17
Fev 14

Tradução: «can opener»

Não o diria

 

 

      «Voltaram para o parque e sentaram-se num banco sob os choupos americanos enquanto Raul abria a sua cerveja com um abridor de latas que tinha no bolso e bebia em grandes goles, não tirando a lata de dentro do saco» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., p. 217).

      «Indigno de estar aqui», diz de si para si o leitor do Linguagista. Não é. Repare: tradutora e revisora deixaram assim, quando todos sabemos que é abre-latas que se diz.

 

[Texto 4060]

Helder Guégués às 23:17 | comentar | ver comentários (13) | favorito
Etiquetas: ,

Tradução: «freight yard»

Aqui não há trolhas

 

 

    «Depois das casas de adobe dos ranchos vinham as bombas de gasolina e as oficinas de automóveis, a seguir os subúrbios bem arranjados na periferia, depois os estaleiros das mercadorias [freight yards], os silos de cereal e moagens da farinha [sic]» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., p. 214).

    Claro que as nossas operárias não se deram ao trabalho de consultar um dicionário. Fazia falta. Os freight yards são terminais de carga ou de mercadorias.

 

[Texto 4059]

Helder Guégués às 23:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Jornada de la Muerte

Que fazer?

 

 

      «Mal olhou para a paisagem enquanto guiava para sul, mas, mesmo assim, apercebeu-se das cordilheiras de montanhas acidentadas para leste e oeste, os ranchitos com as suas leiras de melões e cereais agrupadas à volta do rio e, aqui e ali, viu da estrada as extensões rochosas do deserto e as camadas de lava da famosa jornada del muerte – para lá do vale do rio a terra era dura e árida» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., p. 214).

      Está assim no original. (Na verdade, «fabled jornada del muerte».) Que deve o tradutor fazer perante um evidente erro do autor? Corrige, faz uma nota ou assobia para o lado? As notas de rodapé também estão, valha a verdade, em extinção. Bem, só pode ser Jornada de la Muerte, região desértica do Novo México, embora por vezes também se leia «Jornada del Muerto», e William Boyd, que saberá inglês e francês, de castelhano não pesca nada, pode ter confundido as duas.

 

[Texto 4058] 

Helder Guégués às 22:39 | comentar | ver comentários (6) | favorito
Etiquetas: ,

E a concordância?

Isso era dantes, pá

 

 

      «Existia uma pequena igreja húmida e escura ali perto, esmagada por enormes teixos verde-escuro que pareciam beber a luz do dia; um pub sem vida — o Peace and Plenty, onde os nossos cabelos roçavam o verniz gorduroso e repleto de nicotina do tecto do bar — uma estação dos correios com uma loja e uma licença para venda de bebidas alcoólicas, uma disseminação de cottages, algumas com telhados de colmo e verdes por causa do musgo, e interessantes casas antigas implantadas em grandes jardins» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., p. 12). «Virou o rosto belo para mim e ofereceu-me o seu famoso olhar cândido, de olhos azul-pálido muito abertos — conhecia-o bem» (idem, ibidem, p. 18).

      Parece que se consideram autorizados a não respeitar a gramática. E a concordância, caramba? Os adeptos da língua viva deploram os anémicos do saber livresco e as antiquadas regras da gramática.

 

[Texto 4057]

Helder Guégués às 14:47 | comentar | ver comentários (4) | favorito
Etiquetas:

Tradução: «was moaning profanely about»

Menos sagrado

 

 

      «Como se para ilustrar este ponto, Veronica resmungava de forma profana [was moaning profanely about] a respeito de Ian e da nova namorada e dos novos problemas que se colocavam quando ele tentava furtar-se aos fins-de-semana combinados com Avril» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., pp. 43-44).

   Mães solteiras a queixarem-se dos pais dos seus filhos. Não se adequa, nem pouco mais ou menos, ao contexto. Antes, e mais prosaicamente, isto: «Veronica queixava-se irreverentemente de Ian». Quanto aos «problemas que se colocavam», bem, é uma das maldições dos tempos modernos.

 

[Texto 4056]

Helder Guégués às 11:15 | comentar | ver comentários (8) | favorito
Etiquetas:

Tradução: «tricks of the accoustics»

Sem trapaça

 

 

      «Algum truque de acústica [tricks of the accoustics] — o tom das vozes deles e a proximidade do tijolo — transportou as palavras até mim, lá em cima no patamar» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., p. 166).

      Não me parece que seja a melhor tradução de tricks of the accoustics. Já «ilusão», apesar de próximo, me parece muito melhor. E «efeito» ou mesmo «fenómeno» talvez não sejam de rejeitar.

 

[Texto 4055]

Helder Guégués às 11:14 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas:

Tradução: «implication»

Consequência, inferência

 

 

      «— Tinha uma reunião muito importante — retorquiu ela, ignorando a implicação [implication] de Angus» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., p. 157). «A implicação [implication], pensou Eva de imediato, era demasiado clara — onde é que estava a subtileza?» (idem, ibidem, p. 213).

      Eu é que não quero implicar, mas vejamos. Implication também se pode traduzir para «implicação», mas, no contexto (mais claro para o leitor do Linguagista na segunda frase), será sugestão, insinuação.

 

[Texto 4054]

Helder Guégués às 11:12 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas:
17
Fev 14

Tradução: «detective constable»

Mesmo que se perca em precisão

 

 

       «Ele sentou-se, pediu se podia despir o casaco — um calor sufocante lá fora — e disse que era detective da polícia, “Detective Constable” Frobisher, um nome que achei tranquilizador, por alguma razão perversa, pensei, enquanto DC Frobisher pendurava cautelosamente o casaco sobre o braço de uma cadeira e se sentava de novo» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., p. 194).

      Isto não pode ser assim: tem de ter alguma correspondência, próxima ou remota, com uma realidade nossa. Em Portugal também há detectives. Claro que a tradutora deu ali uma voltinha à frase, que no original é «and said his name was Detective Constable Frobisher», mas não é suficiente. Ou inspector ou inspector-chefe, ou seja o que for, alguma tem de corresponder, e é essa que se usa.

 

 [Texto 4053] 

Helder Guégués às 11:10 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: