21
Jan 14

Tradução: «assumption»

Se fosse uma vez

 

 

      Outra coisa sumamente irritante nas traduções do inglês é a «assunção». E não é a Cristas nem a Esteves, mas a assunção-assunção, a assumption inglesa. «Na altura, desconfiara da sua própria e imediata assunção» (Morte na Aldeia, Caroline Graham. Tradução de Mário Dias Correia. Alfragide: Asa II, 2013, p. 200). «Picado por esta condescendente assunção de que ele não passava de um bófia ignorante e preconceituoso, Barnaby retorquiu:» (idem, ibidem, p. 278). Pois é, mas alguém fala assim? Ninguém. Logo... Suposição (e, por vezes, hipótese) traduz bem a palavra.

 

  [Texto 3898]

Helder Guégués às 15:19 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «I’m afraid»

Receios, medos e pavores

 

 

      «– Receio que não» (Morte na Aldeia, Caroline Graham. Tradução de Mário Dias Correia. Alfragide: Asa II, 2013, p. 103). «– Receio que não. – A voz encheu-se-lhe de pena» (idem, ibidem, p. 123). «– Receio não poder garantir-lhe isso» (idem, ibidem, p. 172) «– Nada, receio. Nós...» (idem, ibidem, p. 191). «– Receio que não haja a mínima dúvida» (idem, ibidem, p. 242). «– Receio que este papel diga que posso» (idem, ibidem, p. 248).

      Isto só se vê nas traduções do inglês, e é irritante. Estaria certo, se nós falássemos desta maneira, mas não falamos. Há várias e excelentes formas de traduzir este omnipresente I’m afraid, como «infelizmente», «lamento», «desculpe, mas», e outras.

 

 

  [Texto 3897]

Helder Guégués às 10:54 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «piecrust table»

Essa é a verdade

 

 

    «Reviu a mesa de bordos levantados em Beehive Cottage com a sua pequena pilha de livros» (Morte na Aldeia, Caroline Graham. Tradução de Mário Dias Correia. Alfragide: Asa II, 2013, p. 310).

    São assim as coisas: eles têm algumas formas de dizer que invejamos e eles invejam algumas formas de dizer que nós temos. Aquela «mesa de bordos levantados» (que também aparece como «pequena mesa de rebordo lavrado e levantado» e «pequena mesa de rebordo lavrado») é, para eles, simplesmente uma piecrust table (ver aqui). Analogias.

 

  [Texto 3896]

Helder Guégués às 10:27 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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21
Jan 14

Tradução: «coroner»

Isso é que não

 

 

      «O merinho leu o depoimento do Dr. Trevor Lessiter, no qual o médico fazia questão de deixar bem claro que, ao examinar a vítima, notara sem dúvida o congestionamento dos pulmões, mas que estando, na altura, a tratar Miss Simpson de um ataque de bronquite, o facto não o surpreendera» (Morte na Aldeia, Caroline Graham. Tradução de Mário Dias Correia. Alfragide: Asa II, 2013, pp. 187-88).

    A história passa-se na Inglaterra, em 1987. Lemos «meirinho» e ficamos logo de pé atrás. E que está no original? Isto: «The coroner took his seat and the inquest began. The statement of Doctor Trevor Lessiter was read out. In it he made the point  most strongly that, on examining the deceased, he certainly had noticed  congestion of the lungs, but as he was treating Miss Simpson at the time for  bronchitis he thought the fact hardly surprising.» Umas escassas linhas mais à frente, o coroner já é um magistrado: «O magistrado disse que não havia culpas a atribuir naquela questão e o médico olhou duramente para o jornalista do Causton Echo, para se certificar de que ele tomara devida nota» (idem, ibidem, p. 188). No original: «The coroner said there was no blame to be apportioned in this matter and the  doctor stared hard at the reporter from the Causton Echo to make sure he’d got that down.» Já tínhamos aqui problemas de sobra, mas eis que, junto do magistrado, surge o verdadeiro meirinho, coisa que só os leitores do original saberão: «[Os jurados] Estavam completamente empolgados, de olhos fixos no magistrado. Uma mulher pusera-se muito pálida. Um meirinho aproximou-se e murmurou-lhe qualquer coisa, mas ela abanou a cabeça, chegando-se mais para a frente na cadeira» (idem, ibidem, p. 189). No original: «They were totally engrossed,  looking intently at the coroner. One woman had gone very white. An usher crossed to her and murmured something but she shook her head, edging further forward in her seat.»

      Já andámos, noutras ocasiões, à volta da tradução de «coroner», mas no âmbito do ordenamento jurídico norte-americano. Está em causa a correspondência entre uma e outra realidade. O usher é o nosso oficial de justiça (e abstraímos da categoria). O coroner, que pode ser advogado, procurador ou médico, podíamos fazê-lo equivaler ao nosso juiz de instrução, mas é mais um oficial de justiça independente sem correspondência exacta no nosso ordenamento. «Magistrado», pela amplitude do conceito, pode ser uma solução aceitável. Mais sugestões?

 

  [Texto 3895]

Helder Guégués às 09:57 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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