07
Fev 14

Léxico: «empurranço»

Olha, está bem visto

 

 

      «Numa prova [de bobsleigh] em Calgary, penso que em 1992, ficámos por volta do 30.º lugar”, conta o antigo varista [Nuno Fernandes], que ainda foi algumas vezes aos campeonatos de push (empurranço) no Mónaco promovidos por Alberto Grimaldi» («Procuram-se portugueses para empurrar um trenó», Marco Vaza, Público, 7.02.2014, p. 7).

    Nunca lhes tinha posto a vista em cima, mas está bem, sobretudo o empurranço para traduzir push.

 

[Texto 4004]

Helder Guégués às 15:01 | comentar | favorito
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Ortografia: «euro-asiático»

Não vejo motivos para discordar

 

 

      «Vladimir Putin lembrou, a propósito dos Jogos Olímpicos de Sochi, a memória do “entusiasmo optimista” que sentiu durante os Jogos Olímpicos de Moscovo, quando trabalhava na polícia secreta da URSS. Os 34 anos que separam os dois eventos mostraram que duas coisas não mudaram na maior nação do planeta: o desejo de ser uma superpotência e a incapacidade em ultrapassar os obstáculos que a separaram dessa condição. A URSS de 1980 tinha invadido o Afeganistão (o que levou ao boicote dos Jogos pelos EUA e vários países ocidentais) e nada parecia indiciar que entrara já no seu ocaso. A Rússia de 2014 reconquistou protagonismo internacional. Do Médio Oriente à Ucrânia, Putin explora o recuo do Ocidente, procura o sonho da potência euroasiática» («Os apogeus desafinados», editorial, Público, 7.02.2014, p. 54).

   Parece que há por aí muitas dúvidas, mas Rebelo Gonçalves, no seu Vocabulário da Língua Portuguesa, regista «euro-asiático» (p. 435).

 

[Texto 4003]

Helder Guégués às 12:20 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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Andar de charrua

De ceifeira já vi

 

 

  «Foi hoje aprovado o “mapa judiciário” português, ou seja, a reorganização do sistema de justiça. Vinte tribunais são fechados e 27 são transformados em “secções de proximidade”. O país fica com 264 tribunais. São conhecidos os casos do Tribunal da Pampilhosa da Serra, que tinha 80 processos por ano, ou de Armamar, cuja população caiu 22% nos últimos dez anos. Os tribunais extintos eram usados por 0,1% das suas populações. Esta reforma faz sentido. As mudanças não se fazem sem dor, diz a ministra, e é verdade. Entre Boticas e Vila Real distam 64km [sic]. Já não andamos de charrua, mas não será fácil ir de um ponto ao outro sem carro ou se não existir uma ligação de transportes públicos. Mas no município de Boticas vivem menos de seis mil pessoas. A reforma não é perfeita e só o tempo mostrará se o que é sensato no papel — concentrar recursos onde há mais processos — acelera de facto a justiça. Não está extinta a “crise da justiça”. Mas é um passo em frente» («Uma reforma que faz sentido», editorial, Público, 7.02.2014, p. 54).

    Alguma vez andámos de charrua pelas estradas? Ah, mas esperem: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz que charrua também é o navio ou automóvel ronceiro...

 

[Texto 4002] 

Helder Guégués às 11:24 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Sobretudo o plural

Tirou-me as palavras da boca

 

 

      «Por tudo isto, espanta agora que se diga, na oposição e no Governo, que os Mirós do antigo BPN, adquirido por meios que por enquanto ainda não se tornaram claros, ascenderam a “património nacional”. Não o são pela origem, não o são pela natureza e, principalmente, pelo quase nulo peso que exerceram sobre a pintura local. Conservar aqui uma colecção de 85 Mirós não faz qualquer sentido, nem servirá (na falta de um verdadeiro museu de arte moderna, decentemente organizado) para instruir ninguém. A polémica sobre a colecção Miró é outra triste manifestação da saloiice atávica. Não se investe na reabilitação urbana, nem em monumentos em ruínas ou perto disso, nem em bibliotecas, nem em arquivos. Mas precisamos, urgentemente, de 85 Mirós» («A que propósito andamos nós preocupados com Miró?», Vasco Pulido Valente, Público, 7.02.2014, p. 60).

