21
Fev 14

«Entesão»?

Tesão africano

 

 

      Algum leitor sabe se em Angola se diz, além de tesão (erecção, desejo sexual) entesão? Nada mais natural, até porque temos o verbo «entesar».O Dr. Google parece sugerir que sim, mas isso vale o que vale.

 

[Texto 4095]

Helder Guégués às 20:19 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Como se»?

Já merece uma entrada

 

 

      «– Eu terei isso em atenção — garantiu-lhe Strike num tom ameno, antes de voltar para o seu gabinete, onde Bristow estava sentado como se em oração, com a cabeça inclinada sobre as mãos unidas» (Quando o Cuco Chama, Robert Galbraith. Tradução de Ana Saldanha, Maria Georgina Segurado e Rita Figueiredo. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2013, 2.ª ed., p. 47). No original: «“I’ll bear that in mind,” Strike assured her blandly, before returning to the inner office, where Bristow was sitting as though in prayer, his head bowed over his clasped hands.»

      Já, já merece, porque vai aparecendo em várias traduções. Vimos que é mais uma invencionice, pois sempre se disse «como que» ou «como que para». E, o que é mais espantoso, não podemos dizer que seja decalque da língua de partida. Um mistério muito maior do que o do romancista desaparecido.

 

[Texto 4094]

Helder Guégués às 19:59 | comentar | ver comentários (29) | favorito
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Tradução: «drugstore»

A palavra pesquisada, etc.

 

 

      «Tinha chegado a Sainte-Justine quando a aldeia estava a começar a acordar e a bulir e pedira um café e um dónute na drugstore com os primeiros clientes antes de apanhar o primeiro autocarro para Montreal» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., pp. 275-76).

      Por um lado, soube evitar o donut, o que vejo pela primeira vez, mas, por outro, achou insubstituível drugstore. Eu nem sei o que é um drugstore; «drogaria», como vejo em vários dicionários bilingues, não me parece. No Merriam Webster lê-se que é «a store that sells medicines and various other produts (such as newspapers, candy, soap, etc.)». Ali na Fernão Lopes, ao Saldanha, havia (há?) um Drugstore Saldanha, mas seria apenas o nome. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o verbete «dónute» remete para... «donutx»! Clicamos nesta palavra e surge a mensagem: «A palavra pesquisada não foi encontrada». Pudera.

 

[Texto 4093]

Helder Guégués às 13:28 | comentar | ver comentários (8) | favorito

Tradução: «trust fund»

Tão-só

 

 

      «O meu pai deixou-me um fundo fiduciário considerável» (Quando o Cuco Chama, Robert Galbraith. Tradução de Ana Saldanha, Maria Georgina Segurado e Rita Figueiredo. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2013, 2.ª ed., p. 41). No original: «My father left me a sizeable trust fund.» A tradutora brasileira — e já vimos que os tradutores brasileiros, de maneira geral, não são muito dados a minudências — verteu para «aplicações».

 

[Texto 4092]

Helder Guégués às 12:23 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «monobrow»

Temível virago

 

 

      «Forte e muito morena, com o cabelo escorrido à pajem e o que poderia ser uma monossobrancelha [monobrow] se ela a não depilasse, parecia uma pessoa naturalmente zangada» (Quando o Cuco Chama, Robert Galbraith. Tradução de Ana Saldanha, Maria Georgina Segurado e Rita Figueiredo. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2013, 2.ª ed., p. 42).

    Nunca tinha lido ou ouvido a palavra «monossobrancelha» (mas já conhecia Frida Kahlo). De qualquer maneira, a tradutora brasileira optou por verter de outra forma: «uma única sobrancelha».

 

[Texto 4091]

Helder Guégués às 12:13 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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Um repasse só nosso

E agora?

 

 

      «Repasse: 3. Econ. Transferência total ou parcial de crédito, verba etc. de uma empresa, entidade, órgão governamental etc. para outro a ele vinculado ou não (repasse de tributos/de dinheiro).» É a definição do Aulete. Como dizemos nós isto? Transferência? Falta-lhe, e de que maneira, univocidade. Aceito propostas — não em carta fechada, mas em comentário aberto.

