18
Jan 14

Interjeições, de novo

Nunca ouvi, e não sou surdo

 

 

    «Uma severa irritação começou a despontar-lhe na orla da mente. Um “tsk” quase se lhe escapou dos lábios» (Morte na Aldeia, Caroline Graham. Tradução de Mário Dias Correia. Alfragide: Asa II, 2013, p. 13).

      Não se escapou da boca da personagem, mas escapou, ufana, das teclas do tradutor. Infelizmente. Só era necessário ver que sentimento exprime a interjeição — desaprovação ou irritação, dizem os dicionários — e, de seguida, encontrar uma, das várias que temos, usada entre nós.

 

  [Texto 3876]

Helder Guégués às 20:15 | comentar | ver comentários (2) | favorito

«Rainha Ana»

Aqui não há desculpa

 

 

   «Viu a mesa Queen Anne de madeira lavrada, coberta pela toalha de renda bordada da tia Rebecca, a transbordar de iguarias» (Morte na Aldeia, Caroline Graham. Tradução de Mário Dias Correia. Alfragide: Asa II, 2013, p. 11).

    Não é obsessão minha, mas, francamente, que tem de especial para não se traduzir, pode saber-se? Não estou só nesta opinião: «Era uma casinha estilo rainha Ana encantadora, bastante próxima da estrada, mas por trás tinha um jardim com uma horta murada – maior do que queríamos – e, por baixo disso, aquilo que Max sempre considerara ideal: prados que se estendiam até ao rio» (Autobiografia, Agatha Christie. Tradução de Elsa T. S. Vieira. Alfragide: Edições Asa II, 2011, p. 509).

 

  [Texto 3875]

Helder Guégués às 19:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas:

Ortografia: «corezinhas»

Retomando a questão

 

 

      «Quando é que esta gente troca as corezinhas por uns sinais pretos e brancos?» Assim terminava uma crónica («As malditas cores», p. 31) de Jorge Miguel Matias na edição de 19 de Junho de 2006 no Público. Não o lemos muitas vezes, é verdade, mas o leitor Rui Almeida disse-me que se deparou com ele na obra Animalescos, de Gonçalo M. Tavares (Lisboa: Relógio D’Água Editores, 2013). Está certo, mas, corrijo agora o que afirmei acerca do diminutivo de «mulher», só no plural, porque o e só pode provir do plural: cores — corezinhas. O plural dos substantivos que têm os sufixos -zinho(a) e -zito(a) formam-se pluralizando ambos os elementos, palavra primitiva e sufixo, com queda do s da desinência (mas, na Crónica de D. João II, aparecem uns «gibõeszinhos»). Ou da forma usual. Não me parece, ao contrário do que afirmam alguns autores, que haja aqui intuitos puristas; lêem-se diminutivos assim formados em todo o género de textos. Claro que alguns têm mais sorte: se se vêem pouquíssimas «mulherezinhas», já se vêem mais «florezinhas», e mesmo algumas «dorezinhas». E até «colherezinhas» e «pastorezinhos».

 

  [Texto 3874]

Helder Guégués às 14:57 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: ,

Mademoiselle Gayet

Se é isso que pensam

 

 

      «Só que o sr. Hollande é Presidente e, como 
tal, precisa de exibir uma certa gravitas e, no dia seguinte, quando se resolveu a revelar uma nova política económica, nenhum dos presentes deixou com certeza de ver por baixo da figura pomposa do chefe do Estado o “estafeta de pizza”, com a sua scooter e o seu capacete, saindo furtivamente do Eliseu a caminho da sra. Gayet
 e dos croissants dos Serviços Secretos» («Falta de imaginação», Vasco Pulido Valente, Público, 18.01.2014, p. 48).

      Agora imaginem que alguém corrigia o que o nosso cronista escreveu: Mademoiselle Gayet e não Sra. Gayet (aqui sou eu que o corrijo). Apesar de muito rodada, Julie Gayet ainda é, presumo, solteira, daí o mademoiselle. Se os Brasileiros têm uma forma própria de tratamento para as mulheres novas não casadas, senhorita, nós não temos. Quer dizer, não temos, mas de quando em quando usamos esta. A personagem Fräulein Krömeier, do romance alemão Er Ist Wieder Da, de Timur Vernes, é a senhorita Krömeier na tradução para português, publicada pela Lua de Papel. Contudo, poucos são os tradutores portugueses (ou, por vezes, autores, se as personagens são inglesas) que prescindem de Mr., Mrs. e Miss. E, por causa disto, também mandam recados: «Sra. *** (em português) só indica que ela já não é nova: não indica que é casada, como ocorre na língua inglesa.» Para eles, esta que nos calhou é uma língua de merda, falha dos melhores meios de expressão. Uma tristeza.

 

  [Texto 3873]

Helder Guégués às 09:55 | comentar | ver comentários (7) | favorito
Etiquetas:
18
Jan 14

«Mórmon/mórmones»

Aponte aí

 

 

      «Plataformas como o Geneall.net, onde é possível, por subscrição, ter acesso a informação já trabalhada por milhares de pessoas e comprar obras importantes para o estudo aprofundado da origem de diversos nomes, ou a mundialmente conhecida Family Search — o motor de pesquisa fundado pelos mórmons —, de acesso gratuito e com bases de dados de todo o planeta, são outros recursos importantes para quem está a dar os primeiros passos. E são muitos a fazê-lo. [...] Reconhecidos mundialmente como os maiores cultores da genealogia, por motivos religiosos, os mórmons, que já fazem o favor de nos guardar microfilmes dos arquivos portugueses no Utah, estão, em Portugal como noutros países, a empreender esse trabalho de indexação, numa base de dados, dos microfilmes entretanto digitalizados» («A Internet democratizou a genealogia», Abel Coentrão, Público, 18.01.2014, pp. 14-15).

      A pesquisa que o jornalista fez para os sítios de genealogia tinha de ser feita – ou os leitores não o merecem? – em relação à língua, em relação à ortografia. O plural de mórmon é, caro Abel Coentrão, mórmones. Aponte. Ah, no Brasil admitem o plural «mórmons», é? Só a emigração pode resolver o problema.

 

  [Texto 3872] 

Helder Guégués às 08:57 | comentar | favorito
Etiquetas: ,