 

[Texto 4001] 

Helder Guégués às 11:03 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Tradução: «electrician’s tape»

Visita de estudo ao Aki

 

 

      «Perot queria que os Range Rover [sic] fossem facilmente identificáveis a partir do [sic] ar e propunha que ostentassem um grande “X” no tejadilho, que poderia ser pintado ou desenhado com fita adesiva preta de electricista» (O Voo das Águias, Ken Follett. Tradução de Isabel Nunes e Helena Sobral. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2013, 3.ª ed., p. 358).

   Quase em inglês, electrician’s tape. Em português é, muito mais simplesmente, fita isoladora. Em inglês também se diz duct tape, que é o que se lê na obra Leviathan, de Paul Auster. Na tradução ficou assim: «Encontrou rolos de fio eléctrico, relógios despertadores, chaves de fenda, chips de computador, cordel, massa de vidraceiro e vários rolos de fita isoladora preta» (Leviathan, Paul Auster. Tradução de Vieira de Lima. Porto: Asa Editores, 2007, 2.ª ed., p. 173).

 

[Texto 4000]

Helder Guégués às 08:09 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Os galões americanos

Porque é demasiado volátil

 

 

      «Coburn e Taylor também tinham de ir buscar o bidão de duzentos e vinte litros [55-gallon drum of fuel] de combustível, que Majid lhes guardara» (O Voo das Águias, Ken Follett. Tradução de Isabel Nunes e Helena Sobral. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2013, 3.ª ed., p. 352).

      No original, é sempre 55-gallon; na tradução, já foram convertidos para 200, 220 e 250 litros. Como não é uma edição bilingue, o leitor não fica a saber de nada. É um descanso.

 

[Texto 3999]

Helder Guégués às 08:04 | comentar | favorito
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Tradução: «banana clip»

Não é desta

 

 

    «Os guardas estavam tão ocupados a enfiar um tambor tipo banana [banana clip] numa pistola automática que não recebia esse tipo de munições que não repararam nos três automóveis» (O Voo das Águias, Ken Follett. Tradução de Isabel Nunes e Helena Sobral. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2013, 3.ª ed., p. 341).

      Até aqui traduzido (!) por «clipe», agora já se transmutou em «tambor». Também não é a tradução correcta, pois tambor é o carregador cilíndrico de certas armas automáticas. Este — banana clip — é um carregador do tipo banana, como podem ver aqui.

 

[Texto 3998]

Helder Guégués às 08:01 | comentar | favorito
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07
Fev 14

O lugar do § 278

Espero que fosse para o Céu

 

 

      «– Morreu, sim – expliquei, sufocando os soluços e enxugando o pranto. – Espero que fosse para o Céu, onde talvez um dia nos possamos reunir todos se nos acautelarmos e deixarmos o mau caminho para seguir o bom» (O Monte dos Vendavais, Emily Brontë. Tradução de Maria Franco e Cabral do Nascimento. Lisboa: Portugália Editora, 1965, p. 165).

      «§ 278. O conjunctivo não tem pret. perf. def., mas só pret. indef. (v. g.: elle tem estado doente; não creio que ele tenha estado doente). Esta falta é supprida pelo pret. imperf., que portanto vem a corresponder ao indicativo, não só do pret. imperf. senão tambem do pret. perf. definido (v. gr.: elle esteve hontem doente; não creio que estivesse hontem doente) (1).

      E como o amor arcou com elle, estando com as mãos atadas, que muito he, que prevalecesse (Vieira, IV, 383, ap. Blut.) não houve diligencias que não fizesseis (Id., I, 733)» (Sintaxe Histórica Portuguesa, Epifânio da Silva Dias. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1933, pp. 214-15).

  E a nota de rodapé: «Empregar o pret. perf. do conjunctivo [tenha estado] como correspondente do pret. perfeito def. do indicativo [esteve] é d’aquelles a quem as praxes da lingoa francesa fazem esquecer as regras da syntaxe portuguesa.»

 

[Texto 3997]

Helder Guégués às 07:56 | comentar | ver comentários (5) | favorito (1)
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