30
Jan 14

Tradução: «standard procedure»

Os basbaques da língua

 

 

      «O procedimento standard era simular a paragem do motor» (O Voo das Águias, Ken Follett. Tradução de Isabel Nunes e Helena Sobral. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2013, 3.ª ed., 138).

      Como se fosse necessário o «standard». Enfim. Standard procedure. Um tradutor olha para isto e parece insuperável, intraduzível. Francamente. No caso, «procedimento recomendado» chega muito bem para o traduzir. Aliás, recorrem ao estrangeirismo não apenas tradutores, mas autores de língua portuguesa. São como dois partidos nada rivais: os basbaques da língua (BL) e os maluquinhos da língua (ML).

 

[Texto 3948]

Helder Guégués às 08:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Meia-hora»/«meia hora»

Paletes de hífenes

 

 

      «Bastou de facto mergulhar os linfócitos durante cerca de meia-hora na solução para se constatar que, passados uns dias, uma substancial proporção das células iniciais tinha sobrevivido e regressado à estaca zero do desenvolvimento, formando pequenos aglomerados esféricos, lê-se na Nature» («Nova técnica cria células capazes de originar todos os tecidos do corpo», Ana Gerschenfeld, Público, 30.01.2014, p. 27).

     Com hífen, Ana Gerschenfeld? Também existe: são as doze horas e trinta minutos (no relógio). Não deve passar uma semana que não veja este erro.

 

  [Texto 3947] 

Helder Guégués às 06:53 | comentar | favorito
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30
Jan 14

A importância da língua

É o mínimo, não é?

 

 

      «Para Germano de Almeida, conferencista transformado em contador de histórias para explicar que a língua portuguesa lhe é tão importante que chegou a acabar um namoro porque alguém lhe escreveu num papel “penço em ti” — “Como poderia eu continuara [sic] a namorar uma mulher que escrevia ‘penso’ com ç?” —, o português é uma “ponte entre culturas”. Admitindo que o usa para escrever porque lhe é natural fazê-lo e lhe permite chegar a uma audiência mais vasta, o autor continua a defender o crioulo como “língua de intimidade”, feita para “trazer no dia-a-dia”: “O cabo-verdiano namora em crioulo. Não [lhe] passa pela cabeça dizer ‘amo-te’ a uma mulher. ‘Amo-te’ é uma palavra violenta.”» («É na canção brasileira que melhor se vê a líbido da língua portuguesa», Lucinda Canelas, Público, 30.01.2014, p. 30).

 

 

  [Texto 3946] 

Helder Guégués às 06:37 | comentar | favorito (1)
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29
Jan 14

Tradução: «lopsided smile»

Um mundo à parte

 

 

      «Jim Schwebach com o seu sorriso assimétrico, como se soubesse algo que ninguém sabia» (O Voo das Águias, Ken Follett. Tradução de Isabel Nunes e Helena Sobral. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2013, 3.ª ed., p. 137).

      Creio que é das tais coisas que só existem nas traduções. Na literatura portuguesa, há sorrisos tortos, sorrisos de esguelha, sorrisos oblíquos...

 

  [Texto 3945]

Helder Guégués às 23:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «mostly»

Basicamente, é assim

 

 

      Vem uma personagem e pergunta a outra o que está a fazer. «A reservar bilhetes de avião, basicamente» (O Voo das Águias, Ken Follett. Tradução de Isabel Nunes e Helena Sobral. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2013, 3.ª ed., p. 127). No original: «Making plane reservations, mostly.» «Basicamente». Parece um futebolista sul-americano a responder. Nada de tiradas xenófobas: parece um futebolista português.

 

  [Texto 3944]

Helder Guégués às 22:54 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Tradução: «cotton broker»

Bacharéis e corretores

 

 

      «O pai, Gabriel Ross Perot, fora corretor de algodão» (O Voo das Águias, Ken Follett. Tradução de Isabel Nunes e Helena Sobral. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2013, 3.ª ed., p. 112).

    Parece que há muitos no Brasil; nós é que não temos disso. É uma acepção menos conhecida do vocábulo «corretor»: mediador entre um comprador e um vendedor que recebe uma comissão (designada corretagem) pelos serviços prestados. Uma que não tem nada que ver com esta, e mais rara que «occisar» e mesmo «escol», é corretã, que é outro nome para roldana. «O bacharel podia ter uma agonia mais suave, se não discutisse. Pedro Serrão fora mais discreto na sua estóica impassibilidade. Morrer por morrer, antes estrangulado pela corretã do carrasco do que pela fumarada dos toros embreados» (Páginas quase Esquecidas, vol. 2, Camilo Castelo Branco. Porto: Editorial Inova, s/d, p. 189).

 

  [Texto 3943]

Helder Guégués às 14:19 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Regência de «repúdio»

E se lesse um pouco?

 

 

      «Repúdio pelo diferente», escreve aqui o autor, que rejeitou a minha emenda. Está errado. «Desta incompatibilidade nasce o desentendimento com o advogado, o crescente isolamento final e, concomitantemente, com o total repúdio do mundo dos outros e dos valores que eles encarnam, uma progressiva e profunda identificação consigo mesmo» (A Felicidade em Albert Camus, Marcello Duarte Mathias. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2013, 3.ª ed., p. 193).

 

  [Texto 3942]

Helder Guégués às 11:34 | comentar | ver comentários (10) | favorito
29
Jan 14

Sobre: «elite»

Gente de eleição

 

 

      «Élite. Francesismo dos mais vulgarizados, até com pronúncia esdrúxula e aberta! E nós em português possuímos vários termos que lhe correspondem perfeitamente: escol, boa sociedade, alta roda, a gente fina, a aristocracia; nata, flor, fina flor; beijinho. E note-se que escolhida “élite” é disparate equivalente a escolhida escolhida.// Classes d’élite serão em português — classes superiores.// Les gents d’élite, na nossa língua — gente de eleição» (Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português, vol. 1, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, p. 1268.).

 

  [Texto 3941]

Helder Guégués às 10:25 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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