 

[Texto 4090]

Helder Guégués às 11:35 | comentar | ver comentários (3) | favorito

E agora... «auto-edição»

Da amnésia

 

 

      «Manuel Jorge Marmelo explicou que, depois de ficar desempregado, lançou em auto-edição um livro de contos, Zero à Esquerda, e as Crónicas do Autocarro através da Amazon, que permite imprimir os livros após compra. Porquê? “Para me manter ocupado e porque nas editoras dizem que os meus livros não vendem, e os de contos ainda menos”, explicou ao PÚBLICO. O tempo permitiu-lhe ainda terminar um romance, e está prestes a acabar um outro, mas sem “perspectivas de editar nenhum nos tempos mais próximos”» («Manuel Jorge Marmelo vence Prémio Correntes d’Escritas 2014», Luís Miguel Queirós e Joana Amaral Cardoso, Público, 21.02.2014, p. 35).

      Já aqui tínhamos visto «autoedição», a versão acordista da tontice; a versão antiacordista não é muito melhor.

 

[Texto 4089]

Helder Guégués às 11:12 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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«Ser suposto» — o horror

Olha se fosse de Ciências

 

 

       «E é assim que nos damos conta, nesse descampado linguístico, do absurdo de um “porquessinismo” que manda escrever “Egito” e egípcios, “exceto” e mentecapto, “caráter” e característica. Facultatividades? O contexto decide? Ah mas não era suposto que o AO acabasse com os alegados elitismos das pessoas que pretendem simplesmente transmitir toda a herança linguística greco-latina, dos docentes que encaram de peito firme a complexidade de todas as línguas porque se enquadram numa família etimológica?» («O sustentável peso da língua, casa comum», Teresa Rodrigues Cadete, professora da FLUL e presidente do PEN Clube Português, Público, 21.02.2014, p. 55).

    Não se percebe porque estão umas palavras entre aspas e outras não. (Talvez explicável também pelo «porquessinismo».) E também não se percebe a necessidade de usar uma expressão alienígena como «ser suposto». E a autora é professora na Faculdade de Letras. Não há dúvida que deitar abaixo o AO90 é patriótico, mas não mais, a meu ver, do que usar bem a nossa língua.

 

[Texto 4088]

Helder Guégués às 10:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Guinéu-equatoriano/equato-guineense»

E a pior é...

 

 

   «No poder desde 1979, o presidente guinéu-equatoriano Teodoro Obiang está entre os governantes mais ricos e piores ditadores do mundo.» Não é todos os dias que lemos a palavra guinéu-equatoriano. O Dicionário da Lingua Portuguesa da Porto Editora remete para... equato-guineense. Espantoso.

 

[Texto 4087]

Helder Guégués às 08:25 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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21
Fev 14

Ortografia: «catalisador»

Pensar e sentir

 

 

      «Ele sabia mais sobre a morte de Lula Landry do que alguma vez tencionara ou quisera saber; o mesmo poderia dizer-se sobre virtualmente todos os seres pensantes no Reino Unido» (Quando o Cuco Chama, Robert Galbraith. Tradução de Ana Saldanha, Maria Georgina Segurado e Rita Figueiredo. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2013, 2.ª ed., p. 37). No original: «He knew more about the death of Lula Landry than he had ever meant or wanted to know; the same would be true of virtually any sentient being in Britain.»

      Cá temos de novo o «virtualmente». A tradução brasileira não caiu nesta, e também não verteu sentient being para «ser pensante», mas para «ser senciente» (conceito com que Montexto tripudiava aqui). Uma galinha é um ser senciente; uma pessoa é um ser pensante. As tradutoras também podiam contestar, legitimamente, a teoria — mas fora da tradução.

 

[Texto 4086] 

Helder Guégués às 08:18 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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