18
Fev 14

Mais Rowling

Um outro eu

 

 

      «J. K. Rowling vai publicar em Junho, sob o pseudónimo Robert Galbraith, mais um romance policial protagonizado pelo detective Cormoran Strike e pela sua jovem e empreendedora secretária Robin Ellacott. Depois de Quando o Cuco Chama (The Cuckoo’s Calling, 2013), que tratava do aparente suicídio de uma top model, a autora da saga de Harry Potter coloca agora o seu investigador privado – um ex-soldado que perdeu uma perna no Afeganistão – a procurar um romancista policial desaparecido. O novo livro chamar-se-á Silkworm (bicho-da-seda) e será lançado a 24 de Junho pela editora Little, Brown, que o descreve como “um romance policial de leitura compulsiva e com reviravoltas a cada passo”» («Alter-ego de J. K. Rowling vai publicar novo livro policial», Público, 18.02.2014, p. 27).

      Não li — mas porquê alter ego, pode saber-se? É o que se diz por aí: «JK Rowling writing new thriller under alter ego». Brevemente vamos aqui analisar Quando o Cuco Chama. Algo me diz que a tradução (de Ana Saldanha, Maria Georgina Segurado e Rita Figueiredo) é boa. Daremos então também uma olhadela à tradução brasileira (O Chamado do Cuco), de Ryta Vinagre, publicada pela Rocco.

 

[Texto 4070]

Helder Guégués às 20:50 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Que títulos

P***a

 

 

      «Vila Praia de Âncora vai lutar para colocar o rio no seu troço original» (Público, 18.02.2014, p. 12). Que raio de título é este? (Estive quase para escrever que merda, etc., mas seria demasiado malcriado, e os leitores não iam desculpar-me.) Troço! Então à parte da crusta terrestre sobre a qual corre um rio não se dá o nome de leito? Sim, já nem peço que escrevam «álveo».

 

[Texto 4069]

Helder Guégués às 17:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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De braços ligados

Ligações perigosas

 

 

      «Estava à espera do usual pequeno quórum de esquerdistas zelosos e alguns punks à procura de divertimento, mas aqui estavam dúzias de polícias, de braços ligados [arms linked], mantendo a entrada para o College tão aberta e desimpedida quanto possível» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., p. 268).

    O que pensa logo e chega mesmo a ver (a visualizar, diz-se agora) o leitor desprevenido? Os polícias com faixas de gaze ou de outro tecido para manter curativos, por terem sido agredidos, sovados. Não é que eles muitas vezes não o mereçam, note-se, até porque são fortes é com fracos, mas nada disso acontece aqui. É preciso estar sempre atento às palavras.

 

[Texto 4068]

Helder Guégués às 16:45 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Mais plantações

Não percebo

 

 

       «– Eles acharam que era suficientemente bom. Raul ia simplesmente plantá-lo [plant it], enviá-lo para um jornal local. Era esse o plano. Até que o teu plano o suplantou» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., p. 242). «Teria deliberadamente plantado essa ideia na cabeça dela?» (idem, ibidem, p. 247).

      Não sei como é que uma tradutora escreve deliberada e reiteradamente uma coisa destas. E a revisora é daquelas de que a maioria dos tradutores gosta: está tudo bem! Siga.

 

 

[Texto 4067]

Helder Guégués às 16:32 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Sobre/sob» — a confusão continua

Digam-lhe, vá lá

 

 

       «É um caso raro: uma mulher, alegada assassina em série, está agora sobre investigação federal», disse no Telejornal de ontem a correspondente Márcia Rodrigues. Para dizer isto viajou até ao Alasca. Espantoso.

 

[Texto 4066]

Helder Guégués às 16:22 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Mais plurais falhados

The Comeaus of this world

 

 

      «Nunca confies em ninguém, nunca confies numa alma desta terra – excepto, pensou, nos Witoldski e Comeau deste mundo» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., p. 287).

      Neste caso ainda é pior, porque de certeza que ninguém, nem a corja académico-tarouca, defenderá que é assim. Nomes próprios. No original: «except, she thought, the Witoldskis and the Comeaus of this world».

 

[Texto 4065]

Helder Guégués às 11:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «davit»

Incompleto

 

 

      «Certa noite, uma onda particularmente grande arrancou um dos botes salva-vidas do Brazzaville dos gavietes [davits] e não conseguiram içá-lo de novo com o guincho para a sua posição original» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., p. 298).

      Julgo que está bem traduzido. Paulo Araujo, o nosso especialista em náutica, já no-lo dirá. O que não está bem é a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «espécie de roldana colocada normalmente à proa do navio, que serve para suspender a âncora». Só a âncora? Vem do castelhano, que regista a primeira abonação no final do século XVI.

 

[Texto 4064]

Helder Guégués às 10:49 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Tradução: «elocution»

Pois é

 

 

   «Duas vezes por semana, Eva apanhava, sozinha, o comboio para Edimburgo, onde tinha aulas de elocução [elocution] com uma mulher tímida em Barnton, que, lentamente, mas de facto, lhe removeu os últimos vestígios do sotaque russo do inglês» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., p. 54).

   Não é aulas de dicção que sempre dissemos? Então, continuemos a dizer. Houve uma altura em que eu queria ter aulas de dicção com a Prof.ª Germana Tânger, que, por sua vez, já fora aluna de dicção, em Paris, de George Le Roy.

 

[Texto 4063]

Helder Guégués às 10:44 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Tradução: «two blunt stubby barrels»

Não se percebe

 

 

      «A minha mãe deu um passo na direcção dele e endireitou o braço, os dois tocos de canos embotados [two blunt stubby barrels] apontando dirctamente para a cara dele, a poucos centímetros» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., p. 321).

      O leitor, acho eu, só pode ficar perplexo. E logo depois irritado. Como podia descrever-se uma espingarda de canos serrados curtos? Serão as mesmas quatro palavras, mas não as escolhidas pela tradutora.

 

[Texto 4062]

Helder Guégués às 10:35 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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18
Fev 14

Particípios duplos

Temos de ver isso

 

 

      «Não sentia culpa, nenhuma compunção em relação ao que fizera a Luis de Baca. Se não o tivesse morto, sabia que ele a teria morto no minuto ou dois seguinte» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., p. 239). «Suponhamos que Baca me tinha morto — não teria feito qualquer diferença» (idem, ibidem, p. 332).

  As mais recentes gramáticas da língua portuguesa já devem admitir tudo, imagino, mas, até há pouco, com os verbos auxiliares ser e estar, empregava-se o particípio irregular do verbo principal: foi/está morto; com os auxiliares ter e haver, empregava-se o particípio regular: tinha/havia matado.

 

[Texto 4061]

Helder Guégués às 10:30 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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