16
Fev 14

Tradução: «greaseproof paper»

Esses grandes parafrastas

 

 

      «Na mochila tinha um impermeável, um lenço, uma garrafa de água, uma vela, uma caixa de fósforos, um pequeno rolo de papel higiénico e algumas sanduíches de queijo embrulhadas em papel à prova de gordura [greaseproof paper]» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., p. 52).

      Demasiadas palavras, são sempre demasiadas palavras. Quase sempre, é verdade, são mais paráfrases dos dicionários bilingues do que outra coisa. Há dezenas e dezenas de tipos de papel, para todos os fins. Ao papel que tem aquelas propriedades damos o nome de papel encerado.

 

[Texto 4052]

Helder Guégués às 17:30 | comentar | favorito
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Tradução: «junior minister»

Estou farto de juniores e seniores

 

 

      «À entrada, registaram o nome de Eva e respectivos detalhes, ela e Morris juntaram-se aos cerca de quarenta outros jornalistas e escutou o discurso do ministro júnior [junior minister] durante um minuto ou dois antes da [sic] sua mente começar a vaguear» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., pp. 85-86).

      Desculpe, senhora tradutora, mas isso não é nada. À letra é assim — mas qual a correspondência com o que temos em Portugal, com a nossa realidade? Absolutamente nenhuma, e é esse o problema. Corresponde a secretário de Estado. Pedro Lomba, por exemplo, é junior minister, mas vai ficar (vai?) na História como spokesman.

 

[Texto 4051]

Helder Guégués às 16:55 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Tradução: «splayed stick»

O leitor encolhe os ombros

 

 

      «Quando Angus chegou, houve a habitual agitação à porta: cadeiras arrastadas, criados a girar em volta, enquanto Angus transpunha com dificuldade a entrada com o seu corpo retorcido e bordões chanfrados [splayed sticks] e avançava, determinado, para a mesa onde Eva o esperava» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., p. 155).

      Um refinado agente dos serviços secretos britânicos, aleijado (espero que ainda se possa dizer a palavra), apoia-se em bordões... E mesmo «chanfrados», hum...

 

[Texto 4050]

Helder Guégués às 16:45 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Tradução: «head of station»

Ou responsável, ou...

 

 

      «— Porque os homens do SIS conhecem a minha cara. Um deles é chefe de guarnição [Head of Station] na Holanda — encontrei-o meia dúzia de vezes» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., p. 90).

      Não me parece. Só usamos o termo em relação à força militar que defende um quartel ou fortificação ou à tripulação de um navio, por exemplo, não quando se trata de agentes dos serviços secretos. Mas a tradutora, já sei, concordará comigo, pois trinta páginas mais à frente já traduziu assim: «Dos dois agentes britânicos capturados um era o chefe do posto [station-head] do SIS na Holanda e o outro dirigia a rede “Z” holandesa, um sistema paralelo de recolha de informações secretas» (idem, ibidem, p. 120). Esqueceu-se a autora — e a revisora não se lembrou — de voltar atrás e uniformizar. No processo de tradução, esta devia sempre ter sido assinalada como uma solução provisória.

 

[Texto 4049] 

Helder Guégués às 16:41 | comentar | favorito
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Tradução: «buzzer»

Não é da zoologia

 

 

      «Carregou na cigarra [buzzer] que permitiu a Eva atravessar a porta interior para o corredor mal iluminado onde se situavam os gabinetes da equipa» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., p. 118).

    Por vezes, há erros destes infelicíssimos, que, mesmo no meio de inquestionáveis acertos e até felizes achados, impressionam. Como é que tradutora e revisora não viram que buzzer, no contexto, nunca podia significar «cigarra» nem «vespa» nem nada de parecido?

 

[Texto 4048]

Helder Guégués às 16:38 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Tradução: «gatepost»

Demasiado à letra

 

 

      «Sally Gilmartin era tão sólida quanto este poste de portão [gatepost], pensei, apoiando a mão na pedra morna, percebendo ao mesmo tempo quão pouco, na verdade, sabemos realmente das biografias dos nossos pais, como são vagas e indefinidas, quase como vidas de santos — tudo lenda e historietas — a não ser que nos demos ao trabalho de escavar mais fundo» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., pp. 42-43).

      Demasiado à letra ­— e não é assim que costumamos dizer. Antes assim: «Junto ao poste da linha eléctrica, nas raízes da palmeira, no canteiro dos chorões, moncos-de-peru e, finalmente, na base do pilar do portão. Rrraaaccc. Rrraaaccc. Arrepiou-o um leve esfriar, o final do Estio. Belo, belíssimo, o Outono» (Vista da Baía ao Amanhecer, João Palma-Ferreira. Lisboa: Livros do Brasil, 1990, p. 161).

      O Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, porém, dá como equivalente de gatepost «couceira», e esta, segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é a «faixa de madeira ou barra de ferro sobre que gira e onde se pregam as dobradiças ou os gonzos». Para o Merriam-Webster, gatepost é «the post to which a gate is hung or the one against which it closes».

 

[Texto 4047]

 

Helder Guégués às 16:36 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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Tradução: «estate manager»

Lembramo-nos de Pina Manique

 

 

      «Supostamente devia parecer, supunha eu, o tipo de casaco que um inglês — nalgum mundo mitológico inglês — poria sem pensar para ir tratar dos cães, ou encontrar-se com o seu intendente [estate manager], ou tomar chá com a tia solteirona, mas tinha de confessar que não encontrara ainda nenhum conterrâneo que exibisse roupas tão finas e bem cortadas [well cut]» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., p. 39).

      «Intendente» não me parece o termo mais adequado. É verdade que «intendente» é aquele que administra ou gere seja o que for, mas é acepção que até já desapareceu de quase todos os dicionários. Não seria melhor «administrador», «administrador da propriedade», ou mesmo «feitor»?

      Quanto às roupas, não seria melhor «bem talhadas» ou, indo até mais ao encontro do original, «de bom corte»?

 

 [Texto 4046]

Helder Guégués às 16:34 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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Xangri-Lá

É de admirar

 

 

      «Era uma viagem que empreendia pelo menos duas vezes por semana e sempre que o fazia sentia que estava a ser conduzida para o coração perdido de Inglaterra — um Shangri-la verde, esquecido, invertido, onde tudo se tornava mais velho, mais bolorento e mais decrépito» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., p. 12).

      Está aportuguesado para Xangri-Lá, o equivalente a «paraíso», onde a vida cresce em amor e sabedoria. No Rio Grande do Sul, há um município com este nome. É de admirar, porque nesta tradução não faltam — alguns eu até desconhecia — aportuguesamentos, como stafe, blêizer...

 

[Texto 4045]

Helder Guégués às 16:32 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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16
Fev 14

Acontece

Só intencionalmente

 

 

      «Tudo nela parecia bem tratado e cuidado: os cabelos, as unhas, as sobrancelhas, os dentes — e tinha a certeza que esta mesma atenção aos pormenores se aplicava a outras partes dela que não eram visíveis: as unhas dos pés, a roupa interior — os pêlos públicos [pubic air] já agora» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., p. 41).

      Como revisor, sempre temi o contrário: deixar passar um «púbico» ou «pública» que devesse ser «público» ou «pública». Escola púbica. Sim, numa obra de Woody Allen está, mas intencionalmente, «escola púbica».

 

[Texto 4044]

Helder Guégués às 16:30 | comentar | favorito
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