kitchen, Anthony Bourdain estava em Dublim, na Irlanda, a provar os petiscos do sítio. Nem uma só vez, para espanto meu, nas legendas se viu outra palavra que não «uísque». Bem gostava de deixar o nome do tradutor, mas a velocidade a que passou (que falta de respeito) no fim não me permitiu vê-lo. Não é nada de extraordinário, podem contrapor. Não estou de acordo: é que há (e eu já o afirmei uma vez no Assim Mesmo) editoras que dão instruções escritas a revisores e tradutores em que figura esta de não traduzir nunca, entre outras, a palavra «whisky». Impressionante.

 

  [Texto 3866]

Helder Guégués às 11:04 | comentar | ver comentários (9) | favorito
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16
Jan 14

Maiúsculas e minúsculas com nomes de regiões

Vamos pensar nisto

 

 

      «Kate Moss chega aos 40 anos com festa nas ilhas Virgens», é o título de uma notícia de hoje, assinada por Raquel Costa, na página 53 do Diário de Notícias. Será mesmo assim que devemos escrever, «ilhas Virgens»? Se considerarmos que o conjunto é que forma o topónimo, temos de grafar com maiúscula inicial ambas as palavras. É o que faz e recomenda muita gente. É o que faz e não faz (!) o Público numa mesma edição. «Nas vésperas da chegada dos líderes dos sete países mais industrializados do mundo, a que se junta a Rússia, Cameron negociou um acordo com os territórios que estão sob dependência britânica, como Gilbraltar, Bermudas, Ilhas Virgens, Jersey e Caimãs, para atacar a evasão e fraude fiscal» («Evasão fiscal no centro da agenda dos líderes das oito maiores economias», Luís Villalobos, Público, 17.06.2013, p. 18). «Para mostrar que, desta vez, haverá mais do que declarações de boas intenções, o primeiro-ministro britânico anunciou um acordo com territórios sob a soberania britânica onde existem paraísos fiscais, como Gibraltar, Bermudas, ilhas Virgens, Jersey, e Caimão que impõe a identificação dos titulares de sociedades que apenas servem de instrumento para a fuga ao fisco» («O fisco e o paraíso» editorial, Público, 17.06.2013, p. 43). Mas será mesmo assim? Não se recomenda também que, nos substantivos que significam acidentes geográficos, seguidos ou não das designações que os especificam toponimicamente, se deve usar minúscula? É esta regra, que tem excepções consagradas pelo uso, que eu sigo.

 

  [Texto 3865] 

Helder Guégués às 08:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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